sábado, 13 de setembro de 2008

Cruzeiro, um interiorano em Porto Alegre

Reportagem premiada no Prêmio Anual de Comunicação (PANC) de 2009, promovido pela FACOS/UFSM

Deixar Santa Maria para comparecer a um importante Grêmio x Vasco da Gama era a desculpa oficial da viagem. Mas um evento bem menos comentado que ocorreria um dia antes é que estava sendo verdadeiramente aguardado. O Cruzeiro de Porto Alegre e o Riograndense santamariense enfrentariam-se no mítico Estrelão, localizado nos confins da capital.

Corria um sábado tranqüilo, e apesar da reduzida importância do duelo, válido pela Copa FGF, a oportunidade de ver o velho Riograndense em outro território animava. Do bairro Menino Deus até o número 8301 da inacabável Protásio Alves, evidentemente não se notou qualquer movimentação criado pela partida. Após quase meia hora de percurso, o Estrelão, que tem de mais imponente o nome, pôde ser avistado. Um muro branco, com inscrições apagadas pelo tempo em azul terminava em um portão pouco atraente, que parecia ser o único acesso ao estádio.

O relógio marcava exatamente três e meia da tarde, e mesmo em cima da hora da partida, os responsáveis pelo improvisado estacionamento do estádio não deixaram de exteriorizar a satisfação em ver mais um visitante chegando - as camisetas denunciavam. "O Riograndense eu respeito. Vocês são como nós!". A frase, talvez exagerada, faria maior sentido depois.

Ingresso pago e uma rota pela grama até as arquibancadas - pequenas, de quatro ou cinco níveis na lateral do campo. Atrás de um dos arcos uma tribuna maior, que abriga certamente a maior capacidade do estádio. Na outra lateral, o pavilhão que existe desde a inauguração, em 1977. Pouco mais de setenta pessoas compareceram ao encontro, cerca de vinte delas surpreendentemente na torcida visitante. Eram membros da diretoria do Periquito, santamarienses radicados na Região Metropolitana e até jogadores ainda não inscritos, como o centroavante Leandro Safira, autor do gol diante do Inter B, há dias atrás.

Os cruzeirenses (no estádio também ouvi o termo cruzeirista) eram poucos mas orgulhosos. Depois de um primeiro tempo confuso, mas de intenso comprometimento das equipes, aproveitamos para caminhar pelo Estrelão. Dirigentes locais aproximaram-se aos poucos, discorreram brevemente sobre o clube, lamentaram a perda dos pontos do Riograndense no Gauchão, demonstraram semelhantes queixas quanto a Federação e mais uma vez aprovaram a presença dos forasteiros. Tudo muito rápido, já que o futebol estava voltando, nestes estranhos anos 2000 os quinze minutos de intervalo normalmente são respeitados.

Na etapa complementar, o jogo melhorou consideravelmente. O rubro-esmeralda de Santa Maria cresceu, encurralou os estrelados, arriscou arremates de certo perigo. Aos vinte minutos, porém, o Cruzeiro ganhou - literalmente - um pênalti a seu favor. Injusto pelo futebol apresentado e pela legitimidade do lance. Mal sabíamos que só foi melhor para o registro, já que a câmera flagrou o momento exato da brilhante defesa do arqueiro Luciano, ex-Inter-SM. Alfinete, no último suspiro dos acréscimos, perdeu a maior das chances dos visitantes, estufando os cordões pelo lado de fora. 0-0, mas sem decepções.

Apenas ao fim do jogo percebemos o drama do Cruzeiro. O Leão da Montanha, como era conhecido outrora, hoje é ignorado por absurda maioria de Porto Alegre. E também prejudicado, mesmo que indiretamente, pelo crescimento da metrópole, como prova a sua rica história.

Em 1941, depois de expressivos resultados municipais (campeão em 1918, 21 e 29) e mesmo estaduais, como o título gaúcho de 1929, o Esporte Clube Cruzeiro inaugura o Estádio da Montanha, no bairro Medianeira, nas cercanias de onde encontra-se hoje o Olímpico Monumental. Anos depois, registrou o maior feito de sua história: o sensacional desempenho em excursão pela Europa, onde enfrentou com êxito gigantes como Real Madrid, Lazio e Galatasaray.

A expansão da capital obrigou o Cruzeiro a deixar Medianeira e sua fase vitoriosa. A valorização da área arrastou o clube até a zona onde ergueu sua cancha atual, quase no limite com a cidade de Viamão, e o futuro, tristemente, pode forçar uma nova mudança. Condomínios luxuosos começam a aparecer na região, onde o Estrelão já destoa. A imprensa colabora com o esquecimento do clube. Na volta do jogo, Nando Gross, na Rádio Gaúcha, anunciava: "Hoje não tivemos futebol em Porto Alegre, mas amanhã tem Grêmio e Vasco, às 16 horas, no Olímpico." O Cruzeiro simplesmente não existe.

Estando em Porto Alegre, é fácil compreender a aparência interiorana do Cruzeiro e porque o clube reconhece no Riograndense, por exemplo, algumas semelhanças. O estrelado, como inúmeros outros no mundo, sobrevive em uma grande cidade às sombras de outros quadros, sem visibilidade, ajuda financeira e numerosa torcida. Atualmente apenas resiste, como no interior.


6 comentários:

Gustavo disse...

Lindo relato. Parabéns.

Frederico disse...

Ótimo texto... retrata exatamente a maioria dos clubes do interior.
Uma pena essa triste realidade, mas os clubes do interior poderiam ser muito mais fortes se tivessem o apoio da comunidade e da mídia, pois competir com a dupla é muito complicado.

Iuri Müller disse...

As três primeiras fotos são do blog, a quarta é do site do Cruzeiro: www.cruzeiropoa.com.br

Juninho do Porto disse...

Iuri, sou cruzeirista e todo este teu relato é, infelizmente, verdadeiro.

Somos a resistência!

Sandro Viero disse...

Belo post! Meu tio é cruzeirista, eu joguei no time!! Muita tradição,mas infelizmente,pouca torcida e um passado de glória já muito distante. Algo como o São Cristóvão do Rio.
Todavia agora em 2010 é campeão e volta à série A!! Viva!!

Anônimo disse...

Pra quem não sabe ainda, hj onde era o estádio da Montanha, tb conhecido como Colina melancólica, é o Cemitério João XXIII, até hj tem uma parte da arquibancada em pé dentro do cemitério. Dias atrás passei do lado dessa arquibancada do antigo estádio. Olha, muito sinistro o negócio. Só não tirei foto, pq bem na hora terminou a bateria do celular.