quinta-feira, 27 de agosto de 2009

As entranhas de um capitão

Entrevista: Iuri Müller e Maurício Brum
Texto e fotos: Iuri Müller

Vinte e cinco foram os jogos da Segundona acompanhados pelo blog que renderam uma matéria. Muitas foram as fotos e os causos elucidados em cada cancha do interior. Ao fim das jornadas, alinhamos uma seleção. Mas não era o fim da cobertura da Segundona Gaúcha. Faltava a palavra do maior zagueiro do campeonato. Não falta mais. Em um Estádio dos Eucaliptos melancolicamente entristecido com a eliminação do Riograndense, BONALDI se abriu para os microfones do Futebesteirol.

A entrevista estava marcada para uma ingrata sexta-feira matinal. Mas Bonaldi não se mostrou sonolento. Deixou a CAVERNA, como é chamado o aposento destinado aos jogadores que vivem no estádio, e se mostrou pronto para destrinchar o seu passado e a imensa contribuição que teve na honrosa campanha do Periquito na temporada. Rumamos para o alto do pavilhão dos Eucaliptos. Certamente o canto mais agradável da cancha. De lá, Bonaldi avistava o ralo gramado em que pisou semanalmente pela embarrada Segundona.

Não estávamos frente a frente com um entrevistado qualquer. Bonaldi não era um zagueiro qualquer. Isso ele explicitou a cada cabeçada em que salvava o rubro-esmeralda de uma investida inimiga. Bonaldi, com a jaqueta branca do ferroviário santa-mariense, parecia ter olhos apenas para o futebol da sua equipe. De pé no concreto do pavilhão, mostrou a mesma decisão. Falava sempre com firmeza. Se por vezes faltavam sorrisos, frases definitivas jorravam tranquilamente da face do defensor.

Rodrigo Corrêa Bonaldi, que completa trinta e um anos em setembro, mora no alojamento do clube porque “é sozinho”. A mãe ficou em Cruz Alta, cidade natal do jogador. O zagueiro solitário, de parcos fios de cabelo e marcas no rosto que evidenciam batalhas em Bagé ou Livramento, teve um início de carreira “esquisito”, como descreveu. Na sua estréia como profissional, na já distante temporada de 1998, atuava como CENTROAVANTE do Guarany, de Cruz Alta. Zagueiro nas categorias de base, Bonaldi não se contentou em ser útil apenas na bola aérea. Convenceu-se de que faltava mobilidade e destreza para iludir a marcação dos beques cruz-altenses.

Um ano depois, retornou ao encardido universo dos defensores. Quando esclareceu que “lá na frente não dava mesmo”, Bonaldi esboçou o seu segundo e último sorriso da manhã. O primeiro foi um riso discreto e desconfiado que largou quando recebeu as fotos do Futebesteirol, em que aparecia erguendo o braço para os alambrados ou derrubando algum atacante mais faceiro. Recuperada a sisudez habitual, Bonaldi recordou a primeira conquista: em 2000, ascendeu da terceira para a segunda divisão estadual com o seu Guarany.

O acesso rendeu a primeira experiência de Série A. Contratado pelo São Paulo de Rio Grande, Bonaldi disputou a primeira divisão do futebol gaúcho em 2001 e 2002, ano em que o São Paulo caiu. O seu destino, então, foi a longínqua Alagoas. No primeiro semestre de 2003, foi atleta do CSA. A EDUCAÇÃO futebolística prestada aos alegres defensores alagoanos chamou a atenção do Náutico, de Pernambuco. Pelo Timbu, Bonaldi esteve em campo na lendária Batalha dos Aflitos. Oquei, é claro que não. Com Bonaldi em campo, o Náutico nunca entregaria uma partida daquelas.

Findo o breve ciclo pelo Nordeste e depois de atuar no interior paulista, Bonaldi finalmente desembarcou em Santa Maria. Mas não no Riograndense. Em 2005, com o mesmo ímpeto com que agora balança os cordões nos Eucaliptos, vestiu o vermelho do rival Inter-SM. Na Baixada Melancólica, Bonaldi não pôde contrariar a atordoante sina do coloradinho. Como de costume naqueles anos, o Inter morreu na praia e viu São Luiz e Gaúcho lograrem os bilhetes para a Série A. Assim mesmo, se destacou pelas cobranças de falta de muito longe que sempre flertavam com o gol.

Dois anos mais tarde, o Riograndense surgiu na carreira do beque. Em 2007, assim como em 2006, 2005 e 2004, o Periquito era dono de um elenco tristemente limitado. Inverno após inverno, o time apanhava até do Cachoeira. Mas desta vez ao menos havia Bonaldi. O zagueiro proporcionou uma das raras alegrias daquela Segundona. No Rio-Nal disputado nos Eucaliptos, o Riograndense saiu perdendo, para variar. A revolta do capitão, porém, possibilitou o empate: no segundo tempo, Bonaldi peitou a arbitragem, desafiou os rivais e anotou o gol da igualdade. Na comemoração, escalou os alambrados.
Naquele ano, o Inter-SM subiria. Já o Riograndense de Bonaldi não alcançou a segunda fase. Restava a famigerada repescagem, destino comum de todos os eliminados. O adversário seria o sempre temido Lajeadense, que ainda não contava com os festejos de Lucas Precheski. Na ida, o Riograndense bateu o time azul por 3-1, na primeira atuação convincente da temporada – mas no último escanteio da tarde, o goleiro Mainardi frangou miseravelmente e possibilitou o “1” do Lajeadense. Um novo 3-1 em Lajeado forçou a disputa por penais: o Periquito perdeu por 5-4. Mas Bonaldi viu FUTURO naquele esquadrão ainda enfraquecido.

O sentimento de Bonaldi pelo time nasceu nos primeiros insucessos: “a partir dali, aprendi a amar o Riograndense”, conta o zagueiro. Incrível como os sentimentos soam bem mais sinceros em um cenário REAL como o interior gaúcho. Perguntado sobre como um jogador se mantém no pampa, Bonaldi disse que no interior o atleta “se DEFENDE”. Os contratos curtos, válidos quase sempre durante apenas um campeonato, forçam o jogador a trocar de camisa por semestre - ficar parado significa a ruína financeira. Para a próxima temporada, Bonaldi pode voltar à elite do Gauchão – o que significa mais tranqüilidade no bolso. Tudo porque 2009 foi um ano de luzes para o camisa seis do Riograndense.

“Desde o início pensávamos em brigar”. Bonaldi não concorda que a presença do clube de Santa Maria entre os quatro melhores da competição tenha sido surpreendente para quem viveu a campanha. Trata-se de um clube com jogadores rodados e conhecidos, que melhorou a estrutura e que já havia alcançado uma boa colocação no ano anterior. Lembrou, também, que apesar da expectativa do acesso ter minguado no quadrangular final, o time fez uma trajetória valorosa, “a melhor dos últimos trinta anos”.

Jornada após jornada, Bonaldi se consolidou como o maior nome da equipe. Era a referência do time que mostrou solidez para garantir a classificação na primeira fase. Posteriormente, foi o símbolo de um Riograndense que vencia fora de casa como um matreiro fronteiriço. Faltou erguer a taça e dar a volta olímpica. Entre as razões para o desmoronamento técnico da equipe nas últimas rodadas, Bonaldi apontou carências no elenco – “nas laterais e no meio-campo”, principalmente – e nas condições de trabalho, incomparáveis com as de Pelotas e Porto Alegre, favoritos às duas vagas desde o SORTEIO dos grupos.

Se jogar a primeira divisão com a camiseta do Riograndense se tornou tarefa impossível para 2010, não faltaram interessados em contar com a solidez de Bonaldi na Série A. E o jogador agradece pela visibilidade atingida justamente ao clube de Santa Maria. Conta que representantes de Avenida e Veranópolis fizeram contatos a partir dos jogos televisionados pela TV COM, o que só foi possível porque o Riograndense foi longe no campeonato. Só que as propostas “ainda não são oficiais”, e Bonaldi pode vir a ter uma nova equipe ainda neste ano.

O Milan, de Júlio de Castilhos, que constrói um elenco bem mais decente do que o apresentado na Segundona, quer ter em Bonaldi o capitão para a Copa Arthur Dallegrave, que até já iniciou. O rubro-negro castilhense também deve levar outros jogadores do Riograndense, como o atacante Alfinete e o também zagueiro Diego. Bonaldi via a transferência como incerta: a sequência de jogos até então fora intensa (ele disputou 32 dos 36 confrontos do time) e o interesse (frustrado) do Riograndense em disputar a Copa também dificultou o negócio.

Para o torcedor do Periquito, há uma boa notícia. Bonaldi se mostrou disposto a firmar vínculo com o clube para voltar no ano que vem – depois de uma possível passagem pela primeira divisão. As tratativas dependeriam do interesse da diretoria. Certo é que logo veremos novamente Bonaldi por estes campos: no Antônio David Farina, nos Eucaliptos de Santa Maria e de Santa Cruz ou, quem sabe, no Estádio Olímpico Monumental. Bonaldi sabe que é “um sonho distante” defender o seu querido tricolor de Porto Alegre – objetivo que estará um pouquinho mais perto se o zagueiro repetir as grandes atuações na divisão principal do Gauchão. Se não der, “quero ao menos jogar contra”, diz Bonaldi. É um raciocínio interessante.

Finalizados os questionamentos, Bonaldi se despediu e, ao caminhar pelas arquibancadas ensolaradas, atendeu o celular. Talvez fosse um dirigente randômico do outro lado da linha, negociando uma transação para Erechim, Passo Fundo ou para a Indonésia. Bonaldi sabe que “o futebol é uma MÁFIA”, e que pode ser prejudicado por não contar com um empresário, mas agora diz resolver tudo por conta própria. “Se alguém quiser conversar, dou o meu número e pronto”. A verdade é que Bonaldi se garante.

4 comentários:

Diego disse...

Muito boa a matéria, Bonaldi teria lugar num dos grandes times da Capital.

Preferencialmente o Grêmio, tem a cara do Grêmio (o bom, não o de hoje)

Maurício Brum disse...

"66 RS 135868
ESPORTE CLUBE MILAN/RS
RODRIGO CORREA BONALDI
CT. 663089 de
27/08/2009 a 01/12/2009 "

Retirado do BID. Bonaldi confirmado hoje no Milan até dezembro.

Milan, time mais retranqueiro e violento da Segundona + Bonaldi, melhor zagueiro da Segundona. Vai ser BONITO de ver os castilhenses na Copa FGF.

Prestes disse...

Genial!!!

"Bonaldi sabe que “o futebol é uma MÁFIA”, e que pode ser prejudicado por não contar com um empresário, mas agora diz resolver tudo por conta própria. “Se alguém quiser conversar, dou o meu número e pronto”. A verdade é que Bonaldi se garante."

Sensacional!

Gabriel disse...

Grande Bonaldi.Sorte pra ele, não importando a qual clube defenda.Mas que volte ao nosso Gandense ano que vem...