segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Tiemblan de terror los corazones holandeses

Nunca na década se esperou tanto do futuro são-luizense

O domingo foi importante para o futebol da América do Sul. Horas antes de o Banfield conquistar o título argentino pela primeira vez numa história de 113 anos, de o Universitario confirmar sua condição de maior campeão peruano e recuperar a taça que não via desde 2000, de o Nacional de Assunção ratificar o azar de Miguel Ximénez e ganhar seu primeiro título paraguaio em 63 temporadas, de o Real Potosí virar um 3 a 1 para 3 a 4 em La Paz e bater o Bolívar na final do Torneo Playoff, e de o Deportivo Táchira saltar do terceiro lugar para o primeiro na última rodada e se sagrar campeão do Apertura venezuelano, o São Luiz de Ijuí deu a largada na sua pré-temporada.

Este de 2009 é o São Luiz mais promissor da década. Uma pena que a década vá acabar antes de eles terem chance de disputar o Gauchão – sou da corrente que diz que a primeira década do século acaba dia 31, e não no fim do ano que vem –, mas ao mesmo tempo significa que o próximo decênio começará em alto nível. Só nos tempos de Segundona, quando os adversários eram mais fracos, Ijuí confabulou com tanto otimismo sobre o futuro do clube, meses antes de o campeonato começar. Antes de cair e depois de subir, nunca se viu tanta CERTEZA de que o time realmente poderia fazer coisas grandes na elite – como de fato não fez em todos esses dez anos, pois a última vez em que o São Luiz passou da primeira fase do Gauchão foi em 1999.

O quadro do 19 de Outubro vive de ciclos de entusiasmo. Os anos 1970, especialmente a sua metade, incluíram melhorias no estádio (leia-se REFLETORES), um quinto lugar no estadual e um título internacional, a Copa dos Gaúchos. Depois disso o time sumiu. No início da década de 1990, novo regozijo em toda a Colmeia do Trabalho, com a cobertura do pavilhão do estádio, o retorno à primeira divisão, o vice-campeonato da Copa Governador do Estado e um jogo-treino contra a Seleção Brasileira. O final dos 90 foi outra época feliz, com taças em torneios regionais e as derradeiras passagens de fase no Gauchão. Após aquilo, novo ostracismo. Agora, é como se vivêssemos a abertura de outro desses ciclos. No primeiro semestre deste ano, até um hino e um mascote o São Luiz ganhou. No segundo, uma preparação que começou incrivelmente cedo – antes de outubro findar, já havia em Ijuí contratados suficientes para formar dois times inteiros.

E não quaisquer contratados. O São Luiz de 2010 terá jogadores afirmados no futebol do interior, como o excelente meia CHIQUINHO (ídolo na campanha campeã da Segundona de 2005, depois herói também no Inter-SM e certamente o melhor jogador que passou por Ijuí na década), o matador atacante Eraldo e o igualmente ofensivo Leandro Rodrigues. O bom goleiro Oliveira e o lateral Xaro, destaques de outros anos, foram mantidos. Luciano Fonseca, o Marreta, e Raone, ambos ex-Grêmio, são os tradicionais reforços-com-passagem-pela-capital que defenderão as cores ijuienses no ano que vem.

O trabalho bem feito na busca por reforços merece prêmio. Como disse o presidente do clube Sadi Pereira, com esses nomes resta esperar que a sorte apareça em campo, porque fora dele foi feito o melhor possível. E o São Luiz também começa o ano que vem com a glória de ter desprezado um patrocinador nacional em prol dos apoiadores regionais. A Embratel surgiu nos pórticos do 19 de Outubro querendo monopolizar a camisa, prometendo biscoitos amanteigados infinitos (?), mas recebeu uns tapinhas nas costas, um muito obrigado e foi mandada embora sem assinatura de contrato. Os dirigentes ijuienses, desconfiando que um casamento desses não dura mais que um ano, preferiram ceder o manto às empresas locais, que sempre estiveram ao lado do clube. Pode acabar sendo mais lucrativo.

Amistosos incomuns como o frescor da temperatura dessa metade de dezembro conspiram para fortalecer o ar de esse-ano-vai. Na próxima quarta-feira, a Chapecoense desembarca em Ijuí para o segundo duelo do São Luiz na pré-temporada. Um time de fora do Rio Grande enfrentando o Zangão (vamos já popularizar esse apelido que o nascimento do mascote nos oferece) é coisa que não se vê há anos. Minha memória, que vai para uma década e meia de cancha, não traz a lembrança de um jogo interestadual sequer. Nos registros, esses duelos envolvendo o alvirrubro são vistos no longínquo 1995, pela Série C do Brasileirão. Deve haver um ou dois amistosos posteriores, mas não chegaram a criar recuerdos. Para a primeira semana de janeiro, os são-luizenses ainda tentam trazer o Criciúma para mais um jogo preparatório contra ESTRANGEIROS.

Mas todos os delírios de grandeza precisam começar por baixo. E o primeiríssimo dos amistosos desse São Luiz que sonha tão alto quanto o olhar do povo noroestino gaúcho pode alcançar foi um prosaico enfrentamento contra amadores. Lá na tranquila Giruá, sobre seu rico solo vulcânico de origem basáltica (valeu Wikipédia), o time de Ijuí bateu o Aimoré local com uma daquelas goleadas acachapantes desprovidas de qualquer significado, mas que são obrigatórias e vão formando uma ideia de time. O São Luiz ganhou por 0 a 7. Um certo Nicolas, saído do time reserva, de quem não se falara nada até então e inexistente na relação de jogadores apresentada no site do clube, foi aclamado pelas rádios como promissor.

Está óbvio que Nicolas é uma arma secreta do São Luiz. Como será, talvez, o jovem cearense Torres – um guri a quem foi dada a missão de guardar umas URNAS na apresentação do hino são-luizense só pode ser digno de confiança; e merecer a fé alheia é o que basta para os dias de um centroavante fazerem sentido. Seja como for, ontem surgiu a notícia de que o PSV Eindhoven desistiu de enfrentar o campeão gaúcho na excursão que supostamente fará pelo Brasil – ao invés disso, escolherá o representante da Dupla Gre-Nal que ficar melhor colocado no estadual. Só porque a Dupla ganhou 53 dos últimos 55 campeonatos não quer dizer que o PSV tenha trocado seis por meia dúzia. O temor em cruzar com o São Luiz é evidente no olhar daqueles holandeses.

A foto magnífica é da Giuliana Matiuzzi.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sem título: uma ausência necessária

Colaboração especial de Gabriel Eduardo Bortulini

Em 2006, quando o Instituto Anglicano Barão do Rio Branco já se responsabilizava pelo Ypiranga Futebol Clube, eu ingressei no Ensino Médio – para a família Schillo, o PPV, ou seja, Preparação Para o Vestibular – daquele “centro penitenciário” erexinense.

No primeiro dia de aula, porém, vejo um colega vestindo a camiseta do colégio Medianeira. Essa escola é uma potência estadual em termos de futebol (não falemos de competições alto-urugaienses, nas quais atletas como eu, que vinham de pequenas cidades como Campinas do Sul, já entravam em campo sabendo que perderiam). A ideia de que o guri era bom de bola, a partir desse momento, tomou a minha mente.

Chegara a hora de cada aluno apresentar-se. Aquela chatice de início de ano que, naquele tempo, era mais aborrecedora já que as pessoas conheciam Campinas do Sul. Eu não tinha a essência do meu charme. No momento em que ele pronunciou seu nome completo, no entanto, o futebol transformou-se em iatismo. Saimon Tormen era o nome. Eu entendi Torben e fiz ligações com o velejador. Mas isso não interessa.

Passou algum tempo e todos já se “conheciam”. Naquele dia (creio que uma terça), teríamos educação física. Íamos para o Tênis e Cia. com o mesmo ônibus usado pelos jogadores do Ypiranga. Ele tinha um cheiro de suor e uma cor que lembra bosta. Chegamos lá, lanchamos e resolvemos jogar uma pelada. Saimon de um lado e Gabriel Eduardo de outro. Eu nunca fui bom jogador de futsal. Sempre fui alto e desengonçado. Era, sim, um jogador muito bom no futebol de campo, mas na quadra eu nunca me acertei. O jogo começou e eu estava na ala esquerda. Lembro que chutei uma bola com extrema força e ela tocou o lado canhoto da goleira. Depois disso veio o vexame. Inventei de marcar o pivô do time adversário. Era o Saimon, que, na época, era o mais avançado do time. Aquele jogador, faceiro demais para o meu gosto, vinha na minha direção. Eu não tive dúvidas: fui de encontro a ele. Quando me dei conta já era tarde. A bola, grudada no seu pé, foi de um lado para o outro. Era um elástico! Até o momento nada de mais, elásticos já são dominados por vários futebolistas amadores. Mas aquele foi diferente. Me pegou desprevenido e me desnorteou. Passou pelo meio das minhas pernas! Ele ria de mim. Eu prometi me vingar, mas nunca pude fazê-lo. Meu dia terminara no ato. Não se faz necessário contar-lhes o resto do jogo. Não queremos melancolia.

No outro dia, acordei, fui para a aula e lá estava o desgraçado. Eu já tinha arranjado alguma desculpa qualquer para iludir a mim mesmo sobre o ocorrido. A aula ia passando normalmente. Nada de lembranças da educação física. Saimon, todavia, me indaga: “Ooo, Gabriel, já comprou a redinha?” Me peguei a imaginar várias possibilidades para entender o que ele me perguntava, mas não cheguei a conclusão alguma. Tomei, então, uma das decisões mais ingênuas de minha vida. Perguntei-lhe: “Que redinha?” “Pra colocar no meio das tuas pernas. Assim não toma mais caneta.” Fiquei furioso. Desejei-lhe tudo de pior. Queria que ele enfiasse a redinha no meio do ** dele pra não tomar mais vocês sabem o quê. O meu feedback foi um sorrisinho falso. O resto do ano foi assim. Ele debochava e eu o amaldiçoava (parte fictícia da história [talvez]).

Saimon tinha um grande defeito que parece ter sido corrigido. Um defeito que não posso contar por respeito a ele (sim, eu o respeito). Mas era uma falha. Talvez seja própria da espécie. Entretanto, era 2006 – um ano errado e, quem sabe, fictício. Durante o inverno, a situação tornava-se crítica. Começávamos a entrar no planeta dos macacos. Eu já não tinha forças contra tamanha barbaridade. Não poderia piorar.

Pois piorou. Era dia de Peies. Eu pensava somente na prova. A taça do mundial já estava na Catalunha, acreditava. Mas começou o foguetório. Matemática e Química que me desculpassem, eu não aguentaria tanto ódio. Voltei para casa emburrado. Surgiam Donkey Kongs de todos os cantos e o Super Mário, como de costume, fugira sem detê-los.

Contudo, de alguma forma, minha maldição fez efeito. Aquele que tanto me debochara havia reprovado. Foi o começo de novos tempos.

A última conversa considerável que eu tive com Saimon ocorreu no início de 2007, um ano normal, quando eu – ao sair do ônibus que tinha batido o espelhinho lateral na placa “Proibido Estacionar” – o encontrei :
- Dá-lhe Veranópolis.
- É, não dá pra ganhar tudo dois anos seguidos...

Depois disso, soube que ele integraria as categorias de base do Grêmio.

Hoje, eu curso jornalismo. Saimon, segundo o blog do Zini, recebeu uma proposta de 7 milhões de dólares. Eu sempre fui bom aluno. Ele, nem tanto. Em contrapartida, ele não terá diploma. Eu terei (grande diferença).

Talvez desvendar o segredo desse promissor atleta seja antiético. Se não for, maravilha. Se for, tudo bem, o que esperar de alguém que roda por faltas numa cadeira chamada “Ética e Cidadania”? Apenas cansei de ser certinho. Seguirei os passos do Saimon e rodarei agora para ser rico no futuro. Ou não.

E mais uma coisa: se ele jogasse contra o Flamengo, teríamos mais problemas.


* * *

Gabriel Eduardo, o Campinas, cursa o segundo semestre de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria. Com a experiência de quem tentou marcar - em vão - o portentoso Saimon, gasta suas horas vagas prometendo honrar a camisa do Coió FC, nas frequentes (?) edições do Torneio Aberto Misto Para Alunos da Comunicação Social, o TAMPACS.

Foto encontrada no Twitter de Eduardo Cecconi.

Perpétuo até o fim da semana (4): Miguel Ximénez

O Olimpia não tinha como prever, mas, no mesmo 2002 em que ergueu a sua última Libertadores da América, desamarrou seu ginete num barranco e deu início a um declínio sem precedentes em sua própria história. Excetuada a Recopa ganha no ano seguinte, numa feliz jornada única contra o San Lorenzo, em Los Angeles, o clube mais vencedor de Assunção não levantou mais taça alguma. Seu último título nacional data de 2000 – o jejum mais longo do clube, contando as eras amadora e profissional do futebol paraguaio. Nesse período, outro alvinegro da capital assumiu o controle do país: o Club Libertad.

O time das ilusões do presidente da CONMEBOL Nicolás Leoz pôs os tanques na rua e começou a constituir sua ditadura naquele próprio 2002. Sem ser campeão paraguaio desde 1976, o Libertad reconquistou o título na temporada em que o Olimpia festejava a maior glória da América pela terceira vez. Desde então, não se ausentou mais das duas primeiras posições do certame: bicampeão em 2003; vice do Cerro Porteño em 2004 e 2005; recuperou o troféu em 2006 e repetiu o bicampeonato em 2007. Em 2008, recebeu uma ajuda da Associação Paraguaia para aumentar seu cartel de títulos: o torneio nacional, até ali único para o ano inteiro, foi dividido em Apertura e Clausura. O Libertad ganhou os dois.

Este ano começou igual aos anteriores, e no Apertura os Gumarelos não baixaram da segunda posição, sendo vices novamente para o Cerro, porque o Olimpia continua no inferno. Hoje o Libertad conta catorze títulos. Metade do total do Cerro e vinte e quatro a menos que o Olimpia. Mas desde que começou seu reinado já superou o Guaraní, dono de nove entorchados, na lista dos maiores vencedores do Paraguai. Um dos perigos poderia ser a inexperiência dos jogadores: no jogo do fim de semana, por exemplo, dez dos catorze atletas que entraram em campo tinham menos de 25 anos. É, contudo, um erro acreditar nisso. Todos eles são de uma geração de Repolleros que viu as taças entrando em casa como se fossem normais. Sabem como funciona.

O uruguaio Miguel Alejandro Ximénez Acosta, atacante, 32 anos, era a segunda alma com mais anos desde o parto dentre as que vestiam a camisa do Libertad naquele mesmo jogo de domingo. E o menos habituado a esse álcool que embriaga as almas dos campeões. Ximénez, natural de Maldonado e revelado pelo Deportivo dali, esteve até a beira da sua terceira década de vida rondando por clubes pequenos. Perambulou pelo Atenas de San Carlos, pelo Plaza Colonia e ainda fez um improvável estágio de menos de um ano no Comunicaciones da GUATEMALA, um poderoso daquelas bandas.

Se ser grande por lá não significa muito cá, viver o cotidiano de um clube que já possuía vinte e um títulos nacionais (e que conquistaria sua 22ª Liga Guatemalteca em 2008) parece ter aberto portas em quadros mais ou menos gloriosos na América do Sul. Ainda sem ouro na bagagem, Ximénez voltou para vestir a camisa do Danubio – cujas vitórias são recentes, até, mas no 2005/06 de Miguel não ganhou nem a Liguilla. Depois, fardou pelo Montevideo Wanderers. Saiu do Uruguai mais uma vez, continuando como um andarilho a colecionar, agora, camisas de velhos campeões. Na Colômbia, foi Junior de Barranquilla. No Peru, Sporting Cristal.

E pelo Cristal, já dobrando a curva dos trinta anos, essa miserável esquina que cisma em dizer que mitos podem tornar a ser comuns, o atacante que nem perto de mítico chegara teve o maior momento de brilho dessas longas décadas passadas desde o dia em que foi um nascituro: na primeira metade da temporada, entrou em campo vinte vezes e marcou vinte gols. No total de 2008, Miguel Ximénez balançou as redes 32 vezes em 41 atuações. Artilheiro do Campeonato Peruano, maior goleador do clube numa única edição do torneio e terceiro jogador que mais marcou gols em campeonatos nacionais de todo o mundo no ano passado. Apenas o holandês Klaas Jan Huntelaar (33 gols pelo Ajax) e o argentino Lucas Barrios (37 pelo Colo Colo) tiveram seus nomes escritos mais vezes do que Ximénez na seção “gols” das súmulas.

Títulos relevantes, porém, Ximénez não ganhou. E no início deste ano, já conformado com a aparente maldição que pesava sobre suas costas, foi antes pelo dinheiro do que pela sede de medalhas que desertou das linhas do Sporting Cristal. Contemplando propostas que incluíam o rico futebol mexicano, com um contrato abanado pelos diretores do Tecos de Guadalajara, o oriental acabou considerando válido um acordo oferecido pelo próprio futebol sul-americano. Firmou com o Libertad a tempo de jogar – e marcar gols – na edição 2009 da maior Copa do continente, na qual o time avançou até as oitavas-de-final, parando no futuro campeão Estudiantes.

Alguém mais afeito à graça diria que foi só por culpa dele que o Gumarelo acabou vice do Apertura. Talvez. Garantido é que, a despeito do começo decente, as coisas não se acertaram para Ximénez. Nem na amplidão do time, como sempre, nem no individual, ao contrário do que vivera no Peru. Os infortúnios de cada dia – e como eles são comuns para alguém incapaz de sustentar taças sobre a cabeça! – afastaram o uruguaio da primeira equipe. No Clausura, Ximénez permaneceu longe do time e não teve como marcar sequer um gol. Ao entrar em campo para o jogo de domingo, pela penúltima rodada do campeonato, o atacante estava fazendo apenas sua terceira partida consecutiva como titular – sua série mais longa nessa metade da competição. Antes, ou entrara durante os jogos, ou começara um isolado, sem sequência.

O desse domingo era o jogo mais importante do segundo semestre. A duas rodadas do fim, o Libertad pisou o céspede como vice-líder, três pontos atrás do seu adversário do dia: o querido Club Nacional de Assunção, treinado pelo ex-goleiro Ever Hugo Almeida, que em 1989 jogava pelo Olimpia e parou os sonhos do Internacional nos pênaltis das semifinais da Libertadores. Uma vitória dos tricolores de Almeida garantiria ao clube o primeiro título paraguaio desde o longínquo 1946. Um empate praticamente faria o mesmo, mantendo a diferença em um trio de pontos ao sobrar uma mísera rodada pela frente.

O Nacional saiu vencendo, mas ao fim da tarde estava sendo jogado no poço dos amanhãs indesenháveis. Uma arbitragem polêmica e dois gols ferozes deram a volta no marcador e significaram ao Libertad a vitória por 2 a 1. O tento de empate, restaurador do orgulho e engrandecedor do apetite pelos metais nobres, foi anotado por Miguel Ximénez. O segundo homem mais velho do time, apenas dois anos a menos que o capitão Pedro Sarabia. O menos amigado aos títulos. Nos jornais do Paraguai, no fundo da tabela de artilheiros, e bem no fundo, porque X está para os confins do alfabeto, aparece agora: “Ximénez (Libertad) – 1”. O único gol do Chino Miguel no Clausura, como um grito desesperado de alguém a quem falta juventude, seguro de que, se o título não vier agora, poderá não vir mais.

Com a remontada, o Libertad igualou os 40 pontos do Nacional na primeira posição. Agora, visita o Tacuary, enquanto os tricolores duelam com o Olimpia no palco maior do Defensores del Chaco. Se o empate permanecer, o regulamento prevê uma partida extra entre os dois. Ximénez espera alinhar nos onzes iniciais dos jogos que forem necessários para ganhar o título. Seu título, mais do que dos outros, pois sem ele sempre terá faltado algo em toda essa existência a percorrer os caminhos da América.

Foto arrancada da internet, ainda da época da Libertadores.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Saltar no vazio

Sabe o sentimento que se tem de presenciar algo que a vida não repetirá tão facilmente? O gol do Grêmio, ontem, foi um desses momentos. Nem vi a tímida celebração dos atletas tricolores porque tinha a certeza de que ela era banal. Maracanazos há dois por ano. Outro deles não seria novidade e, pelas circunstâncias da rodada, nem digno de grandes festejos. Fazer um Beira-Rio inteiro comemorar um gol gremista, esse era o valor daquele tento hipócrita. E os colorados vibraram sem pudores. Naquela PULGA de tempo em meio à história da humanidade, naqueles segundos posteriores ao gol de algum tricolor desimportante, foi como se a parte alvirrubra do Rio Grande estivesse dentro de um avião que recém decolara.

Porque muito mais difícil do que silenciar um Maracanã lotado era acreditar que o Grêmio, o Grêmio cheio de reservas, o Grêmio que poupou seus principais nomes sem motivo aparente, o Grêmio que parecia ter afirmado tão claramente que iria sim entregar, o Grêmio que mesmo querendo jogar para vencer dificilmente chegaria a tanto, pois tinha uma campanha tenebrosa como visitante, que esse Grêmio fosse fazer frente ao Flamengo. Subvertendo a lógica do futebol, aquela de respeitar seus torcedores, os atletas do time de três cores de Porto Alegre entraram em campo dispostos a defender sua HONRA PESSOAL e ignoraram os clamores de milhões. Queriam vencer, os loucos.

O gol colorado sobre o Santo André, marcado menos de dois minutos depois do 0 a 1 gremista no Rio de Janeiro, o gol que inverteu o topo da classificação brasileira e então dava o título ao Inter, foi o aviãozinho dos vermelhos e brancos ultrapassando as nuvens mais elevadas da atmosfera. A expectativa por uma taça-que-se-pode-ganhar-mas-dificilmente-deve-vir é a ciência de conter os hormônios, enzimas e fluídos que formam as aspirações. O coração quer sonhar e idealizar como será bom se tudo for feito, mas o cérebro vem com a razão irritante e avisa que o melhor é esquecer essa história, porque as chances são pequenas e haverá mais dor no caso da desilusão quase certa vir.Por isso, a alma exigida pelos colorados e seguida pelos jogadores do Grêmio doeu nos vermelhos ainda mais do que uma entregada óbvia e natural. Ao tomar nota da correria, da briga, das defesaças de um Marcelo Grohe que passara o ano falhando, da autêntica raça para recuperar bolas perdidas exibida pelos gremistas, os colorados acreditaram estar diante da possibilidade real e recuperada de se entronarem campeões brasileiros. As sensações reprimidas pela racionalidade durante a semana, nos minutos em que o Grêmio vencia e o Inter já ia abrindo não só um, mas dois a zero, foram liberadas com a mesma intensidade que a adrenalina corre nas TUBULAÇÕES corporais de um paraquedista que se joga no vazio.

Acima das nuvens, da chuva, do bem e do mal, entre quase realizados e ainda sonhadores, cada colorado do mundo se atirou do avião que decolara quando dos gols do início da rodada. Tinham nos lábios um pouco do sabor da realização, e se dispuseram a correr o risco para senti-lo por mais tempo. Enquanto despencavam no ar, sem medo, com o chão se aproximando mais e mais, foram definindo que lá embaixo não estavam flores, mas areia e pedras.

O Grêmio não podia vencer. O Flamengo entrou em campo nervoso e desatento, quiçá pelo já ganhou, e fez uma das piores partidas desde que começou a reagir no campeonato. Sua apresentação ontem fez pensar que o Brasileirão de 2009 estaria coroando o pior vencedor da era dos pontos corridos, fosse quem fosse. O Fla errou muito. Adriano, de imperador, passou a engraxate das sandálias de um legionário de terceira classe de Roma. Ironicamente, foi com uma falta ofensiva dele que a zaga gremista ficou sem ação e o Fla pôde empatar no primeiro tempo, golpeando pela primeira vez os colorados. Os rubro-negros remontariam aos 69 minutos, quando Grohe desistiu de fazer a melhor partida da sua vida e voltou a procurar LEPIDÓPTEROS numa cobrança de escanteio, saindo mal na cabeçada goleadora de Angelim.

O 2 a 1 foi, para os colorados que ainda vinham inebriados na direção do solo, aquele átimo em que a euforia passa e a mente se ocupa de nada. No meio do ar, com o time goleando, recobravam agora a memória da comemoração de pouco antes e se questionavam: “o que estamos fazendo aqui?”. Depois daquilo, o Flamengo não correu mais riscos de perder o título. Ouço agora que o Grêmio foi digno, calou os que afirmavam que entregaria e jogou com força até o fim. Discordo. O Grêmio realmente fez mais do que se esperava dele, mas nitidamente freou seu próprio ânimo.

Ao mistão gremista faltou seriedade e ofensividade no segundo tempo. Não sendo o Inter o segundo colocado, os gols sairiam e o Maracanazo versão 118 teria se concretizado – ou não, mas o Flamengo teria sido obrigado a realmente jogar futebol para assegurar a taça, e não aquele pouco que mostrou ontem. Sutilmente, aos pouquinhos, o Roberson foi deixando de chutar. O Léo foi evitando brigar. O Fábio Santos foi preferindo dar passes para trás quando tinha corredores à sua frente. O Thiego foi errando passes infantis na defesa. Num campeonato marcado pela falta de vontade dos seus participantes em vencê-lo, o Flamengo fez tão pouco na última rodada que obrigou o Grêmio a terminar a partida patético, para conseguir perdê-la.
O jogo do Inter encerrou-se quando ainda restavam dois minutos no Rio. O Grêmio tinha a bola no ataque e só não buscava o gol pela situação da tabela. Os colorados já sabiam que aqueles ali não mereciam mais sua fé. O apito final de Héber Roberto Lopes coincidiu com o momento em que os paraquedistas encostaram os pés na terra. Um pouso sem traumas, pois com vaga na Libertadores. No entanto, com aquela frustração de chance perdida. Uma oportunidade que poderia ter sido melhor aproveitada. Apesar disso, sabem, e o passado já demonstrou, que mais piruetas podem ser dadas - e em paisagens mais interessantes. Olhando para o avião parado no fim da tarde, os saltadores alvirrubros imaginavam os pulos de 2010, agora sobre a América do Sul.

* * *

Comentários aleatórios sobre o resto da rodada:

- Estamos todos aliviados com o fim da hegemonia são-paulina.

- Recuperação fantástica do Cruzeiro e refugada épica do Palmeiras. Ninguém contrata Muricy para acabar em quinto lugar, dizia o presidente alviverde. Pois é.

- O Fluminense pode até com azeitonas murchas. Continuam precisando pagar a Série B, mas a ressurreição nesta temporada mereceu respeito.

- Interdição do Couto Pereira até que o estádio se torne um local minimamente seguro ou implosão e construção de uma nova cancha. É o mínimo que se pode exigir depois da batalha medieval de ontem. A julgar pelas deficiências do estádio do Coxa, a segunda opção pode até ser mais barata.

Fotos minhas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

É intervalo no Brasil

O Grêmio saiu ganhando.

O Beira-Rio vibrou absurdamente, num daqueles momentos que demorarão a voltar.

Logo em seguida, num lance irregular, o Inter fez 1 a 0.

E depois fez 2 a 0.

Mas o Flamengo, também num lance irregular, porque é disso que vivem as definições do Brasileirão, empatou.

O Inter segue sendo campeão com os resultados desse intervalo.

O que vai acontecer agora:

O Grêmio, que vem jogando incrivelmente bem, certamente pela ausência de Autuori e dos medalhões, continuará segurando esse PÉSSIMO Flamengo que mal consegue pressionar o mistão gaúcho.

Até o fim.

Um a um aos cinquenta.

Um a um aos sessenta.

Um a um aos setenta.

Um a um aos oitenta.

Um a um aos noventa minutos.

Serão 90+3 minutos de jogo.

A bola estará com o Grêmio.

O Inter seguirá ganhando.

Os tricolores trocarão passes no ataque.

Um flamenguista roubará.

Contra-atacará.

Serão cinco flamenguistas contra um gremista, que será Marcelo Grohe.

Num último recurso, esse inflamado Grohe de hoje dará uma voadora no guri flamenguista que, por acaso, será Adriano - de participação terrível nesta tarde.

Será expulso, o gremista.

Uma confusão começará sobre o campo.

Teremos sete minutos de acréscimo para além daquele momento.

No Beira-Rio já terá acabado.

Se o Fla errar o pênalti e empatar, o Inter será campeão.

O Grêmio não poderá substituir mais ninguém.

Sem Grohe, o destino do futebol brasileiro em 2009 estará nas mãos de...

THIEGO, que faz uma das suas melhores atuações no ano se oferecerá para o gol.

Então Pet irá para a cobrança.

Nessa altura serão 90+9 minutos de partida.

Thiego, que tem três estrelas tatuadas na panturrilha, as mesmas três estrelas que o Grêmio tem sobre o escudo, saberá que deve ficar no meio do gol e deixar a bola entrar em algum canto, pois é isso que seu povo quer.

Mas o Petkovic escorregará na hora da cobrança.

A bola voará esquisita.

Fraca.

No meio do gol.

E altinha.

Sem tempo de reação para fugir da pelota, Thiego acabará ficando em pé, no centro do arco.

Segurará firme a bola.

Será o último lance do jogo.

O juiz estará com o apito na boca.

A parte vermelha do Rio Grande do Sul já estará vibrando, só aguardando o instante em que o sopro do juiz for dado.

A parte azul do Rio Grande do Sul rirá eufórica, de raiva, aguardando aquele mesmo instante para saltar furiosa sobre a tevê, e destruí-la como se fosse culpada.

Faltarão dois décimos de segundo para o ar ser expelido pelo árbitro.

Temendo pela sua sobrevivência, Thiego cairá para trás agarrado à bola.

Gol do Fla. 2 a 1.

Falta a Hungria

Os húngaros festejam um gol contra Uruguai na Copa de 1954

É da Hungria que talvez tenha saído o primeiro clube da história a ser considerado o melhor do mundo. Nos anos 1950, antes dos torneios continentais oficiais, o Honvéd de Budapeste encantava a GENERALIDADE PLANETÁRIA. Suas linhas contavam com quatro dos nomes mais clássicos da inolvidável Seleção Húngara daqueles tempos: Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Jozsef Bozsik e Zoltán Czibor. Dos sete campeonatos nacionais disputados entre 1949 e 1955, o Honvéd venceu cinco - e jamais havia ganho a taça antes. Excursionava pelos continentes e lhe agradava triturar seus adversários, como o Santos de Pelé faria na década seguinte.

O Honvéd era o time do exército. Como sempre nos clubes de trás da cortina de ferro, uma fachada. Puskas foi apelidado Major Galopante exatamente pelo cargo que “ocupava” nas forças armadas. Seus companheiros, igualmente, eram todos oficiais que não sabiam bater continência. O suposto secundarismo do futebol na vida de cada um permitia que os países do Leste Europeu considerassem seus atletas de ponta como amadores, podendo inscrevê-los nas seleções que viajavam para as Olimpíadas. A Hungria iniciou o amplo domínio da região sobre os pódios olímpicos ganhando o ouro em 1952.

Apelidados Magiares Mágicos, os atletas húngaros seriam ainda os primeiros a derrotar a União Soviética em solo russo, e a triunfar sobre a Inglaterra em Wembley. Venceriam o Campeonato da Europa Central em 1953, e jogariam o melhor futebol da Copa do Mundo do ano seguinte. Aquela Hungria foi a experiência primária do que a Holanda viria a apresentar como Futebol Total, e trouxe ao esporte a novidade do aquecimento. Daí que raramente não estava vencendo seus jogos por 2 a 0 antes do décimo minuto. Parecia feitiçaria ou genialidade, mas nada mais era do que a versão rudimentar dos exercícios feitos hoje por todos os times do mundo antes de entrar em campo.

Aquela fantástica formação húngara acabou em 1956, com o fim do próprio Honvéd. Do grande Honvéd. Em outubro, uma revolta popular questionou o regime comunista no país. Imre Nagy, líder liberal, tomou o poder e retirou a Hungria do Pacto de Varsóvia. No mês seguinte, quando a União Soviética respondeu estraçalhando Budapeste com seus tanques, esmagando os democratas e enforcando Nagy, o Honvéd excursionava pela Europa. Na mesma noite, o time disputaria um amistoso na Suíça. Depois daquilo, a incerteza. Porque os jogadores não queriam voltar para a repressão. Além disso, estavam insatisfeitos com o risível prêmio por jogo pago pelo clube – uma parcela infinitesimal da fortuna que o Honvéd cobrava por cada amistoso no exterior –, e com a impossibilidade de se transferir.

Gyula Grosics, goleiro do time e da seleção, por exemplo, nunca conseguiu realizar seu sonho por causa disso. Torcedor do Ferencváros desde a infância, suas tentativas de jogar no clube de coração sempre esbarravam nas proibições impostas pelo regime: não lhe deixavam assinar contrato com eles. Grosics eventualmente sairia do Honvéd, mas só pôde ir para o Tatabánya. Ficou lá até 1962, quando encerrou a carreira aos 36 anos, depois de ouvir mais uma negativa ao tentar ir para a equipe de sua paixão. Em 2008, com 82 anos, Grosics tornou-se o mais realizado dos homens, e também o ser mais velho do mundo a participar de uma partida de futebol: jogou o primeiro minuto do amistoso do seu Ferencváros contra o inglês Sheffield United. Um único minuto – e depois daquilo, o clube aposentou a camisa 1 em sua homenagem.

Mas em fins de 1956 ele era do Honvéd. E o Honvéd era de um país mergulhado na escuridão do totalitarismo que voltava. Reunidos com o empresário da equipe, os jogadores tomaram a decisão: não regressariam mais à pátria. Tornaram-se refugiados. O jogo de volta da primeira fase da Copa dos Campeões da Europa, contra o Athletic de Bilbao, foi mandado pelo Honvéd no estádio Heysel, de Bruxelas. O time havia sido derrotado por 3 a 2 em solo basco, e foi vitimado pelo azar: perdeu o goleiro por contusão logo no início da partida. Sem substituições permitidas, os húngaros tiveram que jogar com dez o resto do tempo – e com o ofensivo Zoltán Czibor no arco. Ainda assim, empataram por 3 a 3. Insuficiente para passar de fase.

Jogado no limbo por conta da eliminação, o Honvéd flertou com a romântica ideia de passar o resto dos seus dias atuando nos campos do Oeste do Mundo. O treinador Béla Guttmann marcou amistosos na Itália, Espanha e Portugal. O México ofereceu asilo político ao Honvéd e um lugar no seu campeonato nacional, mas o time preferiu vir ao Brasil – onde fez cinco partidas contra Flamengo, Botafogo, e um combinado mesclando peças desses dois. Nessa altura a FIFA já havia declarado o time ilegal, e ameaçava banir de seus quadros quem ousasse jogar diante deles. O Honvéd ficou sem saída.

Alguns jogadores, como Grosics, aceitariam regressar ao país natal. Outros, em especial os craques Czibor, Kocsis e Puskas, exilaram-se na Europa Ocidental. A FIFA suspendeu-os por um ano. Cumpriram a pena. Em 1958, Czibor e Kocsis estrearam no Barcelona. Puskas, no Real Madrid. Guttmann, que só treinou o time naquele pôr-do-sol vivido em 1957, merece nota pelo que fez depois: no mesmo ano foi para o São Paulo, onde conquistou o Campeonato Paulista; mais tarde levaria o Benfica ao bicampeonato europeu em 1961 e 1962; e ainda teria uma passagem pelo Peñarol de Montevidéu.

A Seleção Húngara nunca mais foi a mesma sem os seus heróis dos anos 50. A última vez em que passou da primeira fase numa Copa do Mundo foi em 1966 - provando que seus derradeiros resquícios de bom futebol haviam sido deixados para essa época, voltou a ganhar o ouro olímpico duas vezes, em 1964 e 1968. Já a última participação em Copas do Mundo data de 1986. E não bastasse inventar uma REVOLUÇÃO DE VERDADE para destruir o Honvéd e a magia dos magiares, a história sempre brincou com o futebol da Hungria usando altas doses de sadismo. No período em que durou a equipe mítica, de 1950 a 1956, o selecionado disputou exatos 50 jogos, marcando 215 gols – venceu 42 e empatou 7. Perdeu apenas um. O maior de todos: a final da Copa do Mundo de 1954, contra a Alemanha Ocidental, no Milagre de Berna.

Sete anos depois, pelo Barcelona, Czibor e Kocsis voltariam a Berna para disputar a final da Copa dos Campeões da Europa diante do Benfica. A partida ficou conhecida como “la final de los postes”, pela importância que as traves tiveram nos lances dos gols que foram e não foram, e deu o empurrão final para a FIFA arredondar os paus da goleira, que eram planos. O Barcelona dominou amplamente a partida mas, digerido pelo azar e odiado pelas traves, levou 3 a 2. Desesperado, Kocsis concluiu, sobre o estádio Wankdorf: “agora entendo o que ocorreu em 1954. Neste gramado pesa uma maldição sobre todo húngaro que o pise”.

Após a derrocada do Honvéd, o Ferencváros assumiu a posição de destaque no cenário internacional, entre os times da Hungria. Venceu a Copa das Feiras em 1965, e foi vice dela três anos mais tarde. Também chegou à final da Recopa Europeia em 1975, sendo derrotado pelo Dynamo de Kiev. Curiosamente, o último time húngaro a chegar numa final continental foi o pequeno Videoton, da impronunciável cidade de Székesfehérvár, que em 1985 perdeu a decisão da Copa da UEFA para o Real Madrid, depois de eliminar potências como Paris Saint-Germain, Partizan Belgrado e Manchester United.

A Hungria e suas glórias voltaram à memória graças à declaração dada por Carlos Queiroz após o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2010. O treinador de Portugal, que claramente se empenha para tornar seu time tão inofensivo quanto era antes da chegada de Felipão, disse não temer o complicado grupo em que caiu. Com o reaparecimento de Brasil e Coreia do Norte, dois adversários lusitanos em jogos famosos da Copa de 1966, Queiroz foi perguntado sobre as similaridades do futuro caminho português com o de quarenta e três anos atrás. Respondeu: “para repetir 66, faltam Pelé, Eusébio e a Hungria”.

Pelé e Eusébio aposentaram-se com láureas. A Hungria continuará faltando. De campanha abaixo do medíocre nas Eliminatórias, ainda vê nos seus dois clubes simbólicos o arranhão cruel da infelicidade que parece sempre surgir no horizonte dos húngaros. O Ferencváros, que se orgulhava de ser o único time do país a estar sempre na primeira divisão desde a criação do campeonato nacional em 1901, foi rebaixado por dívidas em 2006 (voltou na temporada passada). O Honvéd, que não ganha a liga desde 1993, foi recentemente acusado de COMBINAR RESULTADOS para favorecer apostadores. E o pior: levou 5 a 1 no jogo que teria manipulado. O futebol magiar, que começou a decair pelos comunistas, chegou ao fundo da vergonha por causa do capital. Pobres húngaros, nem às ideologias podem se apegar.

Imagem tirada de um quadro de vídeo do jogo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Perpétuo até o fim da semana (3): Joaquín Boghossian

Vas a ver que lindo cuando allá en la cancha
Mis goles aplaudan; seré un triunfador
Jugaré en la quinta, después en primera;
Yo sé que me espera la consagración.

Joaquín Boghossian contempla o mundo e todas as coisas do topo de pernas que o elevam a quase dois metros do chão. Fora a altura e a origem armena, até poucos meses atrás não tinha muito que lhe diferenciasse de outros jovens que jogam o futuro nas canchas de futebol do sul da América. Em seus armários, guardava camisas das duas pérolas clubísticas sem destaque que defendera em sua Montevidéu natal: o Club Atlético Cerro e o Club Atlético Progreso.

O atacante de vinte e dois anos debutou nos gramados aos portões da maioridade. Em 2005, vestiu pela primeira vez num jogo profissional a camisa dos Villeros do Monumental Luis Tróccoli. Um ano depois, passou aos anarquistas do Progreso de Parque Paladino, para em 2007 retornar ao clube de origem e também ser chamado para a Seleção Uruguaia Sub-20. Suas idas e vindas não devem ter repercutido muito além das rodas de torcedores de cada equipe. Montevidéu tem clubes demais, e Cerro e Progreso não são exatamente os mais populares ou vitoriosos.

Até o ano passado, os times de Boghossian viam motivos para celebrar se conseguissem passar do décimo lugar na classificação geral de um Apertura ou Clausura. Mesmo com as convocações nacionais, ele era mais um na multidão de atletas. E a multidão era das maiores, repleta de jovens que jogavam pouco – em quantidade de minutos ou em qualidade de futebol. É nesse ponto que os dias do uruguaio Bogho começam a parecer o tango dos argentinos Juan Puey e Reinaldo Yiso. El sueño del pibe, que tem alguns versos abrindo este texto, conta a história de um menino chamado para jogar no grande clube de futebol local, seguro de seu destino e dono de um diferencial: dicen los muchachos de Oeste Argentino / que tengo más tiro que el gran Bernabé.

O grande Bernabé Ferreyra, el Mortero de Rufino, se aposentara havia pouco na época em que a música foi escrita, em 1943, e já se convertera num dos maiores goleadores do futebol até ali. Ser capaz de chutar melhor que o atacante nascido na província de Santa Fé era honra para pouquíssimos. Profissionalmente, Bernabé jogou entre 1931 e 1939, quando os pataços inimigos encerraram sua carreira aos trinta anos, e balançou as redes mais vezes do que entrou em campo: 206 gols em 198 partidas, a maior parte pelo River Plate. Seus canhonaços pareciam tão imparáveis que a certa altura um periódico portenho ofereceu uma medalha de ouro para os goleiros que não fossem vencidos por Bernabé – apenas De Nicola, do Huracán, e Sangiovanni, do Independiente, terminaram o campeonato condecorados.

Como o menino do tango, o jovem Boghossian também ouvia dos companheiros e amigos que tinha más tiro do que muitos dos consagrados pelos clubes grandes. E em 2009 deu razão a eles. O Cerro, 86 anos passados desde a fundação e nenhum título relevante na conta, ergueu sua primeira taça de alto nível numa temporada em que Joaquín Boghossian resolveu emendar jornadas goleadoras. Marcou nove gols no Clausura, saiu vice-artilheiro e contribuiu decisivamente para botar o Cerro entre os seis melhores da classificação geral do Campeonato Uruguaio. A participação na Liguilla transformou-se em título com quatro vitórias em cinco jogos, e mais três gols de Bogho.

Os vileiros tocavam o céu. Uma taça e uma vaga na Copa Libertadores de 2010, quinze anos depois da sua última e única participação no torneio, em 1995. E o pistoleiro resolveu sair. De repente, com a promessa de idolatria eterna no Luis Tróccoli e podendo figurar na maior vitrine da América no próximo ano, Boghossian cruzou o charco e foi parar em solo argentino. Voltou a ser apenas mais um. Outro uruguaio que atravessava o Rio da Prata. O enésimo que vinha de clubes pequenos tentando criar nome num campeonato mais competitivo. Boghossian chegou a Rosário sem alarde, vestiu a camisa vermelha e negra do Newell’s Old Boys e teve sua sanidade questionada. Quem jogaria fora desse jeito a garantia de disputar a Libertadores do ano que vem?

Vale la pena el desafío – respondeu. Talvez Boghossian seja mesmo parecido com o menino do tango e saiba que lhe espera a consagração. Numa noite em fins de outubro, os que ainda resistiam a acreditar em seu nome viram o oriental de ascendência armena cravar dois gols nas redes do Vélez Sarsfield e estremecer o travessão com um tirambaço. Em pleno Amalfitani. O incógnito delantero das semanas anteriores era agora o centro do ataque, a esperança de gols e a vertente da ilusão do título nacional, que não se cogitava naqueles dias em que o início do Apertura foi adiado pelas dívidas dos clubes e pelas indefinições quanto à transmissão dos jogos. As arquibancadas do rosarino Coloso del Parque passaram a bradar: ¡Uruguayo! ¡Uruguayo!

O desafio ao qual esse uruguayo se prestou, abrir mão de jogar a Libertadores no seu Cerro e pelear por uma vaga com o novo clube, ficou cada vez mais realizável. Boghossian marcou gol até no clássico contra o Central, ajudando a transformar em 2 a 2 um jogo que estava sendo perdido por 0 a 2, e seguiu firme perseguindo o Banfield, líder invicto do Campeonato Argentino. Domingo, El Taladro caiu em casa para o Racing de Avellaneda, abrindo caminho para os Leprosos. Os rubro-negros de Rosário, porém, precisavam quebrar uma escrita nesta segunda-feira: bater o Colón em Santa Fé, algo que não acontecia há onze anos.

Faltando un minuto, están cero a cero
Tomó la pelota, sereno en su acción
Gambeteando a todos, se enfrentó al arquero
Y con un fuerte tiro quebró el marcador

A última estrofe da canção de Puey e Yiso só errou o tempo de jogo. Eram 65 de partida, faltava muito mais que um minuto. Mas estavam em zero a zero. E Boghossian ganhou a bola com a serenidade dos que sabem o que fazer. Não estava sozinho naquele pedaço do Cementerio de Elefantes. Além dos olhos do país sobre si, tinha a companhia de três marcadores. Gambeteou-lhes todos. Mirou o goleiro. E atirou baixo, raspando a relva com força, fazendo o 0 a 1 definitivo da noite de segunda-feira. O Newell’s Old Boys é líder do Apertura. Boghossian é artilheiro do time com nove gols. Está a ponto de alcançar a proeza de classificar, no mesmo ano, dois times diferentes para a Libertadores da temporada seguinte – e tem três rodadas para sustentar a posição atual e gritar que é, também, campeão da Argentina.


* A vitória do Newell’s e o gol de Boghossian só vieram na segunda-feira, mas diante de tudo isso não vale a pena se prender à burocracia de considerar que a “semana anterior” dessa série deveria acabar no domingo.
** Só postado agora por problemas de internet.

Foto: Olé.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quinze minutos de alienação

Meu relógio digital cujos números só aparecem quando lhes convém apontava 18 horas e 36 minutos quando comecei a caminhar pela Tuiuti. Trazia uma Coca e uma Torrada Napolitana na barriga, algum suor causado pelo sol na camisa e, no cérebro, muitas DIRETRIZES nascidas na reunião recém-encerrada no bistrô. Em Recife, o Internacional empatava por 1 a 1 contra o rebaixado Sport. Saíra perdendo. Mas acabara de igualar e metera uma bola na trave pouco depois. Às 18:36, restava algo mais que quinze minutos para o fim do jogo. E eu parei de ver.

Não é agradável a um gremista ficar assistindo ao Inter encomendando sua coroa de campeão brasileiro. Os outros jogos eram de um desalento terrível. Nenhum dos concorrentes sérios do Colorado dava segurança. O Flamengo vencia o Corinthians por um tímido 0 a 1, quase nada para um pessimista convicto como eu, e o São Paulo caía por 3 a 2 ante o mesmo Goiás contra o qual conquistou a taça em 2008. O dia estava PROLÍFICO em golaços. No desinteressante Grêmio 3-1 Barueri, Adílson, que nunca mete gols, acertou um pombo INALADO no ângulo do arqueiro Renê. No Palestra Itália, Diego Souza metera um voleio por cobertura (!) desde meio de campo (!!) para fazer um dos gols palmeirenses nos 3 a 1 então parciais sobre o Atlético Mineiro, que dificilmente valeriam para o título.

Eu vi esses gols. Acompanhei o andamento do placar pelas bolinhas da Globo, vi como o Sport flechou o Inter no primeiro tempo e como o juiz negou aos pernambucanos um pênalti minutos depois. Vi como os gaúchos cresceram no segundo tempo e, por ANTEVER como virariam, concluí que não valia a pena esperar até o fim da partida. Deixei de olhar a tevê e lancei-me em quinze minutos de alienação – o tempo que levava para percorrer, a pé e sob um sol congolês, o trajeto de volta para casa. Domingos são vazios em Santa Maria. As vitrines escuras, as lojas fechadas, o trânsito inexistente. Ainda assim, encontrei mais pessoas do que imaginava. Olhava para elas meio estranhado: a VIDA se definindo numa tarde e elas caminhando despreocupadas e debatendo amenidades.

Talvez fossem gremistas buscando também a tranquilidade e fizessem as mesmas perguntas ao me ver. Mas eu não caminhava. Corria. Ou fazia o mais próximo de correr que se consegue nesse calor e com as condições físicas de alguém que jogou FUTSAL duas vezes nos últimos quatro meses. Percorria as calçadas sem saber o andamento das partidas. Com exceção de um par de carros que passou com o rádio num volume mais alto, nenhuma notícia futebolística chegou durante as primeiras dezenas de passos que eu dei na direção do LAR. O silêncio, contudo, berrava. Enquanto perdurasse estaria tudo bem. Os céus anunciariam se houvesse alguma mudança do cenário que eu vira pela última vez na tevê. E não há figura de linguagem – o foguetório é infalível.

Eu estava na altura do Calçadão, esse trecho quase morto nos domingos santa-marienses, na hora em que a situação cambiou. Está na memória: 18 horas, 44 minutos e 19 segundos. Ao menos de acordo com o meu não muito confiável relógio. Foi quando o primeiro espocar se fez ouvir. O Calçadão está vivendo um clima natalino por esses dias, com papais noéis e pinheiros e tudo o mais, e enquanto eu passava por baixo das REFERÊNCIAS à festa tentava decifrar o que significava aquilo. Porque os foguetes podem vir dos dois lados. Se fossem poucos, seriam gremistas secadores festejando algo. Não eram poucos.

Uns passos mais adiante, ouvindo também um Dingobéu adaptado que vinha de algum ponto da Praça Saldanha Marinho, mais foguetes explodiram no FIRMAMENTO. O Inter, com certeza, havia acabado de confirmar a minha previsão e virara o jogo. Mas podia ser pior. Podia ser muito pior. Vitória colorada ainda deixava o Brasileirão nas mãos do Grêmio, caso o Flamengo derrotasse o Corinthians – o quadro carioca chegaria à última rodada dois pontos na frente do Inter e só precisaria vencer, em casa, uns tricolores gaúchos obrigados por sua torcida a entregar os pontos. Podia ser que aqueles foguetes representassem não só a remontada alvirrubra, como também a derrocada rubro-negra.

Maldisse a minha opção por me alienar, mas era aquela autocrítica sem grande convicção. Se o pior tivesse acontecido, se o Inter estivesse assumindo a liderança e praticamente ganhando o campeonato, era melhor que eu ficasse sem saber tão logo. Paradoxalmente, a dúvida me fez querer chegar rápido em casa e conferir as coisas. Apertei o passo. A Avenida Rio Branco nunca pareceu tão extensa, e a pressa se dissipou pelos instantes em que eu ainda me encontrava em frente à fileira de barracas de camelôs: um deles escolheu aquele momento para desfraldar uma bandeira do Inter.

O Flamengo abrira as pernas. Céus. O Flamengo deixara o Corinthians empatar. Cheguei em casa às 18:51, quinze minutos depois de iniciar a caminhada, como imaginado. Enfiei a chave na fechadura sem ter certeza se o desespero tinha razão de ser, mas sabendo que o que quer que tivesse acontecido não tinha mudado mais – os foguetes pararam. Liguei a tevê no mudo – não me agrada ouvir narrações de triunfos colorados; até hoje não escutei qualquer áudio do gol do Gabiru em Yokohama. Sport 1-2 Inter. Acréscimos já iniciados, só havia mais dois minutos por correr. Metade do desastre estava consumada. Ignorei a internet e, sem querer saber o que o narrador falava, aguardei o apito final.

O jogo do Flamengo estava um pouco atrasado, disso eu sabia, e certamente a transmissão iria para lá quando acabasse o duelo da Ilha do Retiro. Foi. E o Flamengo continuava vencendo. Até tinha um pênalti para cobrar e dobrar sua vantagem. Tanta preocupação pra nada. Um torcedor invadiu o gramado e retardou a batida da penalidade. Às 18:57:23, segundo o meu mostrador de horas (vulgo CEBOLÃO), Leonardo Moura botou a bola nas redes. O goleiro corintiano Felipe ficou parado no centro do arco, e ainda aplaudiu quando a bola entrou, como se tudo aquilo estivesse planejado. Eu ri, mas saltaria pela janela de raiva se meu coração batesse pelo Inter. Na semana que vem o Grêmio inteiro deverá ser um Felipe cravado no chão e sem vontade de impedir o sucesso flamenguista, mais ou menos como o Inter cheio de reservas que levou 3 a 0 do São Paulo em novembro do ano passado, quando os paulistas disputavam a taça com o próprio Grêmio.

Pretensão demais achar que o Fla só vence o Grêmio no Maracanã se os tricolores entregarem. O time de Porto Alegre tem o péssimo hábito de se dar mal no Rio – e neste ano estendeu a sina para todos os rincões distantes de sua casa, com exceção dos Aflitos do Náutico, que não deixam de ser uma segunda casa. Em condições normais a vitória do Fla já seria muito provável. A classificação só tratou de transformá-la em certa. Os jogadores do Grêmio são profissionais e, ao contrário do pensamento COMUM, é exatamente por isso que não podem querer vencer os cariocas: fossem amadores, jogariam por si e por seu orgulho. Mas eles são pagos para lutar pelo interesse da sua torcida. E o dos gremistas, agora, é ver o Inter vice-campeão.

Depois de um ano tão sem alma, escolher logo uma rodada dessas para vencer no Rio é merecer demissão por justa causa. Ou morte, porque o futebol é um pouco SELVAGEM.

Foto minha. Editada, naturalmente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O próximo sol não verá ilusões

A vida é um inferno. Ele se apegou tanto à ideia que não precisa mais formular a frase. É automático, inconsciente. A vida é um inferno. Não é que os dias estejam tediosos ou depressivos ou pesados ou insuportáveis demais. Ele sai com os amigos, ele bebe, ele passa horas lendo seus autores preferidos e vendo séries na tevê. Ele ri. Mas ainda falta algo. E sente como se tudo o que tivesse feito desde o dia em que nasceu fosse uma tentativa de se distrair. Enrolações que não evitaram que sua vida se tornasse infernal.

Faltam cinco para a meia noite e ele rola na cama. Faltarão cinco para as seis e ele, na iminência de ir trabalhar, não terá dormido. A vida é um inferno quando não se dorme, mas é porque a vida é um inferno que ele não adormece – e não o contrário. Fica repassando mentalmente as tentativas, os quases, todas as epopeias que só um sonhador poderia imaginar. Fecha os olhos. Abre de novo. Na escuridão inexiste a diferença. Ele estaria desperto de qualquer jeito. Tomado de fúria, no meio da madrugada, muito depois das cinco para a meia noite e muito antes das cinco para as seis, sairá da cama.

Lembrará das noites mal dormidas de um ano atrás. De quando virou a madrugada acreditando que aquela seria a vez e descobrindo que, como de costume, não era. Solitário na cozinha, o relógio apontando três e tantas da madrugada, observará os azulejos brancos da parede. As caixas de chá sobre um móvel, uma barata que agoniza na pia, as panelas sujas no fogão. Olhará para a geladeira como se pudesse vislumbrar o que há além do metal, conhecedor que é de que não há mais nada alcoólico ali para afogar as mágoas.

E como queria algo alcoólico para esquecer tudo! Esquecer que já entrou na quinta-feira e o trabalho vem feroz com o raiar do sol, sem tomar conhecimento das suas aflições. Esquecer das certezas ungidas sob luas cúmplices que miravam tudo e pareciam aprovar a situação. Esquecer da fé quase fundamentalista de quem fecha os olhos para os sinais e os ouvidos para os alertas alheios e se crê único entendedor de como a vida se encaminha – e está seguro de que ela se encaminha para um desfecho inédito e feliz.

Estava ali, um homem feito, e incorria nos mesmos erros de adolescente. Sonhar demais. O mundo nas mãos. Os planos, as alegrias, as complicações, o cálculo perfeccionista feito no cérebro, e os dias passando sem que algo concreto se formasse para além do seu crânio. Não era justo, Deus, que os outros tivessem o que ele não tinha. Agora haveria de ser a vez dele. De mostrar para todos que também era capaz, e era capaz de mais do que cada um deles.

Praticamente quatro da madrugada. Abrirá a porta e se sentará na escadinha que dá acesso à casa. Contemplará a rua vazia, imensa na sua desolação. O vento carregando alguns copos plásticos que se chocam no meio-fio com um ruído ensurdecedor. Mas talvez seja só para ele. As sensações são potencializadas nessas horas doídas. O negror da noite é capaz de cegar. E o frio, de matar. Os sons perfuram-lhe os tímpanos e os odores, bem, esses preocupam pouco. Em madrugadas nas quais falta ar, o cheiro é secundário. E o homem sufoca nessas noites que precedem um amanhecer sem as ilusões de antes.

Atarantado, voltará para dentro do lar. Desistirá da cama. Concentrar-se-á no sofá. O ponto zero, o mesmo lugar onde, horas antes, as coisas pareciam fluir a contento. Eram instantes em que seus olhos brilhavam. Sim, sim, havia justiça no mundo. Teria aquela por quem investiu tantas horas pensando. Valera a alienação voluntária, a marcha lenta com que levou as semanas anteriores, porque o grande momento para o qual se preparara havia chegado. Aí tomou conhecimento daquele sujeitinho.Edison Méndez, surgirá na sua mente o nome escrito num letreiro de néon. Edison Méndez três vezes. Liga de Quito 5 a 1. E nada de álcool na geladeira para esquecer o nome e os números desgraçados. A vida é um inferno. Serão seis e quinze da manhã quando a esposa sairá da cama, irá para a sala e encontrará o marido sentado no sofá, com o olhar perdido e úmido de quem chorou de amor. Pelo Fluminense. À frente do homem ainda estará a pizza inacabada da noite anterior. Pizza com azeitonas. A essa altura, murchas.

Foto 1: minha
Foto 2: AFP

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Perpétuo até o fim da semana (2): Claudio Bieler

O primeiro gol é normal. O segundo gol é normal. O terceiro gol é normal. Mas o quarto é um absurdo. E a partir daí, chega a ser indecente. Goleadas por três a zero não existem. Isso é invenção de jornalistas que queriam agradar os torcedores. Triunfos por três a zero são perfeitamente aceitáveis e dentro dos padrões. Bonitos, com domínio amplo – e fim. Se um dia eu lançar um dicionário, o conceito do termo banalizado vai ser mais ou menos esse:

Goleada [De golear + -ada] S. f. Bras. Fut. Vitória por margem de três gols ou mais, na qual a equipe vencedora anota pelo menos quatro tentos.

Os meninos que frequentam as arquibancadas dos estádios crescem esperando o quarto gol. E geralmente a espera vai até ali. Existe uma lei não escrita dentro do futebol, uma espécie de limiar entre o que é castigo aceitável para o mau futebol e o que parece violar os DIREITOS HUMANOS. Até o quarto gol, tudo bem. Nós somos ruins mesmo, não estamos jogando nada, faz parte. Mas se marcarem o quinto já é sacanagem. Temos família para sustentar, porra, parem de ficar se exibindo.

Talvez por isso a linha divisória entre o quarto e o quinto gol não costume ser batida tão facilmente. Deve ser só impressão, mas os carnês de campeonatos pelo mundo aparentam ter muito mais vitórias por cinco a DOIS do que por cinco a um ou a zero. Como se os vencedores só se sentissem autorizados pelos ANJOS a superar a barreira dos quatro depois de conceder alguma compensação aos subjugados – no caso, a honrosa diminuição da diferença de gols.

Causa espanto quando determinados times não apenas chutam essa oculta etiqueta futebolística como também deixam evidente que querem subverter todo o CAVALHEIRISMO da pelota. Mesmo num amistoso típico de pré-temporada, de profissionais contra amadores, goleadas com números mais expressivos que quatro bolas na rede adversária provocam alguma COMICHÃO. Em partidas decisivas, é de alterar o modo como o planeta gira.

Os três primeiros títulos mundiais foram definidos ao som de narrações que precisavam descrever mais que quatro gols do campeão. Em 1960, o mágico Real Madrid de Di Stéfano e Puskas pisoteou o poderoso Peñarol por 5 a 1 no Santiago Bernabéu. Em 1961, o raivoso Peñarol de Spencer escolheu o Benfica para desfazer os fantasmas do ano anterior, metendo 5 a 0 nos portugueses na segunda das três partidas da Copa Intercontinental, disputada em Montevidéu. Os benfiquistas voltaram a ser vítimas em 1962, dentro de casa, quando caíram por 2 a 5 para o Santos de Pelé – e levavam 0 a 5 até os quarenta do segundo tempo.

Na América do Sul, o caso mais recente de time que não respeitava os limites do BOM-SENSO em jogos decisivos foi o São Paulo. Em 1993 botou 5 a 1 no Universidad Católica do Chile, pela final da Libertadores, e no ano seguinte aplicou 6 a 1 num Peñarol que já estava no CREPÚSCULO de suas glórias passadas, desta vez na decisão da extinta Copa Conmebol. A Liga de Quito, que no Brasil preferimos chamar de LDU, talvez seja a herdeira e o expoente desse modo de vida DESPUDORADO neste final de década.

Há pouco mais de um ano, o time só não aplicou uma goleada sobre o Fluminense na decisão da Libertadores porque os cariocas descontaram no segundo tempo – e 4 a 2, com seus dois gols de diferença, não pode ser goleada segundo o Dicionário Brum de Futebolês. Como os cariocas estivessem já classificados para a final da Sul-Americana deste ano e a Liga ainda precisasse garantir sua vaga pela outra semifinal, o time fez uma reunião no vestiário e concluiu: vamos massacrar alguém logo, mas massacrar mesmo; depois nós vemos se conseguimos outra dessas.

A vítima foi o River Plate de Montevidéu. Quiçá com outro adversário a tentativa dos equatorianos não passasse da intenção, mas ao River Plate de Montevidéu lhe agrada picotar os sonhos com PUNHALADAS sem fim. Os Darseneros são um caso exemplar de time pequeno que surpreende, chega a encantar e, na hora em que param de duvidar dele, resolve se entregar da maneira mais espetacular que consegue imaginar para aquele dia. No Clausura Uruguaio de 2008, o tiki-tiki dos comandados de Carrasco MALTRATAVA os oponentes. Em 15 rodadas, a equipe foi às redes 48 vezes, uma média de 3,2 pelotas nos cordões adversários por jogo.

O ápice daquilo tudo foi um certo primeiro tempo contra o Nacional, em 19 de abril: com menos de 35 minutos, o Bolso caía por 3 a 0. Ao fim daquela tarde, no entanto, os tricolores saíram do Centenário triunfantes por 3 a 6. E os três pontos certos faltaram para o River na tabela. O quadro ficou empatado em pontos com o Peñarol na liderança do Clausura 2008, contando 12 vitórias, 1 empate e 2 derrotas, e um playoff se fez necessário. O jogo para apurar o campeão teve outro começo infernal do River, que abriu 3 a 1 em 40 minutos, e outra remontada dos opositores. O Peñarol venceu o duelo por 3 a 5. A equipe Darsenera pagava por manter o ofensivismo quando devia segurar o resultado.

Em Quito, na semana passada, o River entrou em campo classificado contra a Liga. Mantendo o resultado do início, estaria na finalíssima, graças aos 2 a 1 favoráveis que obteve em casa. Vantagem dos riveristas que amam entregar nessas horas mais crise de abstinência por goleadas dos equatorianos que adoram golear nesses momentos. Um mais um igual a sete. A soma era tão explosiva que dinamitou os ALICERCES da matemática. A Liga de Quito fez todos os gols necessários para acalmar os nervos, uma vez mais desrespeitou a LÓGICA dos confrontos decisivos, e foi dormir com a vaga na final e ABUSIVOS 7 a 0 de crédito na sua conta. Sete a zero no jogo que antecede a disputa da taça. SETE. A Convenção de Genebra devia proibir.

Claudio Bieler, o argentino que deseja se naturalizar equatoriano, deu as ordens para iniciar e terminar a surra. Anotou o primeiro e os dois últimos gols da noite. El Taca, que há um ano e meio marcou aos 2 minutos de partida e iniciou a vitória da LDU na primeira final da Libertadores sobre o Flu, será um dos poucos a jogar essa nova decisão, que reedita o confronto. Dos pelo menos vinte e dois nomes capazes de estar nessa condição, nem um terço decidirá a Sul-Americana. São cinzentos esses dias de personagens fugazes no Continente. Pela sua tripleta de quinta-feira, pela falta de vergonha dos seus companheiros em meter goleadas nos momentos que não deveriam ter goleadas, e pela garantia de fardar nas finais de 2008 e 2009, Bieler azulou um pouco o gris dos céus e foi o homem da semana.

Foto: EFE

domingo, 22 de novembro de 2009

Futebesteirol distribui carrinhos e ergue duas taças

Não eram o Centenario de Montevidéu, o Monumental de Núñez ou o Maracanã no Rio. Não eram Wembley, Santiago Bernabéu ou San Siro. Não eram nem mesmo o 19 de Outubro, os Eucaliptos ou a Baixada Melancólica. Mas talvez fosse o Estrelão de Porto Alegre. Nas mesas do Amsterdam Bar em Santa Maria, houve uma dose HOMEOPÁTICA da comemoração que se vê nas grandes canchas das ilusões futboleras. Era o Futebesteirol impondo um jogo de raça para botar duas taças no armário.

A noite de sábado foi de divulgação dos premiados na segunda edição do Prêmio Anual de Comunicação (o PANC, numa sigla de rara felicidade), promovido pela Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria e aberto para qualquer terráqueo que se aventurasse. Concorrendo com sabe-se lá quem, mas certamente contra adversários valorosos que não hesitaram em golpear a botinadas, o Futebesteirol usou seu esquema de dois homens (sempre num retranqueiro 2-0-0) para provocar e revidar os oponentes. Ouvindo berros de pone huevo que ganamos, o blog fez uso de nobres carrinhos para derrubá-los todos com indiscutível PUNDONOR.

Os dois prêmios conquistados por esta página vieram nas subcategorias Produção Web em Jornalismo e, por mais contraditório que pareça, Reportagem Impressa. Na primeira, a produção do Futebesteirol em 2009 foi GALARDONADA como um todo, sendo Maurício Brum e Iuri Müller os autores reconhecidos (?). A cobertura da Segundona, desde já CLÁSSICA, contribuiu decisivamente para o sucesso da campanha. O outro prêmio da noite veio com a versão em papel da reportagem “Cruzeiro, um interiorano em Porto Alegre”, de autoria do Iuri, feita após um mergulho nas profundezas do Estrelão em setembro do ano passado. Os dois troféus já estão na sede da corporação e serão penhorados para bancar reportagens futuras.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Breve tratado metafísico da Azeitona

A maior parte das mulheres que conheço não gosta de azeitonas. Observam enojadas e deixam num canto do prato. Digamos que é uma proporção de setenta por cento de almas avessas ao CAROÇO ENGOMADO presente nos pratos mais variados. Falo isso apenas para introduzir o assunto, porque faltam explicações embasadas na CIÊNCIA para o ódio da população feminina em relação às bolotas pretas, verdes, roxas ou, vá lá, FÚCSIAS. O que me importa é a bolota, independente da cor.

A azeitona é um jogador que serve para completar o time em qualquer canto. Daqueles muito ruins, que entram onde sobrar lugar. Ou dos espetacularmente bons, que se garantem na posição em que o treinador colocar. O DILEMA da oliva é justamente esse: para alguns é o Pelé do prato; para outros, o Jacozinho. Os filósofos gregos, aqueles desocupados que passavam o dia propagando a falta de sentido entre o povo, deveriam ter dedicado algumas horas ao estudo da azeitona, que gregos gostam de oliveiras, mas preferiram tentar (não) entender essas questões desimportantes como a vida, as ideias e todas as coisas.

O que eu sei das azeitonas, na falta de uma análise ARISTOTÉLICA a respeito, eu aprendi nas TERRINAS de couvert do mundo. Aquelas que chegam como uma cortesia antes do resto, até do menu, e depois surgem misteriosamente na conta, abaixo de coca-colas e acima de águas jamais consumidas. O couvert, a entradinha, são os pãezinhos secos ou torrados acompanhados de manteiga, margarina ou coisas pastosas de coloração indefinida e gosto misterioso; os ovinhos de codorna em conserva, os salaminhos, os queijinhos, os pepininhos.

As azeitoninhas.

Nunca vi azeitonas sem caroço nos restaurantes que se dignam a servi-las. As cores variam e algumas inclusive parecem estar pretas por PUTREFAÇÃO ao invés de obra genética, mas o caroço é o torcedor de fé que não falta a um jogo no estádio. Sempre presente, em qualquer situação. Comprou o pacote de ingressos para a temporada inteira e está lá mesmo que o time apareça só pra cumprir tabela. Os teóricos do azeite de oliva (?) dizem que a ausência do caroço – e, com nojo, complementam: “substituído por PIMENTÃO” – equivale a sacar da azeitona seus HUMORES essenciais para subsistir sobre a face da Terra. Uma azeitona sem caroço não teria nem alma e ainda querem achar sabor? Ah, os inocentes – pensam eles com um ar superior emanando das RETINAS.

O caroço é, também, uma promessa de ADRENALINA correndo pelo corpo. Só existem cinquenta e nove sensações catalogadas pelos biólogos como mais intensas do que mastigar furiosamente uma azeitona – incluídos aí o orgasmo e o tratamento de canal – e, num átimo de desatenção, cravar sua semente entre os molares superiores e inferiores. Além de ser um risco emocionante para as dentições mais frágeis, o caroço é um inimigo da reputação da própria azeitona. Quanto menos CARNE tiver o fruto da oliveira, maior parecerá o caroço. E mais árdua a tarefa de extrair dali algo comestível.

Mas a azeitona costuma vir farta, gorda como uma GIRONDA prenha. Quem a seca como um torcedor do Pelotas em dia de jogo do Brasil é a geladeira. Sim, aquela Brastemp em aço escovado, reluzente de nova, que ruge na cozinha e às vezes até perturba o sono no sofá da sala, é ela que está murchando e endurecendo as azeitonas guardadas com tanto ZELO – e que a mulher, provavelmente, despreza por completo e todos os dias dá uma olhada querendo atirar pela janela. Minha tese é toda sustentada por comprovações empíricas colhidas ao largo dos anos e tem uma boa dose de achismo, mas é minha.

Uma azeitona não resiste a um dia de geladeira. Não é como, sei lá, uma MORTADELA, um requeijão ou um patê de rabo de pato defumado, que duram alguns dias até serem devidamente comidos. Diz a embalagem que o pote de azeitonas sobrevive bem por dez dias depois de aberto, desde que conservado num ambiente refrigerado. Mas é balela e, você, com toda a cultura adquirida nos QUADRINHOS E CRUZADAS do Segundo Caderno da Zero Hora, não é pessoa de cair em balelas. Os próprios azeitonófilos (?), quando produzem a embalagem lá na fábrica, torcem para que as pelotinhas sejam todas consumidas de uma vez e a FALÁCIA não fique tão clara.

A verdade cabal, inquestionável e sólida, meus amigos, é que um pote de azeitonas só tem qualidade na primeira pegada. Esqueça o picadinho completo, a pizza ou o que for mais elaborado. Use todas as azeitonas de uma vez. Nem que produza doses intermináveis de drinks e distribua entre os vizinhos. Você pode comer no dia seguinte, e no outro, no outro e (se estiver famélico) no outro, mas não vai ser a mesma coisa. Aquilo já não serão AZEITONAS, dignas de caixa alta. Serão zeitoninhas. Endurecidas em sua razão de existir, enrugadas pela canseira dos dias e jururus por não terem podido ser.

O Fluminense deste fim de ano é das coisas mais espetaculares de ver que o futebol brasileiro produziu na década. O time morto que ressurgiu para jogos copeiros e sonhos altos. Aquele jogo de ontem contra o Cerro Porteño com remontada nos acréscimos, por Dios, merecia ser enquadrado e pendurado na sala de casa. Um gol de GUM ensanguentado, outro tento driblando o goleiro no MEIO DE CAMPO e uma briga com PRISÕES no fim, tudo coroado com classificação à final continental para os cariocas. Foi de olhar para os céus, erguer o polegar em sinal de positivo e dizer que fizeram um bom trabalho inventando o futebol. O Flu, definitivamente, abriu um pote de azeitonas no momento em que Fred acordou. E os tricolores estão se deliciando com a iguaria desde que iniciaram sua série invicta, agora contando doze jogos.

Mas precisam continuar com fome. Precisam ir até o fim nessa toada. A geladeira do Fluminense é uma derrota. Perder alguma das finais da Sul-Americana ou um jogo do Brasileirão pode aniquilar o espírito e condenar o que ainda há de aproveitável no fundinho do pote. Aí nenhuma das últimas azeitonas será tão agradável ao paladar como poderia. E a reação pode acabar como ilusão, num vice e num rebaixamento, tornando o fim de ano mais doloroso do que seria com uma queda óbvia. Termine essas azeitonas, Flu. Não olhe para os queijinhos!

Foto extraída do PÂNCREAS do site oficial do Fluminense.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Murmúrios de esperança para a Bósnia

Não eram só alvos estratégicos que as forças sérvias atacavam. A foto impressionava e denunciava o aspecto genocida da guerra, ignorado por boa parte do mundo durante as primeiras semanas do cerco, em 1992. Sobre as ruínas da Biblioteca Nacional da Bósnia, o principal violoncelista da Orquestra Filarmônica de Sarajevo, Vedran Smailovic, tirava melodias chorosas do seu instrumento. Naquela situação, com o céu gris sobre a cabeça, os atiradores de elite à espreita e as bombas despencando sem aviso, Smailovic foi às ruas, como se as notas musicais o protegessem.

Sarajevo era então uma cidade cercada e com o abastecimento bloqueado. Em 5 de abril de 1992, quatro dias depois de a Guerra da Bósnia ter seu começo formalizado, as forças da auto-proclamada República Srpska e do Exército da Iugoslávia tomaram os arredores da capital bósnia e iniciaram o mais longo cerco registrado na história moderna da guerra: quase quarenta e sete meses. Comida, água, e mesmo combustível para aquecimento das casas não chegavam aos habitantes da cidade, reféns de uma situação que as mal equipadas tropas locais não conseguiam reverter.

As ruas da Capital ganharam avisos – Pazite, Snajper! – indicando a presença de snipers, os franco-atiradores, postados no alto dos edifícios da vizinhança. Mas a fúria genocida atacava por todas as pontas. E no dia 27 de maio de 1992, por volta das dez da manhã, um grupo de civis famintos que aguardavam em fila para receber um frugal pedaço de pão foi atingido por um tiro de morteiro. Vinte e dois homens, mulheres e crianças morreram. Vinte e dois seriam os dias pelos quais o celista da Filarmônica local sairia de casa carregando seu instrumento.

Na manhã seguinte ao ataque, Vedran Smailovic se postou no mesmo lugar em que a explosão assassina vitimara os inocentes. Sobre a cratera deixada pelo ataque, assentou o celo, puxou um banquinho e começou a tocar. As feridas abertas estavam por todos os lados. Nas paredes dos prédios, no asfalto das ruas, na carne e nos sonhos das pessoas. E ali, no meio das ruínas, um homem desafiava os projéteis, a pólvora e a insanidade de todos os outros homens. Indefeso e vestido como se estivesse iluminado no palco da Ópera de Sarajevo, usava as cordas para criar um fiapo de esperança.

Tocou, tocou e tocou. Por vinte e duas jornadas consecutivas. Variava os momentos do dia. Não a música. Do seu violoncelo escorriam lágrimas na forma das notas do Adágio em G Menor de Albinoni, um som cuja melancolia é capaz de transportar a mente em divagações intermináveis. Ainda que solitário, o tom de Smailovic ecoou pelas construções destruídas. Engoliu civis, soldados dos dois lados e acordou o mundo. Os noticiários que dedicavam espaços resumidos à Guerra da Bósnia decidiram colocar uma lupa sobre os Bálcãs e compreender melhor o que ali se passava.

O novo olhar revelou mais do que uma guerra comum. Havia ali atrocidades e massacres, cujo objetivo de ser aquilo mesmo os autores nem se preocupavam em dissimular. Não havia locais seguros para quem morasse em Sarajevo. A Biblioteca Nacional, que teve sua destruição eternizada na célebre foto de Mikhail Evstafiev, tirada enquanto Smailovic tocava, foi um dos alvos inexplicáveis. Casas, hospitais e escolas poderiam ser os próximos. A comunidade internacional, envergonhada com uma coisa daquelas em plenos anos noventa, não tardou para adotar uma postura mais ativa. Vedran Smailovic, por sua vez, estendeu os dias de sua arte. Queria dar uma resposta para a guerra e a insensatez.

Questionado por um repórter se não era louco por arriscar a vida para tocar nas ruas desertas de uma cidade destruída, Smailovic rebateu com nova interrogação: “por que você não pergunta a eles se não são loucos por bombardearem Sarajevo?”. Ao término das vinte e duas datas estipuladas para a homenagem inicial, o violoncelista virou um ser errante pelos caminhos de Sarajevo, naquele momento a própria Capital do Inferno. Em muitos velórios de inocentes mortos durante o cerco, Smailovic surgia de repente, sem qualquer aviso, e brindava à sua memória, com alguns minutos de som.

Sarajevo resistiu ao cerco graças à abertura do seu aeroporto para aviões de provisões das Nações Unidas e à construção de um túnel que permitiu aos bósnios contornarem o embargo internacional de armas – aplicado para todos os envolvidos no conflito, incluindo os defensores da cidade – e também proporcionou uma rota de fuga para muitos habitantes. A intervenção da OTAN, em 1995, conduziu a Guerra da Bósnia a um fim. A luta cessou em dezembro daquele ano, mas a data da retirada dos invasores de Sarajevo tardaria até o fim do segundo mês do ano seguinte.

No dia 29 de fevereiro do bissexto 1996, os soldados iugoslavos finalmente deixaram suas posições. A população de Sarajevo foi reduzida a menos de dois terços do que era antes da guerra, pelas mortes e emigrações forçadas. O próprio Vedran Smailovic acabaria deixando a cidade, convertendo-se em ícone da paz e tocando ao lado de artistas como Pavarotti, Paul McCartney, e U2 nos anos seguintes. Havia feito a sua parte na VIDA, e com o tempo só desejou descanso. Agradece por não frequentar mais o noticiário internacional, embora no ano passado tenha sido procurado pela imprensa para comentar, irritado, um livro que se apropriou da sua história para criar uma ficção (The Cellist of Sarajevo, do canadense Steven Galloway).

Smailovic esconde-se hoje em Warrenpoint, uma cidadezinha de menos de dez mil habitantes no nordeste da Irlanda do Norte. Ele passa os dias compondo e jogando xadrez, participando esporadicamente de eventos de caridade. Talvez Smailovic nem goste de futebol e nunca tenha chutado uma bola. Ou então seja um apaixonado, o centroavante frustrado que um dia sonhou em defender o FK Sarajevo. Seja como for, e mesmo distante, ele deve estar tão ansioso quanto seus patrícios na noite de hoje. Em Zenica, a poucos quilômetros da sua Capital outrora sitiada, a Bósnia-Herzegovina enfrenta Portugal pelo segundo jogo da repescagem, podendo ir à Copa do Mundo pela primeira vez. Hoje, as únicas bombas que a cidade verá serão os chutes dos atletas em campo - e eventuais rojões estourados para festejar uma conquista de vaga.

Sentado na frente da tevê, o celista de Sarajevo só quer tocar algo alegre quando o jogo terminar.

* * *

Update da madrugada sobre as repescagens:

- E foi com sons de lamúria, novamente, que terminou a noite em Zenica, Sarajevo, Warrenpoint, ou onde houvesse alguém torcendo pela Bósnia. Faltou força para derrotar o decadente time de Portugal que, apesar dos pesares, conta com o SANTIAGO DO FUTEBOL EUROPEU, Cristiano Ronaldo. Ainda assim, houve festejos em algum canto dos Bálcãs, com o contundente 1 a 0 da ESLOVÊNIA sobre a temida Rússia de Hiddink, Arshavin e todos aqueles lá. Na região, a classificação eslovena soma-se à da Sérvia, que já havia se garantido na Copa durante a fase de grupos das Eliminatórias. Como a Ucrânia imitou os russos e também se foi (0-1 em casa contra a Grécia), o placar final das Eliminatórias foi 2 a 0 para a ex-IUGOSLÁVIA sobre a ex-UNIÃO SOVIÉTICA.

- Os irlandeses pareciam estar movidos a TORRES de cerveja, uísque e todos os fluídos dotados de algum teor mensurável em graus Gay-Lussac. Por isso trituraram a França. Mas nem em COMA alcoólico um vivente deixaria de ver o toque de mão de Thierry Henry, um lance que até o VÔLEI condenaria, como condução. Henry conseguiu estar impedido e estapear a pelota duas vezes na mesma jogada, antes de cruzar pro gol de Gallas, que empatou e sentenciou a repescagem. Roubalheira infernal, como sói acontecer em Copas do Mundo - mas desta vez começaram cedo DEMAIS. Graças ao juiz, a França está com a passagem para a África do Sul na mão, como li por aí

- A esquecida bandeira da Argélia voltará a ser hasteada num estádio de Copa do Mundo, graças à vitória por 1 a 0 sobre o Egito no Sudão, um jogo extra para um confronto que gerou até INCIDENTES DIPLOMÁTICOS e carnificinas nas ruas do Cairo, de Argel, e por outras daquelas cidades do MAGREB. O Egito confirmou novamente que é o ATLÉTICO MINEIRO da África. Os dois são os maiores campeões nos torneios dos seus quintais, mas enquanto um não consegue ganhar um título nacional de forma alguma, o outro é incapaz de conseguir uma puta vaga na Copa do Mundo há vinte anos.

- No Centenário, o Uruguai e Costa Rica não negou o que se considerava definido desde o fim de semana. Valeu pelo gol do Loco Abreu e, depois, pelo peixinho dele próprio dentro da área Celeste, salvando a pátria num momento em que as DONINHAS de Renê Simões acreditaram que podiam remontar um jogo que acabou em 1 a 1.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Perpétuo até o fim da semana: Santiago

Sob chuva. Sobre campo pesado. Jogando dia após dia, sem descanso. E este domingo já era o terceiro dia. O cronômetro chegava aos 65 minutos da partida decisiva, aquela hora em que o cérebro ainda quer, mas os músculos refugam. Não havia outro jeito de ganhar o jogo. Era preciso uma bola parada. As ondas sonoras do apito do juiz chegaram a curvar as gotas que o céu cuspia. E o estádio esperou, paciente, enquanto a estrela do time pediu a bola. Que ficassem tranquilos, que deixassem com ele.

Ele chegou à equipe qual um Cristiano Ronaldo desembarcando em Madrid. O anúncio do seu nome talvez tenha criado sobre os torcedores um impacto maior do que o do português no Santiago Bernabéu. Esquecendo-se os valores, essas coisas irrelevantes no futebol atual, a única diferença entre as contratações dos dois é que, diferentemente de Cristiano Ronaldo, ele não era a primeira opção do clube. Diante da proximidade do maior torneio do ano, os dirigentes sentaram, coçaram a cabeça, espremeram os neurônios como laranjas até sair dali um SUCO junto com um nome.

Um belo dia, concluíram que deviam correr atrás de Sandro Sotilli. O time em questão é o Grêmio Esportivo Ibirubá, e a época era a das semanas prévias à disputa do Campeonato Sulbrasileiro Amador – cujo direito de disputar e sediar o Grêmio ganhou junto com o título do Gauchão de Amadores do ano passado. Sim, Ibirubá quis Sandro Sotilli. Você aí, arrependendo-se amargamente de ter ouvido a sugestão da namorada e pego uma bola daquele maldito sorvete de PISTACHE e no Noroeste do Estado alguns dirigentes planejavam a mais bombástica contratação dos últimos decênios.

Pois enquanto você, que agora já sabemos ser um INOCENTE, colocava a calda de chocolate sobre o sorvete numa VÃ tentativa de salvar o dia, o Grêmio se frustrou. O Pelotas já tinha um pré-contrato com Sotilli para disputar a primeira divisão profissional em 2010, e não quis arriscar os ricos JOELHOS do seu matador num campeonato de três dias. Disse que não era assim que as coisas funcionavam, que os ibirubenses desculpassem, mas o Sotilli ficaria bem CALMINHO em casa. O loiro centroavante, no entanto, também mete gols quando faz indicações. E ao time de Ibirubá disse que um dos seus companheiros mereceria um ARCO DO TRIUNFO pelo que acabaria fazendo no Grêmio.

Uns dias depois, um certo atacante fez uma viagem em que a CONDUÇÃO pareceu rastejar sobre os pedriscos da estrada. Percorreu o mapa e pisou no Noroeste gaúcho já sentindo nas espáduas todo o peso das ilusões dos mais de DEZENOVE MIL habitantes ibirubenses. Ali, calculou, seria rei. Era o cenário propício para se recuperar. Porque o Grêmio também queria a ressurreição. Elisandro Naressi Roos, o atacante que as canchas ovacionam como Santiago, foi sumindo das escalações do Pelotas na Segundona deste ano e terminou o certame com apenas quatro gols. O Grêmio Esportivo Ibirubá, defendendo o título de amadores do Rio Grande, caiu nas semifinais do campeonato deste ano e chegou ao Sulbrasileiro menosprezado pelos oponentes – temiam o apoio da torcida, não suas qualidades.

Com Santiago, o time doído virou SENHOR. Responsável por ceder seu campo a todas as partidas e bancar a acomodação dos participantes do Sulbrasileiro, o Grêmio Ibirubá só foi bom anfitrião até aí. Em campo, ninguém o venceu. Nem o segurou. E nem foi capaz de perfurar a sua defensiva. Ao cabo dos três jogos, os ibirubenses contaram nove pontos e nove gols feitos, contra nenhum sofrido. Na sexta-feira, o paranaense São Manoel caiu por 2 a 0. Santiago marcou um. No sábado, os paulistas do Real de Santo André foram ao chão como RODILHAS diante de um futebol irresistível que rendeu goleada de 6 a 0. Santiago balançou as redes duas vezes mais.

O quadrangular se decidiu ontem. Cada time chegou com seis pontos. E o outro time era dotado de tradição. Entre 1999 e 2002, o catarinense Juventude, de Lindoia, conquistu um irrepetido tetracampeonato no Sulbrasileiro. O Grêmio buscava sua primeira conquista, envolto naquela aura de impossibilidade possível e desejo bobo que temos todos na perspectiva de fazer o que nunca conseguimos. E choveu. Choveu absurdamente. Os céus quiseram afastar as testemunhas da história, BIRRENTO e maldoso. Mas sobre a cidade pairava uma certeza inquietante. Já havia mostrado o equívoco dos seus oponentes, o Grêmio, com um futebol que venceu o menosprezo. Aquele jogo não seria perdido. E ouvindo a contenda pelos rádios dos botecos, quem percebeu o lado para o qual o vento soprava deve até ter profetizado o autor do gol do título. Tão certo quanto a taça não sairia de Ibirubá, o goleador da jornada seria o craque da equipe.

E aos 65 minutos, aquela falta. A extenuante maratona de jogos findando com o FIRMAMENTO escarrando gotas e mostrando LÍNGUAS elétricas. E Santiago com aquela bola. Tudo daria certo. Como um guri que corria com todas as suas ânsias para buscar o brinquedo preferido, o nome maior do time partiu na direção da pelota. Golpeou. Atirou. Festejou. E o momento permitiu até criar um verbo novo: CAMPEONOU. O Grêmio Esportivo Ibirubá venceu o Juventude pelo maior placar que uma decisão precisa ter, o 1 a 0, e conquistou o inédito título sulbrasileiro. De Santiago queriam referência técnica. Ele foi. Exigiam gols. E o atacante saiu do certame artilheiro, com quatro tentos em três jogos. Queriam firmeza de espírito. E ele converteu em festejos a falta mais importante da competição.

Queriam a estrela sobre o escudo. E Santiago foi essencial para colocá-la ali.

A ideia dessa série é destacar sempre algum personagem que marque durante a semana anterior ao texto. Eu poderia escolher o Fred, do Fluminense, que a golpes de gols intermináveis caminha para salvar seu time do rebaixamento e ainda dar-lhe o troféu da Sul-Americana. Ou então Metab, da Seleção Egípcia, que coroou o polêmico jogo contra a Argélia com um gol aos 90+5 minutos, forçando um confronto extra no SUDÃO para definir o último africano classificado à Copa de 2010. E eu queria eleger Metab, porque poucas coisas são mais anos sessenta que partidas de desempate. Mas não. O meu nome da semana é Santiago, o homem que desembarcou na Terra da Pitangueira do Mato com a pressão de ser grande – e em três dias já era gigante.