domingo, 6 de julho de 2008

Matthias Sindelar, o austríaco

Havia um jovem de Favoriten
Chamado Matthias Sindelar

Ele jogava com alegre, sensual leveza

Ele sempre jogava. Ele nunca apelava


As Olimpíadas de 1936, em Berlim, ficaram memoráveis pelas quatro medalhas de ouro conquistadas pelo estadunidense Jesse Owens diante de Adolf Hitler. O fiasco do ideal de superioridade ariana também se dera no futebol: na segunda fase do torneio olímpico, a Noruega vencera a Alemanha por 2-0, eliminando qualquer possibilidade de os locais conquistarem uma medalha no esporte rei. A propaganda nazista que falhava teve suas chances de sucesso reacendidas com a anexação pacífica da Áustria, em março de 1938. Além do território, os jogadores de lá também seriam incorporados ao selecionado alemão; naquela década, o hoje enfraquecido futebol austríaco contava com um equipaço, incluindo o melhor jogador em atividade de entonces: Matthias Sindelar.

Filho de família pobre, nascido Matěj Šindelář a 10 de fevereiro de 1903, em Kozlov, região de etnia tcheca que compunha o Império Austro-Húngaro, mudou-se com apenas dois anos de idade para o distrito de Favoriten, em Viena. O laço criado desde cedo com a futura Áustria modificaria mais que seu nome. Sindelar começou a jogar bola nas ruas da cidade, ingressando com 15 anos nos juvenis do Hertha Viena. Ali ficou até 1924, quando o atual Austria Viena veio para lhe oferecer a chance de jogar em alto nível, para uma torcida. Centroavante técnico e goleador, sobressaiu-se numa época de ultra-ofensivismos – a idolatria clubística conquistada após liderar o Austria Viena em um título de campeonato e cinco de copas nacionais viraria endeusamento de todo o país depois das conquistas de 1933 e 1936 na Copa Mitropa (torneio anterior à Copa dos Campeões, disputado principalmente por times da Europa Oriental, Central e da Itália).

Mereceu a alcunha de Mozart do futebol. O sucesso, obviamente, seria repetido na formação da melhor Seleção Austríaca de toda a história. Chamavam-na Wunderteam, o time maravilhoso, cujo estilo de jogo viria a influenciar o Futebol Total praticado mais tarde pela Holanda. Com Sindelar e mais dez, a Áustria empilhou vitórias como um 5-0 e depois um 6-0 sobre a Alemanha, um 6-0 diante da Suíça e um 8-2 na Hungria, ergueu a Copa da Europa Central (uma predecessora da Eurocopa) em 1932 e foi semifinalista na Copa do Mundo de 1934, eliminada pela anfitriã Itália num dos jogos em que Mussolini fez “reunião” com a arbitragem antes de a bola rolar. Sem seu Mozart nem a maior parte do time principal, mas ainda no embalo, a Áustria levou a prata nas Olimpíadas de 1936.

A impressão passada era das melhores, fazia os adversários tremerem e, depois do Anschluß, a anexação, animou os alemães – ainda havia futebol para mostrar e a Copa do Mundo de 1938 estava a poucos meses de começar. Matthias Sindelar seria um reforço importante para tentar o título. Matthias Sindelar, no entanto, não compactuava com os nazistas. Sentia-se um austríaco, soberano, e considerava inaceitável ter que se submeter à mesma suástica que fizera seus amigos judeus, funcionários do Austria Viena, serem perseguidos e mandados embora. No dia 3 de abril, no vestiário do Praterstadion de Viena, Sindelar tinha tudo isso em mente quando ignorou as ordens claras que eram passadas ao seu time: nada de marcar gols. Aquela era a data em que se festejaria a “reunificação” da Áustria com a Alemanha, fazendo uma despedida simbólica do selecionado austríaco com um amistoso diante do próprio combinado alemão, que não podia ser derrotado naquele momento histórico.

No máximo, os alemães cederiam um empate honroso. Mas não estava nas mãos deles. A Áustria era muito melhor. Era ela que decidia quando converteria seus gols. Fazê-los ou não dependia do temor às intimidações de antes da entrada em campo. E Sindelar, o capitão, não se acanhou. “Ele sempre jogava”, diz um dos versos do poema Auf den Tod eines Fußballers (a Balada da morte de um jogador de futebol), de Friedrich Torberg, que tem uma das estrofes na abertura deste texto. Marcou um gol, comemorou dançando debochado em frente à tribuna onde estavam as autoridades nazistas, e fez os companheiros se unirem à sua causa, sem medo de vencer. O jogo terminou em 2-0 para a Áustria. A resistência de Matthias Sindelar se manteve, sem jamais ir embora do seu país. Der Papierene, o homem de papel que driblava com suavidade em campo tentava também escapar das convocações para defender a Seleção Alemã: ora dizia estar velho demais, ora justificava a falta com uma “lesão inoportuna”.

O episódio da provocação aos oficiais no amistoso não fora esquecido, e as repetidas ações de Sindelar avivavam um descontentamento dos nazistas. Como símbolo, ele passava a ser considerado pela Gestapo um foco perigoso cujo exemplo poderia se espalhar pela população austríaca. O jogador também já vivia dias mais difíceis, privado de jogar o futebol que tanto amava, uma vez que atuar pelo seu clube se punha perigoso diante das negativas à Seleção. No dia 23 de janeiro de 1939, com 35 anos, Matthias Sindelar e sua namorada foram encontrados mortos no seu apartamento em Viena, intoxicados com monóxido de carbono.

As circunstâncias da morte nunca foram esclarecidas. Suicídio ou assassinato? As duas hipóteses mais consideradas hoje foram descartadas na versão oficial, que qualificou a ocorrência como acidente. Não era a verdade: os amigos conseguiram arquivar as investigações para que Sindelar pudesse receber honras de Estado em seu funeral – algo impedido pelas leis nazistas na existência de um elemento criminal. Dezenas de milhares de vienenses saíram às ruas para acompanhar o cortejo fúnebre, e o Austria Viena registrou o recebimento de quinze mil telegramas de condolências. Eram as despedidas a um herói. Em 1998, seis décadas após o misterioso falecimento, Matthias Sindelar foi eleito o jogador austríaco do século.

Um comentário:

yuri barros disse...

Mas apesar da morte de Sindelar, logo depois estava alcançando o auge outra lenda, Franz Binder, que não só teve o reconhecimento devido por seu auge justamente ter-se dado durante a segunda guerra, mas esse também fez história, marcando muitíssimos gols(mais de 1000) e levando o rapid Viena ao título Alemão de 1941, numa das maiores viradas do futebol mundial, marcando 3 gols na final contra o Schalke.

Mas vale a lembrança desse cracaço, que como muitos é simplesmente desprezado pela maioria, que só sabe citar obviedades.