quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Breve tratado metafísico da Azeitona

A maior parte das mulheres que conheço não gosta de azeitonas. Observam enojadas e deixam num canto do prato. Digamos que é uma proporção de setenta por cento de almas avessas ao CAROÇO ENGOMADO presente nos pratos mais variados. Falo isso apenas para introduzir o assunto, porque faltam explicações embasadas na CIÊNCIA para o ódio da população feminina em relação às bolotas pretas, verdes, roxas ou, vá lá, FÚCSIAS. O que me importa é a bolota, independente da cor.

A azeitona é um jogador que serve para completar o time em qualquer canto. Daqueles muito ruins, que entram onde sobrar lugar. Ou dos espetacularmente bons, que se garantem na posição em que o treinador colocar. O DILEMA da oliva é justamente esse: para alguns é o Pelé do prato; para outros, o Jacozinho. Os filósofos gregos, aqueles desocupados que passavam o dia propagando a falta de sentido entre o povo, deveriam ter dedicado algumas horas ao estudo da azeitona, que gregos gostam de oliveiras, mas preferiram tentar (não) entender essas questões desimportantes como a vida, as ideias e todas as coisas.

O que eu sei das azeitonas, na falta de uma análise ARISTOTÉLICA a respeito, eu aprendi nas TERRINAS de couvert do mundo. Aquelas que chegam como uma cortesia antes do resto, até do menu, e depois surgem misteriosamente na conta, abaixo de coca-colas e acima de águas jamais consumidas. O couvert, a entradinha, são os pãezinhos secos ou torrados acompanhados de manteiga, margarina ou coisas pastosas de coloração indefinida e gosto misterioso; os ovinhos de codorna em conserva, os salaminhos, os queijinhos, os pepininhos.

As azeitoninhas.

Nunca vi azeitonas sem caroço nos restaurantes que se dignam a servi-las. As cores variam e algumas inclusive parecem estar pretas por PUTREFAÇÃO ao invés de obra genética, mas o caroço é o torcedor de fé que não falta a um jogo no estádio. Sempre presente, em qualquer situação. Comprou o pacote de ingressos para a temporada inteira e está lá mesmo que o time apareça só pra cumprir tabela. Os teóricos do azeite de oliva (?) dizem que a ausência do caroço – e, com nojo, complementam: “substituído por PIMENTÃO” – equivale a sacar da azeitona seus HUMORES essenciais para subsistir sobre a face da Terra. Uma azeitona sem caroço não teria nem alma e ainda querem achar sabor? Ah, os inocentes – pensam eles com um ar superior emanando das RETINAS.

O caroço é, também, uma promessa de ADRENALINA correndo pelo corpo. Só existem cinquenta e nove sensações catalogadas pelos biólogos como mais intensas do que mastigar furiosamente uma azeitona – incluídos aí o orgasmo e o tratamento de canal – e, num átimo de desatenção, cravar sua semente entre os molares superiores e inferiores. Além de ser um risco emocionante para as dentições mais frágeis, o caroço é um inimigo da reputação da própria azeitona. Quanto menos CARNE tiver o fruto da oliveira, maior parecerá o caroço. E mais árdua a tarefa de extrair dali algo comestível.

Mas a azeitona costuma vir farta, gorda como uma GIRONDA prenha. Quem a seca como um torcedor do Pelotas em dia de jogo do Brasil é a geladeira. Sim, aquela Brastemp em aço escovado, reluzente de nova, que ruge na cozinha e às vezes até perturba o sono no sofá da sala, é ela que está murchando e endurecendo as azeitonas guardadas com tanto ZELO – e que a mulher, provavelmente, despreza por completo e todos os dias dá uma olhada querendo atirar pela janela. Minha tese é toda sustentada por comprovações empíricas colhidas ao largo dos anos e tem uma boa dose de achismo, mas é minha.

Uma azeitona não resiste a um dia de geladeira. Não é como, sei lá, uma MORTADELA, um requeijão ou um patê de rabo de pato defumado, que duram alguns dias até serem devidamente comidos. Diz a embalagem que o pote de azeitonas sobrevive bem por dez dias depois de aberto, desde que conservado num ambiente refrigerado. Mas é balela e, você, com toda a cultura adquirida nos QUADRINHOS E CRUZADAS do Segundo Caderno da Zero Hora, não é pessoa de cair em balelas. Os próprios azeitonófilos (?), quando produzem a embalagem lá na fábrica, torcem para que as pelotinhas sejam todas consumidas de uma vez e a FALÁCIA não fique tão clara.

A verdade cabal, inquestionável e sólida, meus amigos, é que um pote de azeitonas só tem qualidade na primeira pegada. Esqueça o picadinho completo, a pizza ou o que for mais elaborado. Use todas as azeitonas de uma vez. Nem que produza doses intermináveis de drinks e distribua entre os vizinhos. Você pode comer no dia seguinte, e no outro, no outro e (se estiver famélico) no outro, mas não vai ser a mesma coisa. Aquilo já não serão AZEITONAS, dignas de caixa alta. Serão zeitoninhas. Endurecidas em sua razão de existir, enrugadas pela canseira dos dias e jururus por não terem podido ser.

O Fluminense deste fim de ano é das coisas mais espetaculares de ver que o futebol brasileiro produziu na década. O time morto que ressurgiu para jogos copeiros e sonhos altos. Aquele jogo de ontem contra o Cerro Porteño com remontada nos acréscimos, por Dios, merecia ser enquadrado e pendurado na sala de casa. Um gol de GUM ensanguentado, outro tento driblando o goleiro no MEIO DE CAMPO e uma briga com PRISÕES no fim, tudo coroado com classificação à final continental para os cariocas. Foi de olhar para os céus, erguer o polegar em sinal de positivo e dizer que fizeram um bom trabalho inventando o futebol. O Flu, definitivamente, abriu um pote de azeitonas no momento em que Fred acordou. E os tricolores estão se deliciando com a iguaria desde que iniciaram sua série invicta, agora contando doze jogos.

Mas precisam continuar com fome. Precisam ir até o fim nessa toada. A geladeira do Fluminense é uma derrota. Perder alguma das finais da Sul-Americana ou um jogo do Brasileirão pode aniquilar o espírito e condenar o que ainda há de aproveitável no fundinho do pote. Aí nenhuma das últimas azeitonas será tão agradável ao paladar como poderia. E a reação pode acabar como ilusão, num vice e num rebaixamento, tornando o fim de ano mais doloroso do que seria com uma queda óbvia. Termine essas azeitonas, Flu. Não olhe para os queijinhos!

Foto extraída do PÂNCREAS do site oficial do Fluminense.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Murmúrios de esperança para a Bósnia

Não eram só alvos estratégicos que as forças sérvias atacavam. A foto impressionava e denunciava o aspecto genocida da guerra, ignorado por boa parte do mundo durante as primeiras semanas do cerco, em 1992. Sobre as ruínas da Biblioteca Nacional da Bósnia, o principal violoncelista da Orquestra Filarmônica de Sarajevo, Vedran Smailovic, tirava melodias chorosas do seu instrumento. Naquela situação, com o céu gris sobre a cabeça, os atiradores de elite à espreita e as bombas despencando sem aviso, Smailovic foi às ruas, como se as notas musicais o protegessem.

Sarajevo era então uma cidade cercada e com o abastecimento bloqueado. Em 5 de abril de 1992, quatro dias depois de a Guerra da Bósnia ter seu começo formalizado, as forças da auto-proclamada República Srpska e do Exército da Iugoslávia tomaram os arredores da capital bósnia e iniciaram o mais longo cerco registrado na história moderna da guerra: quase quarenta e sete meses. Comida, água, e mesmo combustível para aquecimento das casas não chegavam aos habitantes da cidade, reféns de uma situação que as mal equipadas tropas locais não conseguiam reverter.

As ruas da Capital ganharam avisos – Pazite, Snajper! – indicando a presença de snipers, os franco-atiradores, postados no alto dos edifícios da vizinhança. Mas a fúria genocida atacava por todas as pontas. E no dia 27 de maio de 1992, por volta das dez da manhã, um grupo de civis famintos que aguardavam em fila para receber um frugal pedaço de pão foi atingido por um tiro de morteiro. Vinte e dois homens, mulheres e crianças morreram. Vinte e dois seriam os dias pelos quais o celista da Filarmônica local sairia de casa carregando seu instrumento.

Na manhã seguinte ao ataque, Vedran Smailovic se postou no mesmo lugar em que a explosão assassina vitimara os inocentes. Sobre a cratera deixada pelo ataque, assentou o celo, puxou um banquinho e começou a tocar. As feridas abertas estavam por todos os lados. Nas paredes dos prédios, no asfalto das ruas, na carne e nos sonhos das pessoas. E ali, no meio das ruínas, um homem desafiava os projéteis, a pólvora e a insanidade de todos os outros homens. Indefeso e vestido como se estivesse iluminado no palco da Ópera de Sarajevo, usava as cordas para criar um fiapo de esperança.

Tocou, tocou e tocou. Por vinte e duas jornadas consecutivas. Variava os momentos do dia. Não a música. Do seu violoncelo escorriam lágrimas na forma das notas do Adágio em G Menor de Albinoni, um som cuja melancolia é capaz de transportar a mente em divagações intermináveis. Ainda que solitário, o tom de Smailovic ecoou pelas construções destruídas. Engoliu civis, soldados dos dois lados e acordou o mundo. Os noticiários que dedicavam espaços resumidos à Guerra da Bósnia decidiram colocar uma lupa sobre os Bálcãs e compreender melhor o que ali se passava.

O novo olhar revelou mais do que uma guerra comum. Havia ali atrocidades e massacres, cujo objetivo de ser aquilo mesmo os autores nem se preocupavam em dissimular. Não havia locais seguros para quem morasse em Sarajevo. A Biblioteca Nacional, que teve sua destruição eternizada na célebre foto de Mikhail Evstafiev, tirada enquanto Smailovic tocava, foi um dos alvos inexplicáveis. Casas, hospitais e escolas poderiam ser os próximos. A comunidade internacional, envergonhada com uma coisa daquelas em plenos anos noventa, não tardou para adotar uma postura mais ativa. Vedran Smailovic, por sua vez, estendeu os dias de sua arte. Queria dar uma resposta para a guerra e a insensatez.

Questionado por um repórter se não era louco por arriscar a vida para tocar nas ruas desertas de uma cidade destruída, Smailovic rebateu com nova interrogação: “por que você não pergunta a eles se não são loucos por bombardearem Sarajevo?”. Ao término das vinte e duas datas estipuladas para a homenagem inicial, o violoncelista virou um ser errante pelos caminhos de Sarajevo, naquele momento a própria Capital do Inferno. Em muitos velórios de inocentes mortos durante o cerco, Smailovic surgia de repente, sem qualquer aviso, e brindava à sua memória, com alguns minutos de som.

Sarajevo resistiu ao cerco graças à abertura do seu aeroporto para aviões de provisões das Nações Unidas e à construção de um túnel que permitiu aos bósnios contornarem o embargo internacional de armas – aplicado para todos os envolvidos no conflito, incluindo os defensores da cidade – e também proporcionou uma rota de fuga para muitos habitantes. A intervenção da OTAN, em 1995, conduziu a Guerra da Bósnia a um fim. A luta cessou em dezembro daquele ano, mas a data da retirada dos invasores de Sarajevo tardaria até o fim do segundo mês do ano seguinte.

No dia 29 de fevereiro do bissexto 1996, os soldados iugoslavos finalmente deixaram suas posições. A população de Sarajevo foi reduzida a menos de dois terços do que era antes da guerra, pelas mortes e emigrações forçadas. O próprio Vedran Smailovic acabaria deixando a cidade, convertendo-se em ícone da paz e tocando ao lado de artistas como Pavarotti, Paul McCartney, e U2 nos anos seguintes. Havia feito a sua parte na VIDA, e com o tempo só desejou descanso. Agradece por não frequentar mais o noticiário internacional, embora no ano passado tenha sido procurado pela imprensa para comentar, irritado, um livro que se apropriou da sua história para criar uma ficção (The Cellist of Sarajevo, do canadense Steven Galloway).

Smailovic esconde-se hoje em Warrenpoint, uma cidadezinha de menos de dez mil habitantes no nordeste da Irlanda do Norte. Ele passa os dias compondo e jogando xadrez, participando esporadicamente de eventos de caridade. Talvez Smailovic nem goste de futebol e nunca tenha chutado uma bola. Ou então seja um apaixonado, o centroavante frustrado que um dia sonhou em defender o FK Sarajevo. Seja como for, e mesmo distante, ele deve estar tão ansioso quanto seus patrícios na noite de hoje. Em Zenica, a poucos quilômetros da sua Capital outrora sitiada, a Bósnia-Herzegovina enfrenta Portugal pelo segundo jogo da repescagem, podendo ir à Copa do Mundo pela primeira vez. Hoje, as únicas bombas que a cidade verá serão os chutes dos atletas em campo - e eventuais rojões estourados para festejar uma conquista de vaga.

Sentado na frente da tevê, o celista de Sarajevo só quer tocar algo alegre quando o jogo terminar.

* * *

Update da madrugada sobre as repescagens:

- E foi com sons de lamúria, novamente, que terminou a noite em Zenica, Sarajevo, Warrenpoint, ou onde houvesse alguém torcendo pela Bósnia. Faltou força para derrotar o decadente time de Portugal que, apesar dos pesares, conta com o SANTIAGO DO FUTEBOL EUROPEU, Cristiano Ronaldo. Ainda assim, houve festejos em algum canto dos Bálcãs, com o contundente 1 a 0 da ESLOVÊNIA sobre a temida Rússia de Hiddink, Arshavin e todos aqueles lá. Na região, a classificação eslovena soma-se à da Sérvia, que já havia se garantido na Copa durante a fase de grupos das Eliminatórias. Como a Ucrânia imitou os russos e também se foi (0-1 em casa contra a Grécia), o placar final das Eliminatórias foi 2 a 0 para a ex-IUGOSLÁVIA sobre a ex-UNIÃO SOVIÉTICA.

- Os irlandeses pareciam estar movidos a TORRES de cerveja, uísque e todos os fluídos dotados de algum teor mensurável em graus Gay-Lussac. Por isso trituraram a França. Mas nem em COMA alcoólico um vivente deixaria de ver o toque de mão de Thierry Henry, um lance que até o VÔLEI condenaria, como condução. Henry conseguiu estar impedido e estapear a pelota duas vezes na mesma jogada, antes de cruzar pro gol de Gallas, que empatou e sentenciou a repescagem. Roubalheira infernal, como sói acontecer em Copas do Mundo - mas desta vez começaram cedo DEMAIS. Graças ao juiz, a França está com a passagem para a África do Sul na mão, como li por aí

- A esquecida bandeira da Argélia voltará a ser hasteada num estádio de Copa do Mundo, graças à vitória por 1 a 0 sobre o Egito no Sudão, um jogo extra para um confronto que gerou até INCIDENTES DIPLOMÁTICOS e carnificinas nas ruas do Cairo, de Argel, e por outras daquelas cidades do MAGREB. O Egito confirmou novamente que é o ATLÉTICO MINEIRO da África. Os dois são os maiores campeões nos torneios dos seus quintais, mas enquanto um não consegue ganhar um título nacional de forma alguma, o outro é incapaz de conseguir uma puta vaga na Copa do Mundo há vinte anos.

- No Centenário, o Uruguai e Costa Rica não negou o que se considerava definido desde o fim de semana. Valeu pelo gol do Loco Abreu e, depois, pelo peixinho dele próprio dentro da área Celeste, salvando a pátria num momento em que as DONINHAS de Renê Simões acreditaram que podiam remontar um jogo que acabou em 1 a 1.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Perpétuo até o fim da semana: Santiago

Sob chuva. Sobre campo pesado. Jogando dia após dia, sem descanso. E este domingo já era o terceiro dia. O cronômetro chegava aos 65 minutos da partida decisiva, aquela hora em que o cérebro ainda quer, mas os músculos refugam. Não havia outro jeito de ganhar o jogo. Era preciso uma bola parada. As ondas sonoras do apito do juiz chegaram a curvar as gotas que o céu cuspia. E o estádio esperou, paciente, enquanto a estrela do time pediu a bola. Que ficassem tranquilos, que deixassem com ele.

Ele chegou à equipe qual um Cristiano Ronaldo desembarcando em Madrid. O anúncio do seu nome talvez tenha criado sobre os torcedores um impacto maior do que o do português no Santiago Bernabéu. Esquecendo-se os valores, essas coisas irrelevantes no futebol atual, a única diferença entre as contratações dos dois é que, diferentemente de Cristiano Ronaldo, ele não era a primeira opção do clube. Diante da proximidade do maior torneio do ano, os dirigentes sentaram, coçaram a cabeça, espremeram os neurônios como laranjas até sair dali um SUCO junto com um nome.

Um belo dia, concluíram que deviam correr atrás de Sandro Sotilli. O time em questão é o Grêmio Esportivo Ibirubá, e a época era a das semanas prévias à disputa do Campeonato Sulbrasileiro Amador – cujo direito de disputar e sediar o Grêmio ganhou junto com o título do Gauchão de Amadores do ano passado. Sim, Ibirubá quis Sandro Sotilli. Você aí, arrependendo-se amargamente de ter ouvido a sugestão da namorada e pego uma bola daquele maldito sorvete de PISTACHE e no Noroeste do Estado alguns dirigentes planejavam a mais bombástica contratação dos últimos decênios.

Pois enquanto você, que agora já sabemos ser um INOCENTE, colocava a calda de chocolate sobre o sorvete numa VÃ tentativa de salvar o dia, o Grêmio se frustrou. O Pelotas já tinha um pré-contrato com Sotilli para disputar a primeira divisão profissional em 2010, e não quis arriscar os ricos JOELHOS do seu matador num campeonato de três dias. Disse que não era assim que as coisas funcionavam, que os ibirubenses desculpassem, mas o Sotilli ficaria bem CALMINHO em casa. O loiro centroavante, no entanto, também mete gols quando faz indicações. E ao time de Ibirubá disse que um dos seus companheiros mereceria um ARCO DO TRIUNFO pelo que acabaria fazendo no Grêmio.

Uns dias depois, um certo atacante fez uma viagem em que a CONDUÇÃO pareceu rastejar sobre os pedriscos da estrada. Percorreu o mapa e pisou no Noroeste gaúcho já sentindo nas espáduas todo o peso das ilusões dos mais de DEZENOVE MIL habitantes ibirubenses. Ali, calculou, seria rei. Era o cenário propício para se recuperar. Porque o Grêmio também queria a ressurreição. Elisandro Naressi Roos, o atacante que as canchas ovacionam como Santiago, foi sumindo das escalações do Pelotas na Segundona deste ano e terminou o certame com apenas quatro gols. O Grêmio Esportivo Ibirubá, defendendo o título de amadores do Rio Grande, caiu nas semifinais do campeonato deste ano e chegou ao Sulbrasileiro menosprezado pelos oponentes – temiam o apoio da torcida, não suas qualidades.

Com Santiago, o time doído virou SENHOR. Responsável por ceder seu campo a todas as partidas e bancar a acomodação dos participantes do Sulbrasileiro, o Grêmio Ibirubá só foi bom anfitrião até aí. Em campo, ninguém o venceu. Nem o segurou. E nem foi capaz de perfurar a sua defensiva. Ao cabo dos três jogos, os ibirubenses contaram nove pontos e nove gols feitos, contra nenhum sofrido. Na sexta-feira, o paranaense São Manoel caiu por 2 a 0. Santiago marcou um. No sábado, os paulistas do Real de Santo André foram ao chão como RODILHAS diante de um futebol irresistível que rendeu goleada de 6 a 0. Santiago balançou as redes duas vezes mais.

O quadrangular se decidiu ontem. Cada time chegou com seis pontos. E o outro time era dotado de tradição. Entre 1999 e 2002, o catarinense Juventude, de Lindoia, conquistu um irrepetido tetracampeonato no Sulbrasileiro. O Grêmio buscava sua primeira conquista, envolto naquela aura de impossibilidade possível e desejo bobo que temos todos na perspectiva de fazer o que nunca conseguimos. E choveu. Choveu absurdamente. Os céus quiseram afastar as testemunhas da história, BIRRENTO e maldoso. Mas sobre a cidade pairava uma certeza inquietante. Já havia mostrado o equívoco dos seus oponentes, o Grêmio, com um futebol que venceu o menosprezo. Aquele jogo não seria perdido. E ouvindo a contenda pelos rádios dos botecos, quem percebeu o lado para o qual o vento soprava deve até ter profetizado o autor do gol do título. Tão certo quanto a taça não sairia de Ibirubá, o goleador da jornada seria o craque da equipe.

E aos 65 minutos, aquela falta. A extenuante maratona de jogos findando com o FIRMAMENTO escarrando gotas e mostrando LÍNGUAS elétricas. E Santiago com aquela bola. Tudo daria certo. Como um guri que corria com todas as suas ânsias para buscar o brinquedo preferido, o nome maior do time partiu na direção da pelota. Golpeou. Atirou. Festejou. E o momento permitiu até criar um verbo novo: CAMPEONOU. O Grêmio Esportivo Ibirubá venceu o Juventude pelo maior placar que uma decisão precisa ter, o 1 a 0, e conquistou o inédito título sulbrasileiro. De Santiago queriam referência técnica. Ele foi. Exigiam gols. E o atacante saiu do certame artilheiro, com quatro tentos em três jogos. Queriam firmeza de espírito. E ele converteu em festejos a falta mais importante da competição.

Queriam a estrela sobre o escudo. E Santiago foi essencial para colocá-la ali.

A ideia dessa série é destacar sempre algum personagem que marque durante a semana, da segunda ao domingo anteriores. Eu poderia escolher o Fred, do Fluminense, que a golpes de gols intermináveis caminha para salvar seu time do rebaixamento e ainda dar-lhe o troféu da Sul-Americana. Ou então Metab, da Seleção Egípcia, que coroou o polêmico jogo contra a Argélia com um gol aos 90+5 minutos, forçando um confronto extra no SUDÃO para definir o último africano classificado à Copa de 2010. E eu queria eleger Metab, porque poucas coisas são mais anos sessenta que partidas de desempate. Mas não. O meu nome da semana é Santiago, o homem que desembarcou na Terra da Pitangueira do Mato com a pressão de ser grande – e em três dias já era gigante.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Afogados na glória inaudita

Gramado sempre surge com algum motivo para atrair os FORÂNEOS. Geralmente é a neve. Mas quem sobe a Serra também pode estar correndo atrás de uma gastronomia quase SUÍÇA, hortênsias florescendo até nos BUEIROS, um Festival de Cinema acontecendo aqui, uns papais noéis correndo perdidos acolá e belezas nativas exibidas pelas esquinas. Em último caso, uma simples neblina já dá ar de estamos-nos-morros-que-beleza e carrega boas dúzias de almas ladeira acima.

Na falta de todo o resto – não é época da maioria dos citados, a cidade estava meio vazia e nem mesmo as hortênsias se dignaram a surgir –, havia a névoa. Mais, mais que névoa, mais. Umas quinhentas camadas de lençóis brancos enroladas uma após a outra, fazendo sumir a vastidão do horizonte e reduzindo a vista a alguns metros diante do nariz, dependendo do local. Mas havia também um estádio de futebol. Estranhamente.

Gramado não é cidade de futebol. A maioria de nós, ingênuos a observar o mundo através das lentes televisivas, talvez até saibamos que por lá existe um time, um tal Gramadense, cujo nome vezemquando surgia nas pré-temporadas de Gre ou Nal por aquelas bandas. Normalmente cedendo seu estádio. Às vezes tendo a chance de enfrentar os grandes de Porto Alegre num embate que nem chegava a merecer ser chamado de amistoso, mas jogo-treino.

Pois o Gramadense, e agora eu exijo tambores RESSOANDO ao fundo, tem oitenta anos de história e para os não-íntimos atende por Centro Esportivo Gramadense. Não é tão conhecido porque, de fato, até aqui havia feito muito pouco para ser registrado fora das fronteiras regionais, pero en el ’09 han cambiado las cosas y venido la ilusión. Disputando o Campeonato Estadual de Amadores, que só mantém o amadorismo na fachada e no nome, já que muitos jogadores profissionais campeiam por suas equipes e mesmo os desconhecidos acabam recebendo GRATIFICAÇÕES externas, o Gramadense de 2009 caminhou pelas fases do certame mandando beijos-abraços-me-liguem para todos os que surgiram pela frente.

Como o campeonato é curto – atualmente apenas TREZE clubes ARGUMENTAM nos gramados em busca do direito de se dizer o melhor do Estado –, dez jogos levam à final. Na fase de abertura, o time de Gramado fez de vítimas o Tamoio de Viamão, o Americano de Novo Hamburgo e o arquirrival Serrano de Canela, que desde o princípio dos tempos gaba-se de ser bicampeão gaúcho entre os amadores, contra até então nenhum título dos vizinhos gramadenses. O Tamoio voltou a ser oponente superado nas quartas-de-final e, nas semis, o despachado foi o Estância Velha.

A decisão de ontem foi desenhada quando, no outro jogo semifinal, o atual campeão Grêmio Esportivo Ibirubá viu seus jogadores desembestarem a correr feito CUCARACHAS desnorteadas e caiu levando um inacreditável agregado de SEIS a um para o Sport Club Ivoti (cujo escudo é idêntico ao do Inter de Porto Alegre, porém AZUL, para fazer média). Poderia ter sido um bom indício de que os ivotienses iam imparáveis pela taça, mas no penúltimo domingo, em plena Ivoti, o Gramadense venceu o primeiro jogo decisivo por 1 a 2.

Era nessas condições, jogando pelo empate e podendo perder por até 0 a 1 em casa, que a equipe de Gramado entrava em campo na tarde de ontem para disputar a partida de volta da decisão. O título acenando no DOBRAR DA ESQUINA fez cerca de um milhar de torcedores locais esquecerem que na mesma hora estava sendo jogado um Gre-Nal e lotarem seu pedaço do ESTÁDIO DOS PINHEIRAIS. No lado oposto ao pavilhão, nas arquibancadas descobertas, a massa vinda de Ivoti não chegava a encher seu setor, mas cumpria com honra seu papel.

As sacadas dos prédios ao redor da cancha eram outras arquibancadas, gratuitas, a receberem aficionados da casa. Então começou o jogo. O Gramadense de azul. O Ivoti, tão branco quanto a neblina no exterior do perímetro dos Pinheirais. Por aqueles momentos, ainda que as rádios insistissem em lembrar do jogo de Porto Alegre, dos eternos rivais se digladiando no Beira-Rio, de Victor cometendo uma rara falha e do Inter fazendo 1 a 0 sobre o Grêmio com três minutos de partida, era como se não houvesse nada fora daquele estádio além dos primeiros edifícios visíveis.

O centro do mundo era o campo do Gramadense. Poderia ser até o último lugar do mundo que ainda existisse. Depois daquilo, os olhos só alcançavam o branco. Ninguém sabia se DEUS não tinha decidido dar cabo do planeta antes do previsto (2012, como sabemos) e deixado apenas aquele campo para mais tarde, porque um Gauchão Amador que não chega ao fim é pendenga que nem o Todo-Poderoso quer ter de resolver. O Gre-Nal das rádios seria apenas ILUSÃO mantida pelo CRIADOR. Então que jogassem, e bem, para fazer valer aqueles gritos e batuques vindos de uma torcida que não se deu o direito de descansar enquanto a bola rolou. Porque, se deviam todos morrer, que fosse com glória.O Gramadense jogou melhor. Após os primeiros minutos pouco interessantes, a maior PENETRAÇÃO do time da casa SOLAPOU as vagas aspirações do Ivoti. Aos vinte, Murilo diagnosticou morte cerebral nos visitantes, marcando o 1 a 0 que pôs fim às ações ivotienses na tarde. Melhor em campo até aquele momento, o camisa 7 de Gramado gambeteou a marcação e atirou a pelota nas cordas (acima, o gol; abaixo, a comemoração). Nove minutos mais tarde, Marcelo Buda entrou na área pela direita e tocou rasteiro na saída do goleiro para dobrar a vantagem de Gramado.

Buda, um homem que no passado foi capaz de perder dois gols sem goleiro numa mesma partida, recuperar-se e marcar depois o tento da vitória (São Luiz 1-0 Pelotas, Segundona de 2005), bateu no peito e se ajoelhou sorridente. Seu gol o colocava muito perto de somar uma medalha de Campeão Gaúcho Amador à sua de vencedor da Segundona do Rio Grande – faltando apenas a Copa Libertadores para completar a TRÍPLICE COROA das mais PORTENTOSAS conquistas que qualquer SER pode almejar ao longo da existência.
Antes da meia hora de partida, o agregado subia para quatro a um a favor do Gramadense. Nem ARROUBOS de raça pareciam capazes de recuperar um Ivoti espalhado sobre o céspede como migalhas à mercê dos quero-queros. No intervalo o coro de “é campeão” amealhou mais gargantas, e os seguidores da ideia de que já não existia mundo além da névoa pensavam se não estaria bom o bastante dar um ponto final ali, quando o êxtase era insuperável.

Não foram capazes de comover os céus, e o jogo seguiu. Sem maior ordem, nem mesmo uma gana de “precisamos ir para cima num último esforço”, os ivotienses simplesmente foram avançando. Numa dessas, o goleiro Bosco, do Gramadense, parece ter esquecido no ar o que exatamente deveria fazer com aquele pulo, não acertou a bola e deixou a meta aberta. Murilo, agora o Murilo do Ivoti, copiou o tocaio oponente e estufou as redes. Dois a um que não mudava nada.

Mas a queda de Bosco foi também um rompimento do IDÍLICO final perfeito, de goleada, título e sem gols sofridos. Pouco depois, quase ao mesmo tempo em que o sol saía e dissipava a neblina, as rádios anunciavam o fim do Gre-Nal, e os colorados triunfantes vibrariam alheios ao Gramadense, pois, que diacho, ainda havia um mundo ao redor dos Pinheirais. No entanto, logo voltaram ao jogo. O mundo, os Gre-Nais e mesmo o UNIVERSO podem continuar existindo e serem relegados a um terceiro plano quando se está na iminência de uma glória inédita.

No minuto 86, Cinval arriscou um chute despretensioso da intermediária ofensiva do Gramadense e o goleiro adversário, tentando encaixar, aceitou. Aos 89 minutos e 50 segundos, foi um ivotiense quem protagonizou o último (e mais belo) lance do jogo. De voleio, Daniel diminuiu o tamanho da derrota do seu time, sem tempo para mais. Com o 3 a 2 na contagem da tarde e a bola no centro do campo, o árbitro Jean Pierre Gonçalves Lima só aguardou que o pontapé de reinício fosse dado para soar o último apito da edição 2009 do Gauchão de Amadores.

Passados oitenta anos da fundação, o Gramadense conquistou seu primeiro título do Estado. Garantiu presença no Campeonato Sulbrasileiro de Futebol Amador de 2010 e, quase tão importante quanto tudo isso, diminuirá um pouco a flauta tocada pelos torcedores do rival, o Serrano. O capitão do time de Gramado, Amarelo, banhou-se com espumante (foto de abertura), ergueu a taça e, honrando o saudável amadorismo invocado pelo nome do torneio recém-conquistado, gastou seus cartuchos de LATIM como faria um torcedor:

– Não quero saber de timinho de Canela que tem dois títulos. Nós também vamos ter, e ainda vamos ganhar o Sulbrasileiro.
Gramado continuará sendo a Suíça brasileira, a terra das flores, dos kikitos e da neve. Mas agora também é a terra do campeão de tudo o que chamamos de Rio Grande. E ninguém dali se importa que a cidade não vá atrair mais turistas por causa disso.

Fotos minhas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A terra das canchas condenadas

Virou a grande questão nacional. Nem mesmo os periódicos sérios, cujas páginas são valiosas demais para serem usadas com esporte, deixam de cobrir a discussão. Algumas editorias projetam cadernos especiais inteiros para enrodilhar os argumentos de todas as partes e tentar levar o debate a algum consenso. O Olé tem em mente uma edição de luto, com letras brancas sobre fundo negro, porque economia de tinta é nada diante do momento histórico.

De Ushuaia ao mais remoto galpão dos pampas ao Norte, mateando ou bebericando umas Quilmes que suam com a lamúria patriótica dos que brigaram e saíram derrotados, as rodas de vozes matam tardes e decapitam noites em calientes esgrimas verbais. Não está fácil torcer pela Argentina nessas DISPARATADAS Eliminatórias à Copa de 2010. Depois de sábado, embora a matemática tenha dito que sí, todavía podemos, o aguardo do último jogo pelos aficionados é comparável ao do condenado à morte que só espera o alçapão da forca se abrir.

Maradona não admite, mas pelos corredores da AFA se comenta que não foi só a toalha que o treinador jogou – ele também estaria atirando as camisetas para o alto nas preleções. Por sorte, elas vinham caindo em mãos mais ou menos certas, ainda que os atletas não estivessem exatamente encontrados em campo. Mas os pontos que não entraram no AÇAFATE portenho contra o Peru exigem que se tenha mais que sorte na partida do Uruguai. E só Deus, que, alguns descobrem agora, não é Diego, pode imaginar o que renderá o confronto em Montevidéu.

Não importa que baste uma vitória no Centenário, nem que o Chile de Loco Bielsa possa enterrar um Equador enamorado das suas possibilidades de entrar na Copa do Mundo pela terceira vez seguida. É como se a rodada já estivesse sentenciada. O empate de sábado, contra o Peru, feriu os sonhos argentinos tal qual uma FOLHA DE PAPEL abre sutis arroios de sangue nos dedos desprevenidos. Aquele gol aos noventa minutos... aquele maldito gol que a tevê agora reprisa, no horário nobre, para olhos que contemplam o lance entre a ira e a lágrima. Aquela maldita chuva interminável e aquele maldito empate depois de uma desatenção que simplesmente não poderia haver numa partida daquele nível.

Carlos, que proferiu heresias pelo tanto que duraram aqueles minutos, sente um ímpeto de repetir tudo agora, quando acompanha a reprise pela tevê. A cabeça esquenta com a simples audição de um locutor que, desesperado, berrava carajos e contava a história das putas madres que haviam dado à luz os peruanos. Diante do Peru, ainda. Diante da mais inocente das esquadras sul-americanas, há anos. Estava certo que aquele 1 a 1 não poderia gerar qualquer esperança para o jogo do miércoles de mierda frente a um Uruguai levado por mais de oitenta mil gargantas que só viram a Celeste jogar duas Copas nas últimas cinco.

A grande dúvida que aflige os argentinos, diz o cabrón da reportagem, não é mais a presença na África do Sul. Mesmo com a classificação plausível. Antes do jogo seria estranho cogitar uma situação assim, mas o estado anímico alterou-se da fé irracional para a desesperança completa no atômico milésimo em que a pelota foi encaçapada na meta argentina – e a tevê reprisa de novo, aumentando a vontade de Carlos de acabar com o triste espetáculo destruindo seu aparelho a golpes de machado. Naquele instante da noite de sábado, o condor passando pelo céu do Peru veria uns incas pós-modernos felizes pelo trozo de história proporcionado pela sua seleção dada como morta, em cantorias que contrastavam com o Monumental silêncio de Núñez, alguns milhares de quilômetros ao sul do sul da América.

De qualquer maneira, desde tal momento os Albicelestes desistiram dos planos mundialistas e, pragmáticos, puseram-se a resolver questões que o futuro acabaria trazendo inevitavelmente. Um jogo daqueles pesa demais na memória para que se veja o combinado nacional atuando outra vez no mesmo palco. A conquista da Copa do Mundo de 1978 na cancha do River Plate parece ter sido achicada nessas horas de raiva apaixonada. Diz o apresentador: o 1 a 1 contra o Peru, com aquele gol aos noventa minutos, vem sendo considerado inaceitável pelo povo, que não quer reutilizar o campo. Hoje, segue o repórter, cada rincão da Argentina discute com fervor qual será o novo estádio da Seleção. E defende o seu.

Toda hecatombe tem que ter culpado. Maradona, o treinador, ainda é Maradona. E Maradona dispensa outros comentários, é explicado pela tautologia e absolvido pelos tempos. Os jogadores, apesar de uns bem odiosos e dispensáveis ali no meio, não podem ser todos substituídos. O único que poderia cambiar de fato seria o comando da AFA, mas esses são símbolos menores que o estádio, o grande cenário de sonhos que se desfizeram. O estádio, e esse estádio com nome bem apropriado, Monumental, foi feito réu sem chance de defesa, e declarado monumento ao fracasso ainda não consumado de 2009. Pode ser que o mundo acabe em três anos, mas enquanto houver um humano vivo, restará a lembrança de que ali, num aguaceiro outubrino, a Argentina que tinha em suas linhas o maior jogador em atividade no planeta deixou de ir à Copa.

O jogo de Montevidéu é que confirmará (ou não) isso para a matemática, mas o empate contra o Peru é a tragédia verdadeira. Há, pois, outros estádios no país. Chega de Monumental. Carlos agora vê como a reportagem alterna rapidamente imagens de canchas gigantescas não utilizadas da capital e até potreiros do interior. Quase como uma escolha de cidades-sede de Copa do Mundo. Passa-se uma lista de atributos positivos e negativos, os porquês de a Argentina acolher determinado local como sua casa pelos anos seguintes. Rosário, pela lembrança do recente 1 a 3 imposto pelo Brasil no Gigante de Arroyito, é um local desconsiderado. Mas o país é grande.

Há Salta, onde o Boca Juniors recebeu algumas partidas internacionais nos últimos anos. Há o Olímpico de Córdoba. La Plata e seu estádio único, fortalecida na candidatura pelo flamante Estudiantes tetra da América. Entrevistando o povo nas ruas, nota-se que muitos gostariam de aproveitar a oportunidade para quebrar a ditadura da capital e fazer a Albiceleste adotar um rodízio nos estádios. Sempre teremos Mar del Plata. E Mendoza, e Quilmes, e Lomas, e mais tantas canchas capazes de receber mais de trinta mil almas.

Um irônico de Santa Fé diz que o estádio da sua cidade deveria ser escolhido, ao menos para as próximas Eliminatórias. “Nos quedamos tan chicos”, afirma, “que la Selección podría usar el Cementerio de Elefantes y su leyenda”. Proprietário do campo, cujo nome verdadeiro é Brigadier General Estanislao López, o pequeno Colón fez o estádio merecer o apelido por criar o costume de abater os adversários-elefantes que pisavam por lá. Em 1964, até o Santos de Pelé encontrou uma cova do seu tamanho no cemitério de Santa Fé.

Nem seria necessário sair da capital. Em Buenos Aires há excelentes estádios capazes de assumir a condição de sede da Albiceleste. Um pouco mais ao lado, Avellaneda aguardaria de braços abertos, com o infinito Cilindro do Racing Club e o novíssimo Libertadores de América do Independiente, que deve ser inaugurado com uma partida oficial antes do fim deste mês. Qual um tiroteio descontrolado, os bate-bocas seguem. Podem morrer no jogo de amanhã, com um milagre diante do Uruguai que mereceria a alcunha de Centenariazo. Pero los sueños son sueños, e a certeza do coração é que tudo se acabou.

No próximo bloco, a expectativa pela declaração de Cristina Kirchner consolando o povo argentino.

Nessa altura Carlos desliga a tevê. Era uma reportagem interessante, mas o exercício de imaginação estava ficando real demais. Che, a Argentina havia vencido o Peru, e o maldito gol aos noventa minutos foi apenas susto, não desilusão. Se houver desastre virá de Montevidéu; o gramado de Núñez já garantiu sua absolvição. Ao seu lado, o filho de seis anos, já amante do futebol mas pouco iniciado na sua história, tinha grandes interrogações estampadas no rosto. Sentiu uma falta naquele monte de estádios mostrados pelo programa... “Papá, ¿y por que no La Bombonera?”

O pai então contou de um jogo em 1969. Lembrou como naquele ano o mesmo Peru empatou por 2 a 2 na Bombonera, firmou a última ausência da Albiceleste em mundiais e desgraçou o estádio do Boca para jogos da seleção pela eternidade. Contou que daquela vez, como no sábado, um gol salvador foi marcado nos acréscimos – e também em condições irregulares. Se Palermo estava impedido no jogo deste ano, em 1969 Brindisi marcou o terceiro gol, que valeria passagem para a Copa do Mundo do México, fazendo falta sobre o arqueiro Rubiños.

– Pero hace cuarenta años, hijo mío, nos anularon el tanto.



Fotos arrancadas das entranhas da internet.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Un equipo de locos

Você eu não sei, mas eu desprezo as gripes. Com a veemência dos JUSTOS. Gripes são coisas que incomodam mas passam em uma semana. Quando medicadas, acabam em sete dias. Remédios contra gripes não são para destruí-las, mas para que CONVIVAMOS com elas PACIFICAMENTE. Você eu não sei, mas se pensa diferente está errado. Não, não aceito contestações. Estou com uma gripe que talvez seja gripe A desde a semana passada. E curar-me-ei com APRACUR e futebol.

Deveria ter sido uma irritação causada pelo PÓLEN que esses dias primaveris espalham pelo ar junto com a insanidade dos FEROMÔNIOS, mas virou uma dor de garganta. E febre. Ou não. Não tenho termômetro e não fiz grande esforço para obter um. Gripes são psicológicas. Mesmo MORRENDO, aja como se nada estivesse acontecendo e até a próxima lua elas desistem. Foi uma noite de calafrios e delírios, mas eles também podem ter sido CONDICIONADOS. Se eu não tivesse pensado “opa pode ser gripe A vou fazer um diário relatando os sintomas” certamente teria dormido tranquilo como um FRADE BORRACHO.

Desisti do diário antes que o segundo dia acabasse. Se fosse a suína, publicar os manuscritos desmoralizaria o vírus, acabando com esse COMÉRCIO tão rentável que é a VENDA DE MÁSCARAS. De qualquer maneira, evitei os médicos. Uma inconveniente quarentena tornaria insuportável a rotina já bastante abalada pelo PADECIMENTO gripal. A febre, ou a ilusão de febre, alternava-se com a dor de garganta. Um sintoma de gripe A e outro que não é dela. Ao menos é o que dizem os papéis pendurados em cada ônibus desses pagos.

Os ônibus, claro. Meu pensamento social parou nos vendedores de máscaras e de tamiflu. A saúde pública que se danasse. Permaneci circulando pelo MUNDO e oferecendo doses grátis de ANTICORPOS FUTUROS às pessoas que se aproximassem. “Uma semana mal e depois nunca mais”, diria meu cartaz publicitário, anunciando a imunidade a longo prazo. O avançar da gripe combatida a golpes de Apracur deixou meu nariz mais inútil que o Thiego improvisado na lateral do Grêmio. Com a diferença de que o nariz é recuperável.

A cura ficou menos UTÓPICA no sábado de tarde, em Júlio de Castilhos. O Milan achou por bem distribuir COMPRIMIDOS do mais eficaz remédio que há para atacar qualquer mal, e se botou em campo para um jogo de futebol. Qual um fiel que se agarra às CANETAS do pastor para pedir exorcismos e milagres, ou um Zelaya abraçado às SAIAS da nossa embaixada, mandei-me para o Estádio Miguel Waihrich Filho atrás da SALVAÇÃO definitiva. Embora o jogo fosse pela Copa Arthur Dallegrave, esse torneio que ainda avança desinteressante, o adversário era o sempre VIBRÁTIL Cruzeiro de Porto Alegre.

A primeira fase da Copa Arthur Dallegrave é aquilo que aos filósofos lhes convencionou chamar de VÁRZEA. Dezenove times que viram dez e nove, separados em dois grupos. De cada chave, classificam-se OITO equipes. As infindáveis rodadas iniciais servem para quebrar os clubes em viagens e jogos de estádios esvaziados e eliminar apenas três dos participantes. No grupo do Milan, o de nove equipes, a coisa é ainda pior, porque dificilmente a tabela vai apontar outros classificados que não os atuais: o lanterna é o APÁTRIDA Rio Pardo, que tem um ponto e perdeu cinco jogos em seis disputados.

Vinha decaindo, o Milan, apesar da SELEÇÃO que montou para esta reta final do ano. Depois de DESOSSAR o Rio Pardo no início do mês, o time emendou uma sequência de quatro rodadas sem vitória, que carregava até antes da partida do fim de semana. E ainda atuaria sem Bonaldi, suspenso. O Cruzeiro, ao contrário, acabara de sair de um VENTUROSO triunfo sobre o Grêmio Bê no estádio Olímpico. O esquecido clássico porto-alegrense ao qual um dia deram o nome de Gre-Cruz terminou com vitória do Estrelado por 1 a 2. Quando entraram no campo do Waihrich Filho, os jogadores cruzeiristas o fizeram com rostos AMASSADOS, como que tirados da cama de surpresa, aos berros de vão pro jogo porra.

O sono deles foi o de todos. A partida era uma BOCHA a rolar lentamente pela cancha, sem esclarecer se era uma enganação ou terminaria beijando o BALINHO. Os minutos pareceram DIAS e o dia virava noite, com uma chuva despontando ao som de TROMBETAS no horizonte. Os onze milanistas corriam sem direção e se amontoavam em campo, longe de estabelecer um desenho tático. Longe de estabelecer um desenho ponto. O treinador Valduíno levava as mãos à cabeça, cruzava os braços, agarrava a cintura, caminhava de um lado para o outro. “É só fazer o que eu mandei no treino”, repetia, olhando para a relva.

– Professor, eles tão indo muito pra frente e a gente não tá conseguindo acompanhar – alertou o 6 do Milan, Restinga.
– Grudem na bunda deles e não larguem – berrou de volta o técnico.

O Cruzeiro veio algumas vezes. O Milan pressionou noutras. Nessa alternância não devem ter feito mais que cinco chances reais, SOMADOS. A chuva começou a cair. Gripes são desprezíveis, PNEUMONIAS não, e o jogo de 0 a 0 não valia o sacrifício. Saí do campo para me proteger nas CONFORTÁVEIS arquibancadas de SEIS degraus do Waihrich Filho. Deveria ter aprendido que a única coisa previsível do Milan é a sua capacidade de ser imprevisível. Aquela CUSPARADA dos céus, antes de água, deveria ser querosene, e o jogo foi se incendiando.

Quem trazia mais vontade de DENTAR os três pontos todos era o quadro capitalino. Apitador da partida, seu Gilmar Nunes dos Santos ignorou um pênalti claro a favor do Cruzeiro quando os dez minutos finais transcorriam. Na arquibancada já eram evocados partos de meretrizes quando, para surpresa dos torcedores certos de que seria dada uma penalidade contra seu time, aquele cruzeirista que caíra em meio a CINCO do Milan não recebeu pênalti, mas um cartão amarelo por simulação.

Ainda assim, os visitantes continuaram em cima. Com o duelo se pondo FAISCANTE e as perspectivas de vencer escapando dos dedos, o Milan desistiu da sanidade e optou pela tradição. Alcemar Cavalheiro ignorou o sobrenome, deu um carrinho vigoroso e saiu expulso, assegurando que aquela era mesmo uma partida do quadro castilhense. O cartão vermelho subiu aos 86 minutos, e o tempo seguinte foi de lágrimas e desespero para os locais. Os cruzeiristas perderam chances do tipo que não se desperdiça. Coisas de sair olhando para os céus e perguntando às forças ocultas porquecomigomeudeus.

O Milan saiu da TOCA quando os acréscimos terminavam. O capitão Darzone perdeu uma boa chance em cruzamento aos 90+4 minutos. Logo depois, a última oportunidade. O pavilhão ouviu aliviado o árbitro soprar o apito. A falta no campo ofensivo garantia que não surgiria um novo ataque dos porto-alegrenses. O empate estava no bolso. E a vitória? A falta era na frente da área, a centímetros da linha que separa os pênaltis dos tiros comuns. Do outro lado do campo, tentando fugir da chuva, os torcedores se aglomeravam sob os cinamomos e as araucárias. Muitos passaram dezenas de minutos enraivecidos com sua paixão que fazia ver aquela partida lamentável em vez de ir logo para casa. Agora, estavam prestes a mudar de opinião.

Sob as traves, o arqueiro Fábio José Rampi sabia. Sabia que a chuva caía, que a noite vinha, que a bola estava molhada e a vista prejudicada pela escuridão. Podia não saber, mas pressentia, que o tempo de acréscimo já havia passado. Mas sabia que sempre faltariam trinta segundos. Faltaria o necessário para o último lance acontecer. Porque faltava um tiro livre. O goleiro sabia que o chute poderia sair desviado, a LÉGUAS do gol, como saem muitas das tão aguardadas cobranças de minutos finais. Mas se superasse a barreira, se viesse baixo, o destino dos pontos e da tarde estaria nas suas mãos. Nas suas luvas LISAS pela água que não parava de cair.

Ajeitando a bola, esperando os homens que vestiam azul e branco formar a muralha em frente à meta, Régis também sabia. Seu conhecimento era o de quem precisa bater a falta. Sabia que receberia algumas vaias se pegasse mal naquela bola e mandasse longe. Sabia que desataria a festa e a felicidade se marcasse o gol. Dos dois jeitos, seriam lances efêmeros. Mas o gol é eternizado em forma de pontos. O gol vai pra tabela. Régis sabia que a vitória e a desgraça, os três pontos e o nada, são meros instantes. Mas naqueles instantes a pelota ganhou vida. Saiu dos seus pés como um objeto pensante e consciente de que estava indo para o ângulo esquerdo do goleiro, indefensável. Eram absurdos 90+6 minutos quando o esférico disse que, com dez homens em campo, o Milan ganharia do Cruzeiro da capital por 1 a 0.Na quarta-feira, o Olímpico Monumental aguarda o Milan. E o azul vai ser suplantado pelo vermelho. O da camisa dos castilhenses, o dos cartões que eles recebem ou então o do sangue de algum tricolor mais desavisado. Enquanto isso, a gripe segue e eu TUSSO como um ZEBU TUBERCULOSO.

Todas as fotos minhas. Mais aqui.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Canções para um velho Gaúcho

Reportagem: Iuri Müller e Maurício Brum
Texto: Maurício Brum

“O que vocês querem com o Gaúcho? O clube está morto!”. Do outro lado da linha, em alguma redação passo-fundense, não foi com palavras medidas por pena que o jornalista daquelas bandas disse isso. Falou com a naturalidade de quem chega estapeando um balcão de bolicho e pede o de sempre. O passo-fundense deve ter até se indignado ao ver que alguém levava a sério os projetos de retorno de um clube sem estádio e com o departamento de futebol fechado. Pois levamos. E o mais importante: contra a POUCA FÉ dos periódicos locais, o Gaúcho acredita nos seus próprios planos.

Em 2010, o Sport Club Gaúcho dará início ao seu ainda pouco divulgado sonho de retorno. Com seu patrimônio em mãos alheias, sem saber se recuperará, o Periquito do Boqueirão surgirá nas tabelas da Segundona. “Só não voltamos se acontecer um desastre”, afirma Rudimar Pedro, um dos maiores articuladores do regresso. O dirigente, que dedica suas horas no comando do clube há mais de duas décadas, com curtos intervalos, conviveu com o último fundador do Gaúcho vivo. Ouviu e, depois, viu as ricas histórias que fizeram sua ligação com o time se estreitar.

Quando encontrar
Nos atalhos desta pampa
Tropas vendidas,
Seduzidas por vinténs,

Lembra guri:

Nem que o mundo venha a baixo,

Jamais entregues

A querência pra ninguém [1]

Aquele Gaúcho fundado em 1918. O primeiro quadro a aceitar negros em Passo Fundo. O mais querido da cidade. O clube que jogou por vinte anos no campinho da Montanha, passou outros vinte noutra praça e, num esforço coletivo, retornou em 1958 ao terreno original para erguer seu templo, o Estádio Wolmar Salton. O Gaúcho dos irmãos Daison e João Pontes, a dupla defensiva mais violenta – leia-se gloriosa – que já pisoteou essas coxilhas. O time em que Bebeto, o Canhão da Serra, se fez rei e empilhou gols até quase os quarenta anos de idade. O primeiro clube do Norte gaúcho a atuar na elite do campeonato estadual na era moderna – e na antiga. O tricampeão da Segundona, dono das taças de 1966, 1977 e 1986.

Esse clube já havia sentido a dor do sumiço uma vez, quando ficou nove temporadas licenciado, ao longo da década passada. O retorno aconteceu em 2000, com Rudimar Pedro na vice-presidência de futebol e um projeto de longo prazo: a ideia era ascender à primeira divisão só pela metade do decênio. Dito e feito. Depois de armar um time suficientemente bom em 2004, que chegou ao vice-campeonato da Copa RS, o Gaúcho viveu um luminoso 2005, quando Rudimar já era presidente. Naquele ano, o alviverde fez sua única participação em um torneio nacional, a Série C do Brasileiro, e subiu para a divisão principal do Estado ao lado do São Luiz de Ijuí.

Por isso, quando se encontra
No espelho fundo de si
Ouve o tempo debochando
Bem-te-vi
Já te vi bem
Já te vi bem
Bem-te-vi [2]

O período farto foi a grande chance não aproveitada pelo clube, na opinião de Rudimar, que se afastou junto com outros diretores após a campanha honrosa na elite em 2006. Os comandantes do Gaúcho na temporada seguinte, uns “despreparados”, desgraçaram todo o trabalho feito pelos antecessores. Um aproveitamento inferior a quinze por cento rebaixou o Periquito no primeiro semestre de 2007. Mas a verdadeira catástrofe ocorreria na parte final do ano. Incapaz de arcar com as dívidas de indenização a um jovem que ficara tetraplégico após um acidente nas piscinas do clube em 1996, o Gaúcho foi obrigado pela Justiça a leiloar o Estádio Wolmar Salton para obter os fundos.

A própria família do jovem adquiriu o estádio. Queria revendê-lo imediatamente para a Wal Mart, essa FIRMA com COMPULSÃO por acabar com antigos campos de futebol. No entanto, uma medida tomada pela Prefeitura um dia antes do leilão não deixou o negócio ir adiante: o Wolmar Salton havia sido tombado como patrimônio de Passo Fundo. Enquanto se tentava definir o que era estádio e o que não era – ou o que estaria protegido e o que poderia ser demolido –, a Wal Mart anunciou que só adquiria o terreno se fosse a área inteira. O Gaúcho tentou reverter o leilão. Os compradores, o tombamento. A causa do clube é defendida por advogados que trabalham de graça, e o BRUXULEIO nos tribunais segue até hoje. Como resultado, o fim do profissionalismo alviverde.

Só restou desta lenta agonia
Distorcidas e mortas visões
Das peleias, teatro e poesia
E os arpejos de tristes violões [3]

Como disse o desinteressado repórter passo-fundense, aquele Gaúcho estava mesmo morto. Abandonado, o decadente estádio era a imagem sem necessidade de legendas, a bem-pintada AQUARELA de um clube tradicional caído. Paredes sujas, marcadas por PICUMÃ, velhos escritórios invadidos por sem-tetos atrás de abrigo. O gramado alto, sem ver um corte há tempos, e os cantos onde houvera marca de cal tomados por uns capins cuja vontade explícita era a de serem CAPÕES. Recentemente, denunciaram os jornais, pedaços do Wolmar Salton estariam sendo surrupiados por dependentes químicos que veriam nos metais e nos concretos o sustento do seu VÍCIO. Os torcedores, os de verdade, acompanharam tímidas notas falando sobre a provável volta da equipe. Diante daquele gigante despedaçado que era o estádio onde tantas vezes gritaram, questionavam-se uns aos outros sobre como crer no retorno.

Sopram ventos desgarrados
Carregados de saudade
Viram copos, viram mundos

Mas o que foi

Nunca mais será
[4]

A temporada atual abriu-se com o Gaúcho de volta aos campos. Não o profissional. E nem sozinho. Numa das raras medidas LÚCIDAS da Federação Gaúcha, uma PROTEÇÃO às equipes de peso histórico, a inscrição de quadros novos nos torneios estaduais de base encontra uma série de barreiras. Não raro, é preciso que as escolinhas, que botam em campo todos os seus jogadores, peguem emprestado o nome de algum clube já filiado à FGF. A Bola 10 de Passo Fundo competiu no Gauchão de Juvenis de 2009 como sendo o Sport Club Gaúcho. Fez uma campanha sem brilho, foi eliminada na lanterna da sua chave ainda na primeira fase, pero... Reviveu a arte de ser Periquito e ser livre para se orgulhar disso.

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga, não perde o entono
Vai repetindo a todos num velho grito

Passam os tempos, mas a terra ainda tem dono
[5]

Alguns dos jogadores daquela equipe podem ser aproveitados no plantel do Gaúcho para 2010. Agora sim, o profissional. Rudimar Pedro explica com desenvoltura as ideias do clube para a retomada. A começar pelas cabeças: o Gaúcho tem agora um conselho de 24 pessoas, a maioria jovens com idades entre trinta e quarenta anos, e com isso planeja ter quem o dirija por pelo menos mais uma década e meia. “Assim vamos eternizando o clube”, diz Rudimar, que pretende ser outra vez o vice de futebol no ano que vem. O presidente deve ser eleito ainda nesta semana.

Em campo, imagina-se o aproveitamento de cerca de dez atletas da equipe juvenil deste ano, perfilados a outros com idade de juniores. Time algum vai longe numa Segundona sem jogadores com as costas ENTORTADAS pela idade e experiência, e nomes rodados também devem alinhar com as vestes do Gaúcho. Chegarão ao clube, mas talvez não ao Wolmar Salton. Rudimar é esperançoso, acredita que o fato de a briga na Justiça ter potencial para se estender por até quinze anos vai fazer o outro lado chegar a um acordo, mas para 2010 não se sabe onde o clube atuaria.

Eu tenho berço, eu tenho pátria,
Eu tenho glória.

Eu só não tenho terra própria

Porque a história

Que eu escrevi

Me deserdou no testamento
[6]

A falta de campo próprio, entretanto, não seria empecilho. Ainda que jogar no Vermelhão da Serra, estádio do rival Esporte Clube Passo Fundo, seja hipótese descartada por infernal, há propostas de cidades vizinhas dispostas a ceder seus gramados. Getúlio Vargas e Marau são as mais cotadas. Não é uma saída desprezível, daquelas de clubes sem identidade que correm atrás de moedas oferecidas em cantos quaisquer do Rio Grande. É a necessidade de um resistente interiorano que batalha para preservar o seu nome. E as suas tradições.

O Gaúcho não tem dinheiro para fazer loucuras e tampouco carrega na alma o ímpeto de subir logo. Rudimar Pedro quer repetir o projeto do ano 2000, montando equipe capaz de se dizer favorita ao acesso só daqui a alguns anos. Antes disso, a meta é jogar com honra, ficando em posições intermediárias. Talvez vencendo, para inflar o ego, uns clássicos Ga-Pas contra o Passo Fundo, que também tem plano de retomar o profissionalismo no ano que vem. Para o Gaúcho, interessa estar na primeira divisão na temporada do centenário, no LONGÍNQUO 2018. Considerando esses últimos anos do clube, só a existência de um olhar tão à frente já é uma mostra de que o velho espírito guerreiro do Gaúcho resistiu a todas as tormentas.

Se lembro o tempo de quebra
A vida volta pra trás

Sou bagual que não se entrega
Assim no mais
[7]






* * *

Fotos tiradas do perfil Futebol de Passo Fundo, no orkut.

Para ouvir a reportagem sobre o Gaúcho feita para o Radar Esportivo, clique aqui.

* * *

Trilha sonora:

[1] Tropeiro do Futuro - Armando Vasques e Adão Vieira
[2] Pássaro Perdido - Gilberto Carvalho e Marco Aurélio Vasconcellos
[3] Só Restou - José Retamozzo e Marco Aurélio Vasconcellos
[4] Desgarrados - Sérgio Napp e Mário Barbará
[5] O Grito dos Livres - José Fernando Gonzales
[6] Da Terra Nasceram Gritos - Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Maestro Buri e Nito Padilha
[7] Veterano - Antonio Ferreira e Everton Ferreira

domingo, 20 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara em vídeos

Finalmente, os raros vídeos da Batalha de Santa Bárbara, o jogo interminado do dia 9 de dezembro de 1990, pela última rodada da Segundona Gaúcha daquele ano. As filmagens foram feitas pela tevê, e posteriormente utilizadas para comprovar que a briga teve início no pavilhão do estádio. Também há gravações que mostram o aspecto do estádio logo depois da confusão (e antes da destruição que impediu a disputa da partida remarcada). Apesar de não mostrar tudo o que houve - especialmente a guerra fora do José Antonio Dumoncel -, é o único registro em vídeo conhecido feito na decisão.







* * *

Reportagem - A Batalha de Santa Bárbara

PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4

sábado, 19 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara - Parte 4 (final)

Não dependia mais da vontade dos clubes. O Santa Bárbara versus São Luiz, interrompido em solo barbarense no dia 9 de dezembro por uma verdadeira batalha que tomou toda a cidade, remarcado para o dia 16 e impedido de acontecer por um estádio que apareceu destruído, teria lugar inapelavelmente no dia 20. Em Porto Alegre. Os onze dias que separaram a data da partida original e a data escolhida na última remarcação são tempo demais para clubes do interior. Muitos contratos já haviam acabado. O time de Ijuí podia oferecer a perspectiva de acesso para manter seus atletas, mas aos barbarenses restava pouco.

Grande parte do plantel da Associação Santa Bárbara já havia sido liberada para procurar outras paragens. Alguns jogadores colhiam os frutos da boa campanha e negociavam com equipes da primeira divisão para a temporada seguinte. Quem mais se empenhou para convencer o elenco a atuar só mais uma vez, no jogo do Beira-Rio, foi o treinador Bebeto. Já falecido, Bebeto foi uma das maiores lendas do interior gaúcho. Natural de Soledade, batizado Alberto Vilasboas Reis, ele nasceu em 1946. E viveu pelo esporte. Começou a carreira muito cedo, no Pampeiro da cidade natal.

Revestiu as paredes da casa de medalhas do início ao fim da sua trajetória no futebol. Pelo Pampeiro, conquistou o Campeonato Gaúcho de Amadores (Série Amarela), em 1964, com 18 anos. Vinte invernos mais tarde, estava no Gaúcho de Passo Fundo para pendurar as chuteiras com a glória de devolver à elite do Rio Grande o clube que dizia ser o do seu coração. Levou o time do Wolmar Salton ao título da Segundona Gaúcha de 1984, e ainda saiu artilheiro do certame, indo às redes 19 vezes.

Entre esses dois extremos, Bebeto rodou o Brasil. De acordo com material cedido por Telmo Machado e Gustavo Pezzini, administradores de várias páginas na internet sobre o futebol de Passo Fundo, o atacante deve ter marcado mais de 500 gols na carreira. Defendeu o Corinthians e o Juventus de São Paulo, o América do Rio e, no Nordeste, o Bahia, pelo qual se sagrou campeão estadual em 1971. No Rio Grande do Sul, passou pela Dupla Gre-Nal, atuando também no Inter de Santa Maria e no Caxias – é até hoje o segundo jogador que mais marcou gols na história da equipe grená.

Seu gene goleador transpareceu nos clubes passo-fundenses. Principiou no 14 de Julho de lá, primeira equipe profissional em que jogou, sendo artilheiro da Segundona de 1966. No Gaúcho, enfileirou as artilharias da primeira divisão estadual em 1973 e 1975. Ganhou o apelido de Canhão da Serra, e era já uma lenda naquele 1990 em que dava sequência à carreira de treinador iniciada cinco anos antes. Montou uma equipe que jogou muito mais do que se esperava em Santa Bárbara do Sul, e queria ver o time se apresentar até o fim.

Bebeto convenceu os jogadores a viajar para Porto Alegre. Foi apoiado por aqueles que miravam cobiçosos o bicho extra oferecido pelo Inter de Santa Maria em caso de vitória sobre o São Luiz. Contrariando os boatos de que não compareceria, o Santa Bárbara estava, sim, disposto a ir para a capital. Mas as verdades e vontades vêm em fragmentos no futebol do interior. E podem acabar se perdendo pelo caminho.

Os atletas que se dispuseram a viajar pela Associação Santa Bárbara aguardavam dentro do ônibus quando “veio outra decisão para nós não irmos”, explica Grillo. “O contrato dos jogadores tinha que ser renovado mais uma vez, e alguns já tinham proposta de outros times”. Os clubes que haviam feito algum vínculo com os antigos nomes do Santa Bárbara não aceitaram abrir exceções por conta da partida extraordinária, decepando a possibilidade de se formar uma equipe inteira para mandar ao Beira-Rio.

No fim da tarde daquele 20 de dezembro, só um time apareceu no gramado em Porto Alegre. O São Luiz era acolhido por um estádio gigante e vazio, sem o fervor dos alambrados interioranos, sem os cânticos e berros típicos dos alçapões da Segundona. E o São Luiz entrou em campo sabendo que não iria jogar. O Sindicato dos Atletas Profissionais tentou causar nova reviravolta, enviando um advogado ao estádio para informar ao árbitro que aquela partida não poderia sair. Ele aguardava uma liminar do Tribunal Regional do Trabalho para cancelar o jogo, que havia sido marcado para o período de férias dos jogadores.

O papel nunca apareceu. A CBF já havia autorizado a partida, e determinado que as férias dos elencos das duas equipes envolvidas naquele jogo começariam no dia 22. Pontualmente às seis horas, o sempre presente árbitro Carlos Martins deu início ao tempo de tolerância necessário para decretar a vitória por WO a favor do São Luiz. Os jogadores de Ijuí ficaram com o juiz dentro de campo por vinte minutos, até o resultado se confirmar. Disputando apenas meio tempo de jogo, isso duas semanas antes, passando por dois adiamentos, uma guerra e um estádio destruído, o São Luiz ganhava os pontos de um jogo que não chegou ao fim – e no qual não anotou um bendito gol. Recebia a vitória e, com isso, superava o Inter-SM em um ponto, garantindo o acesso junto com o Guarani de Venâncio Aires.

Mário Cassol, dirigente do Inter-SM que defendera a causa do time até o fim, anunciou a desistência de continuar brigando nos tribunais. Afirmou haver um “pacto” para fazer o São Luiz subir e que de nada adiantaria recorrer. Poucas horas depois da garantia de vitória ijuiense, a Federação cumpriu suas ameaças ao Santa Bárbara, e assinou a desfiliação do clube. Por um ano, os barbarenses não poderiam disputar qualquer tipo de competição oficial.

* * *

As recordações de quem viveu a batalha e seu desenrolar resistiram aos anos que, de uma forma ou de outra, foram apagando os comentários em relação ao jogo. “Quando a gente ouvia falar de Santa Bárbara, olhava meio de lado. Pessoas que não tinham nada a ver com a briga, mas só por ser de Santa Bárbara tu já desprezava”, profere Renato Moraes, um dos que saíram sem maiores ferimentos, mas esteve no centro da selvageria.

Quem apanhou mais conviveu por tempos com os reflexos físicos da violência sofrida. Mas as sequelas não foram só corporais. Jair Galvão, o nascido em Ijuí que jogava em Santa Bárbara, que diz ter recusado suborno por parte do São Luiz e que acabou marcando o gol do seu time no jogo interrompido, explica como foram os tempos posteriores: “eu tive tentativas de agressão, até porque a torcida de Ijuí é muito fanática. Então eu tive muita dificuldade. Minha família teve represálias dentro da comunidade”.

Galvão virou treinador. Hoje coordena a equipe do GBM que, em parceria com o Ouro Verde do Bairro Assis Brasil, disputa o Campeonato Gaúcho de Juvenis. Já esteve no São Luiz, e credita ao episódio de Santa Bárbara as suas saídas do clube: “eu fui treinador do time júnior do São Luiz em 2001. Fiquei em quarto lugar no Estado, eliminando o Grêmio no Olímpico, e no ano seguinte assumiu uma nova diretoria que falou que eu era uma pessoa não grata dentro do clube. Fui dispensado.”

Mais tarde, quando o São Luiz foi rebaixado, Jair Galvão foi convidado para tentar reerguer o clube. Em 1990 ele marcou o gol que poderia ter minado o acesso são-luizense. Mas aquele São Luiz subiu e ficou na primeira divisão até 2003. Ironicamente, quinze anos depois, era o mesmo Jair Galvão quem estava na casamata do São Luiz. Comandou a equipe que seria campeã da Segundona de 2005, repetindo o feito de 1990. Apesar do sucesso, o passado voltou para assombrar: “no ano seguinte, em 2006, novamente assumiu uma outra diretoria e o Jair Galvão voltou a ser pessoa não grata no Esporte Clube São Luiz. Essa é a história. É a história de uma pessoa que foi muito injustiçada dentro da comunidade de Ijuí”, lamenta o treinador.

* * *

O título da Segundona de 1990 só foi definido em março de 1991. São Luiz e Guarani, os dois ascendidos, enfrentaram-se primeiro em Venâncio Aires, depois em Ijuí. O São Luiz levou 1 a 0 fora de casa e recuperou o resultado dentro do 19 de Outubro. Na volta, triunfou por 3 a 1 após a prorrogação e levou a taça.

Foi a abertura de um período de grandezas. Naquele início de década, o São Luiz cobriu o pavilhão do 19 de Outubro, instalou cadeiras no setor e montou uma das melhores equipes da sua história. Ainda em 1991, seria vice-campeão da Copa Governador do Estado após eliminar o Grêmio, perdendo a final para o Inter, em Porto Alegre. No momento mais luminoso, foi à capital para empatar um jogo-treino com a Seleção Brasileira, por 0 a 0, dia 2 de julho.

O ano de 1991 também marcou a transição do comando da Federação Gaúcha. Rubens Hoffmeister passou o cetro para o ijuiense Emídio Perondi. A fórmula do Gauchão foi alterada, e o campeonato da primeira divisão, que deveria ter apenas 14 equipes, foi inchado e aumentou o número de inscrições para 20. O certame teria espaço na parte final do ano, e as vagas extras seriam definidas pelas campanhas nos torneios do primeiro semestre da temporada.

Nenhuma das equipes que fora eliminada no octogonal final da Segundona de 1990 conseguiu um desses lugares. Brasil de Pelotas e São Paulo de Rio Grande, ambos da divisão inferior, subiram pelos resultados na Copa Cidade de Porto Alegre. Graças ao mesmo torneio, o Aimoré de São Leopoldo e o Novo Hamburgo, que foram rebaixados no Gauchão de 90, permaneceram na elite. Dínamo de Santa Rosa e Tabajara-Guaíba, o Taguá de Getúlio Vargas, os dois vindos de participação pífia na Segundona do ano anterior, apareceriam nos carnês da primeira divisão em função dos bons resultados na Copa Aneron Corrêa de Oliveira.

Maior prejudicado pelo conflito em Santa Bárbara, o Inter de Santa Maria não conseguiu aproveitar a chance de subir por esses atalhos e amargou outro ano na categoria inferior do Estado. Desta vez, porém, não despedaçou suas ilusões. Em 11 de dezembro de 1991, alcançou o sonho negado na temporada anterior e subiu para a primeira divisão como campeão.

Oficialmente a Batalha de Santa Bárbara deixou apenas cinco feridos. Um número desprovido de qualquer noção do que realmente aconteceu. O dado confiável é que não houve mortes. Mortes humanas, pelo menos. A Associação Santa Bárbara de Futebol, desfiliada da FGF por um ano, nunca mais recuperaria sua força. Tentou um retorno nos anos seguintes, sem conseguir levar os projetos adiante. Desanimado e sem dinheiro, o clube não tem perspectivas de retornar ao profissionalismo algum dia.

Hoje o estádio José Antonio Dumoncel é a testemunha muda de um dos mais surreais embates que se viu em função do esporte. “Não sei se não foi uma das maiores batalhas que houve no futebol”, diz Renato Moraes. Nos dias seguintes, como nunca fora, o Brasil inteiro e até o exterior cederam alguns segundos preciosos de seus noticiários para falar sobre o que acontecera na definição de um campeonato estadual – e um campeonato estadual de divisão inferior. “Mas o que foi comentado não foi o jogo, e sim a confusão do jogo. Nunca tinha acontecido uma coisa dessas”. Era o mundo conhecendo a Segundona Gaúcha.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara - Parte 3

Foram cinco ou seis horas entre a interrupção do jogo em Santa Bárbara do Sul e a chegada em Ijuí. A maior caravana festiva jamais vista, que se planejara no 19 de Outubro desde o jogo da semana anterior, não aconteceu. No caminho de volta ninguém sabia o que seria da partida. Os que se feriram mais duramente ainda precisavam lidar com os inconvenientes dos próximos dias. Visitas a médicos, recuperações mais ou menos longas, tratamentos e complicações desconhecidas.

O mar de carros estropiados sobre a BR-285 era um lento cortejo que para ser fúnebre só faltava ter mortos. No posto de gasolina perto de Santa Bárbara, os torcedores de bem venceram os exaltados que queriam se banhar com mais sangue. O plano de retornar à cidade com uma estratégia montada e ceifar vidas não encontrou tantas vozes favoráveis quanto seus idealizadores gostariam. Sozinhos, tiveram que voltar com os demais ijuienses.

Um campeiro que se sentasse à beira da estrada, ouvindo o ruído dos fuscas e chevettes, o quase desmanchar dos ônibus que, sem ser exatamente bons, agora estavam ainda mais avariados, poderia saudar os de Ijuí com os acordes de uma milonga. Toques lentos e binários a recordar com dolência as esperanças mantidas durante toda a semana, todo o ano, e que agora estavam viradas naquilo. Um jogo cujo fim não era mais imaginável. Interrompido quando se perdia por 1 a 0. E que, para o São Luiz subir diretamente, precisava ser vencido: Guarani e Inter-SM haviam confirmado seu empate por 1 a 1 na outra partida decisiva da tarde.

O Guarani garantira o acesso. O São Luiz precisava de pelo menos um ponto para forçar um jogo extra contra o Coloradinho de Santa Maria. Pelos próximos dias, seria o Inter, e não a Associação Santa Bárbara, o verdadeiro adversário do time do 19 de Outubro. Quem ficara em Ijuí, ouvindo a rodada pelo rádio, soube de tudo isso antes dos que se envolveram no conflito do Estádio José Antonio Dumoncel e arredores. Mas, sem celulares, ficaram obrigados a ouvir o terror ser exposto na voz de uns poucos profissionais da imprensa, sem ter como dimensionar o que acontecia aos seus.

Os ijuienses escutavam como amigos e parentes, antes maioria, tinham ficado repentinamente menores em número. E as emissoras emendavam contando sobre pessoas desmaiadas, tiros, torcedores carregando companheiros feridos. O desespero se adonou da cidade. Renato Moraes tira da memória a imagem que encontrou quando voltou para casa. A esperada cena de aglomeração pública, mas sem o festejo pelo acesso que se previa no início do dia:

“Ijuí inteiro estava na Praça da República esperando os ‘heróis de Santa Bárbara’ chegarem”, conta. Pelo planejamento histórico de Ijuí, a Praça da República tem a facilidade geográfica de ser cercada pelas quadras da Prefeitura e das duas igrejas mais tradicionais. Ao norte, o templo luterano. Ao sul, o católico. Os dois se encheram de pessoas ligadas a quem tinha ido para Santa Bárbara do Sul. Oravam para que os entes queridos e amigos chegassem bem. Ou simplesmente chegassem.

* * *

Uma charge da época comparou Santa Bárbara ao Iraque, onde se desenrolava a Guerra do Golfo. Entrevistado pela Rádio Gaúcha na noite da segunda-feira, 10 de dezembro, o prefeito barbarense José Antonio Dumoncel disse que Ijuí havia mandado à sua cidade o que tinha de pior – para ele, os torcedores eram “vândalos, drogados e marginais”. A primeira publicação ijuiense a sair depois da briga veio com três dias de defasagem, na quarta-feira 12. O editorial daquele Jornal da Manhã terminava lembrando que “o clima da Segunda Divisão, tradicionalmente, é de guerra”, e aquilo deveria ter alertado os barbarenses sobre as dimensões que o jogo poderia tomar.

O texto justificava a briga sem argumentações mais profundas, dizendo que “torcida é torcida” e um “distúrbio qualquer” no meio de milhares de pessoas poderia gerar consequências como as vistas, dada a importância e a situação do jogo no momento dos incidentes. A opinião, porém, era dispensável. O que verdadeiramente interessava aconteceria ainda naquele dia, e estava na capa do periódico: “Tribunal decide o futuro do São Luiz”.

Naquela mesma noite de 12 de dezembro, o pleno do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da FGF fez sessão em caráter de urgência para julgar os acontecimentos da partida que não acabou. O interesse da Associação Santa Bárbara era pouco seu e mais do Inter-SM: defendendo a posição barbarense estavam pessoas ligadas ao clube de Santa Maria. Sua intenção de manter o resultado do intervalo como placar final, contudo, mal foi considerada. Os julgadores trabalharam com duas possibilidades: recomeçar a partida do 0 a 0 ou fazer apenas o segundo tempo, continuando com o placar parcial de 1 a 0 para o Santa Bárbara.

As trocas de farpas no TJD duraram quatro horas. Em jogo, a temporada. Não houve denúncia contra o São Luiz nem na súmula do árbitro e nem no parecer do procurador. As provas apresentadas pelas partes foram consideradas insuficientes e contraditórias – jamais se definiu que torcida teria iniciado a briga. De certeza, só que ela tivera início nas sociais do estádio, setor de responsabilidade do Santa Bárbara. Os ijuienses tentaram usar o fato para ganhar a vitória no tribunal, mas não conseguiram.

Sérgio Leal Martinez, presidente da sessão, entendeu que a partida havia sido cancelada pelo árbitro, e não apenas suspensa. Daquela forma, seria necessário o reinício do jogo desde o nada, o minuto zero do zero a zero. Foi acompanhado por todos aqueles que tinham o poder de definir os futuros lançados sobre a mesa. Por unanimidade, decidiu-se pela marcação de uma nova partida para o domingo seguinte, 16 de dezembro, no Estádio José Antonio Dumoncel, com portões fechados.

“Naquela ocasião a comunidade de Santa Bárbara, o prefeito, o seu Dumoncel, mais o nosso presidente, o finado Flávio Burtet (presidente do clube), eles decidiram que nós não iríamos mais jogar futebol”, diz Jair Galvão. Dumoncel alega não ter recebido documentação oficial de que a partida ocorreria lá. Como o contrato de cessão do campo municipal ao clube acabara após o jogo do dia 9, a administração da cidade voltava a definir o que fazer nele.

No dia do jogo remarcado, o estádio parecia ter sido desmanchado em prol da extração de petróleo. Todo o alambrado fora retirado, seus postes de sustentação derrubados, o portão da entrada arrancado e uma goleira removida. O que mais se comentou na época, porém, foi o estado do gramado, interpretado como um indício claro de que tudo ocorrera para evitar a partida: o terreno de jogo apareceu arado, e tinha buracos em que um homem ficava até a cintura sob a terra.

Ainda hoje há em Santa Bárbara a versão de que toda a depredação teria ocorrido por parte dos são-luizenses, durante a briga. Algo que os vídeos da época e o próprio Dumoncel, a seu modo, desmentem: “eu reformei o estádio. As goleiras não estavam em boas condições, eu arranquei. Aí fizemos uma lavração nas áreas onde não tinha grama, e fomos fazendo adubação”. O ex-prefeito de Santa Bárbara do Sul declara que só foi avisado sobre a nova partida um dia antes do jogo, já no fim de semana, sem ter como convocar alguém para dar ao campo condições de receber um duelo.

Somente jogadores, dez dirigentes de cada clube e a imprensa estavam autorizados a acessar o estádio. A falta de alambrados e outros dispositivos de segurança, assim, não seria empecilho para a realização da partida. Carlos Martins, o mesmo árbitro do confronto original, tentou negociar com Dumoncel.

– Eu posso atrasar o começo do jogo se o senhor garantir que o campo vai ser consertado.
– Hoje é domingo, o pessoal está dispensado.
– Mas não tem como nós taparmos esses buracos, cravar as goleiras de novo?
– Não tem, não tem. A Prefeitura já cumpriu a parte dela, isso não existe. O Santa Bárbara ganhou o jogo.

Para Dumoncel, a insistência em não decretar vitória barbarense e realizar nova partida só tinha um motivo – a presença de Emídio Perondi, filho de Ijuí e ex-presidente do São Luiz, no comando da Federação. “O presidente da FGF era o Rubens Hoffmeister, e o imediato dele era o Emídio Perondi. Inclusive o Hoffmeister era meu amigo e ficamos desafetos. Ele acabou falecendo quando estávamos desafetos ainda. Mas eu perdoo. Ali foi uma pressão do Perondi para favorecer o São Luiz de Ijuí”. Perondi, cuja suposta influência oculta segue causando raiva nos barbarenses, esquivou-se do escrutínio público e não arriscou dar margem a críticas às suas condutas: absteve-se de votar em todas as decisões da FGF que envolveram a partida.

Dentro do estádio, remoendo a negociação frustrada e incapaz de autorizar o jogo, o juiz classificou o episódio como um “circo armado”. Eugênio Strailev, representante da Federação na partida, garantiu que o Santa Bárbara seria punido. O time prorrogara o contrato dos jogadores, e pôs uma equipe em campo naquele dia, mas era preciso assegurar a arena. Dizia ele que não interessava que o estádio fosse municipal e o clube o utilizasse por cessão, aluguel, empréstimo ou qualquer outra forma: a Associação Santa Bárbara só entrara no campeonato porque provara ter estádio para receber jogos.

Rubens Hoffmeister ventilou a hipótese de tirar o clube do quadro de filiados à FGF. À imprensa, na época, chamou Dumoncel de “político sem expressão”, um “bombachudo do interior” que estava “querendo ganhar notoriedade demolindo o estádio da sua cidade para impedir o jogo marcado pela Federação”. Farto das idas e vindas e tendo o impasse entre São Luiz e Inter-SM para resolver, sugeriu uma absurda mudança de regulamento: queria realizar dois jogos diretos entre as equipes, um em Ijuí e o outro em Santa Maria, fazendo subir quem levasse a melhor.

Sua ideia naturalmente não encontrou eco. Era preciso dar um fim àquele embate entre os ijuienses e os barbarenses. E só entre eles, por mais que os santa-marienses estivessem interessados no desfecho. Sem poder inverter o mando de campo e com o estádio de Santa Bárbara do Sul arruinado, a FGF enveredou pelo caminho da megalomania. A nova remarcação colocou a partida na quinta-feira, 20 de dezembro, num campo neutro. A Segundona Gaúcha de 1990 teria o último acesso definido no maior estádio do Rio Grande, o Beira-Rio de Porto Alegre.

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Parte 1
Parte 2
Parte 4 - dia 19
Vídeos - dia 20

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara - Parte 2

Os alunos que se sentaram e ainda se sentam diante do professor de matemática Renato Moraes talvez não desconfiem da dimensão da sua glória dentro do futebol amador de Ijuí. Renato foi um dos infalíveis na escalação do Ouro Verde do Bairro Assis Brasil, maior campeão varzeano do município, durante a era dourada do clube, entre os anos 1970 e o início da década seguinte. Atuando muitas vezes ao lado do atual treinador da Seleção Brasileira DUNGA, que estava longe de ser o maior destaque da equipe, ele empilhou títulos ijuienses e ajudou a botar sobre o escudo do time as três estrelas que hoje são ostentadas com orgulho.

Aquele Ouro Verde de Renato foi tricampeão estadual de amadores. Não do torneio oficial da Federação Gaúcha, que ainda existe, mas de um muito maior, sumido nas areias do tempo: a Copa Arizona, depois chamada Copa Dreher com a mudança de patrocinador, levantada pelo time do Assis Brasil em 1975, 1977 e 1980. A conquista estadual levava a decisões regionais e, mais tarde, nacionais. Hoje seria impensável, mas a Copa Arizona era um verdadeiro Campeonato Brasileiro de Amadores. As finais ocorriam todas em São Paulo, com viagem e hospedagem pagas pelas empresas que bancavam o torneio. “Infelizmente não conseguimos pegar um título brasileiro, mas ficamos perto”, lamenta o ex-jogador.

Das canchas, Renato Moraes carregou o apelido de Bobeira, uma gozação dos companheiros de time pelo fato de ele ser sempre quem passava mais tempo perdido em meio às rodas de bobo dos aquecimentos. Também levou a lembrança de conflitos costumeiros na várzea. Por isso, naquele jogo do São Luiz em Santa Bárbara do Sul, ele não se preocupou tanto quando a confusão estourou. Estava na parte mais ARRISCADA do Estádio José Antonio Dumoncel, o pavilhão social, único lugar onde havia torcedores da equipe da casa, e teria ficado por ali quando as coisas se tornaram mais pesadas e as escaramuças viraram massacre. Teve a sorte de estar acompanhado por dois sobrinhos pequenos e, querendo preservá-los, tê-los levado para fora do estádio. Enquanto os deixava com um amigo que conseguiria sair ileso, escapava da luta. A parcela de guerra reservada a Bobeira não foi a que aconteceu nas arquibancadas.

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O jogo foi bem controlado pela Associação Santa Bárbara. O 1 a 0 no placar do intervalo era considerado justo, e mudanças radicais precisariam ocorrer no vestiário do São Luiz se os ijuienses quisessem outro resultado. No centro do campo, enquanto as equipes regressavam, o árbitro Carlos Martins conversava com alguns jogadores do time local. Soltava elogios e dizia-lhes que estavam jogando muito futebol. Situação que certos ijuienses teriam tentado evitar.

Grillo sustenta que “o São Luiz mandou alguns representantes para subornar os jogadores, inclusive eu”. Recuperando-se de lesão, ele sequer entraria em campo na partida do dia 9 de dezembro. “Mesmo que jogasse, eu não ia aceitar”. Segundo Grillo, o tal emissário de Ijuí prosseguiu em seu intento, visitando Volnei Machado, que também não aceitou. Jair Galvão é outro que denuncia a sondagem: “durante a semana, eu fui procurado várias vezes por dirigentes do São Luiz, para que eu fizesse um pênalti, para que eu cometesse uma irregularidade que pudesse beneficiar o time deles”.

Os comandantes são-luizenses, claro, negam até a morte que a potencial mala preta tenha havido. Se existiu ou se alguém aceitou, da integridade de Jair Galvão não se pôde duvidar. Em Santa Bárbara, comentou-se em tom acusatório sobre o encontro dele, um ijuiense, com diretores do São Luiz, quase sentenciando que havia aceito a propina. E se Galvão não se vendera, o silêncio dos que ousaram lhe criticar só veio ao custo de um gol. O golaço que marcou num belo chute da entrada da área visitante aos 13 minutos do primeiro tempo. “Se eu fizesse uma sacanagem desse tipo, como eu ia poder olhar pros outros jogadores, todos pais de família, necessitando buscar o resultado positivo? Então não concordei, e Deus me premiou com a façanha de ter marcado o gol”.

Injuriados com o anúncio – e a confirmação – de que os de Ijuí invadiriam Santa Bárbara, os poucos torcedores da casa presentes no estádio exultaram com o tento. E as provocações até ali inocentes, que não haviam causado mais que desentendimentos inócuos, cresceram em gravidade. O pavilhão viu as hostilidades aumentarem. O desacordo verbal fez braços e pernas se movimentarem, e o tumulto foi consequência. Revoada de pássaros a prenunciar com susto o temporal que vem a seguir, uma pedra cortou o ar do Estádio José Antonio Dumoncel para pousar bem na cabeça de um torcedor local. O atirador permanece desconhecido, mas a procedência era certa: as gerais onde estavam os são-luizenses.

Aquela pedrada não começou tudo. Mas elevou a agitação ao patamar de batalha. O repórter da Rádio Blau Nunes, Paulo Mello, que não estava em serviço, talvez tenha sido a vítima do episódio que prestou de estopim: “eu levei a pedrada no começo da briga e não vi mais nada. Fui acordar meia hora depois no hospital, com onze pontos na cabeça. Só fiquei sabendo mais tarde do que aconteceu, pelo noticiário”. O berro anunciando que fora “o pessoal de Ijuí” que arremessara o paralelepípedo ecoou pelo pavilhão. Era como a senha para os bárbaros invadirem Roma. Ou os barbarenses defenderem Santa Bárbara, com todas as repetições cabíveis na frase. Os ijuienses que estavam no setor passaram a ser caçados. Nos outros três cantos do estádio, seus conterrâneos viram o BULÍCIO e partiram para defendê-los.

Muitos ouviam conselhos desse insensato SENHOR que é o ÁLCOOL. Durante toda a viagem, vários dos ocupantes dos ônibus locados pelo São Luiz despejaram nos seus DUTOS internos litros e litros de SUMOS etílicos. Festejavam por antecipação. E faziam uma ALQUIMIA explosiva em suas VÍSCERAS. “Tinha uma van especial com BARRICAS e TONÉIS de cachaça para distribuir fora do estádio. Assim eles tiveram coragem de fazer o que fizeram”, acusa Grillo. Diante da confusão, os ijuienses ameaçaram cruzar o campo, derrubando o alambrado com os próprios punhos. Outros, mais prevenidos, teriam cortado a cerca com alicates para poder chegar ao lado oposto. Sem segurança, os últimos resquícios de que ali houvera um jogo de futebol sumiram. A partida foi interrompida para não mais voltar. Era a CONTENDA e fim.

“Quando aquela avalanche de pessoas começou a se aproximar, era gente saltando de muros de seis metros de altura. O pessoal de Santa Bárbara pulando, correndo todo mundo embora”, recorda Renato Moraes, àquela altura fora do estádio para resguardar os sobrinhos. Vindo de Cruz Alta, o policiamento de menos de trinta homens era uma agulha no oceano de quase cinco mil espectadores. Encolheram-se dentro de campo, pateticamente, sem agir. Ouvindo o jogo pelo rádio, o então prefeito barbarense, José Antonio Dumoncel, que já dava nome ao estádio, cruzou os menos de dois quilômetros que separavam sua casa do campo de guerra. Tinha uma mensagem ao povo da cidade. Subiu às cabines de imprensa e diz ter pedido para que a população se recolhesse.

Enquanto Dumoncel falava nos microfones, Renato Moraes peludeava para reencontrar os cunhados, que haviam ficado no pavilhão. Dezenas de minutos se passaram na confusão até que pudessem se ver e definir a saída do estádio. As diferentes frequências radiofônicas que partiam do epicentro do motim levavam conteúdos diferentes aos lares da região. Algumas clamavam para que as cidades próximas enviassem reforço policial imediatamente para Santa Bárbara do Sul. Outras simplesmente davam espaço para que o dia ganhasse mais aparência de juízo final. “Nesse meio tempo, alguém disse nas rádios: ‘povo de Santa Bárbara, venham defender os seus’.”, narra Renato. Colunas esportivas de Ijuí chegaram a dizer que a ordem teria partido do próprio prefeito. “E Santa Bárbara veio. Quando a gente saiu, o exterior do estádio estava lotado de pessoas. E nós viramos minoria. A polícia ficou cuidando das crianças, das senhoras, e o resto que se dane. Lá fora era um PANDEMÔNIO”, continua Bobeira.

Rochas seguiram despencando dos céus com a intermitência das chuvas do verão que se aprochegava. Para os milhares de barbarenses que atenderam ao chamamento que alguém fizera nas cadeias de rádio, quem fosse de fora seria, a partir dali, inimigo. Carros com placa de Ijuí não podiam sair inteiros. Dos tapumes erguidos ao redor das construções nas cercanias do estádio vieram pedaços de pau excelentes para distribuir pancadas. Sem a vantagem numérica que tiveram dentro do José Antonio Dumoncel, os torcedores visitantes se dispersaram. Desorientados, muitos foram para o lado oposto ao qual deveriam, enfurnando-se mais e mais nas artérias das vilas de Santa Bárbara. Naquele fim de tarde, quem nunca pensara em dar um soco foi obrigado a tomar lições práticas de pugilismo.

Os que tinham automóveis ignoraram a existência de sinalizações, mãos e contramãos. Cada um fazia o seu trajeto. Os registros do caos ganharam algumas batidas de carros e quase-atropelamentos. Pelas ruas e vizinhanças da cidade, bolinhos de pessoas se formavam, com nuvens poeirentas subindo e fazendo lembrar as cenas de briga dos cartuns. Ameaçados pelos últimos ijuienses ainda organizados, os jogadores da Associação Santa Bárbara viveram minutos de tensão com o vestiário a ponto de ser arrombado. O aparecimento da população local abriu caminho para que os atletas se dirigissem ao ginásio situado ao lado do campo, onde ficaram até algo parecido com paz surgir. Não se feriram, diferentemente dos torcedores do São Luiz, perdidos numa cidade desconhecida, e dos habitantes desta que se envolveram na batalha. As CASUALIDADES incluem braços quebrados, tímpanos perfurados, retinas descoladas e dentes arrancados. Alguns dos visitantes, relata Dumoncel, só deixaram a cidade dias depois – ficaram no hospital de Santa Bárbara em coma alcoólico.

Os mais afortunados levaram apenas cortes como medalha de guerra. Renato Moraes foi atingido por uma pedra e precisou de um único ponto na cabeça. Mas viu de perto a possibilidade de carnificina: “eu até hoje fico pensando como a gente conseguiu sair vivo de lá”. Ele e os dois cunhados iniciaram uma imparável carreira sem bússola ou qualquer coisa que norteasse. Rolaram um barranco, não souberam como fazer para sair lá de baixo, e avistavam somente uma fileira de dezenas de pessoas que não desistiam de vir na sua direção. A certa altura foram parar numa vila ferroviária, e adentraram num bar achando que ali estariam seguros. Os perseguidores entraram junto. Do escarcéu de cadeiras, mesas, garrafas e copos ALADOS resultou um estabelecimento devastado e três ijuienses exaustos.

Seguiram dando socos e levando, apesar do cansaço. Com parte da roupa rasgada e os calçados já extraviados em algum instante da correria, Renato e os dois cunhados cogitavam a hipótese de sucumbir no momento em que “surgiu uma mão santa”. Por acaso, um amigo que residia em Santa Bárbara do Sul percebera os rostos conhecidos no meio da cizânia. Com uma pistola em punho, bandeou-se para ajudar. Encarando os outros barbarenses, sacou a arma e descarregou, cravejando a terra de chumbo:

– Agora eu atirei no chão.

Observado por olhos ainda furiosos, porém mais amedrontados, puxou um pente com calma e recarregou.

– Agora, infelizmente, eu vou ter que atirar em vocês.

Aqueles que queriam bater mudaram rapidamente de ideia. O suor escorrendo, a pele avermelhada pelo sangue e pela poeira, a tarde findando. Não era que estivessem fartos daquilo. Mas agora havia pólvora. Como houve em outros cantos da cidade, em explosões paridas pelas mãos dos barbarenses ou dos de fora. Após breve deliberação, permitiram que Renato e os companheiros escapassem. Dentre os algozes, um soltou a frase célebre:

– Deixa os três irem, já apanharam bastante.

“Nós saímos de lá como se fosse a Guerra dos Farrapos”, diz Renato. E assim foi por tantos rincões. Conforme as horas trouxeram o lusco-fusco e a escuridão, os de Ijuí se desvencilharam de suas pelejas e foram se evadindo de Santa Bárbara do Sul. Os ônibus com os vidros quebrados, esmigalhados por pedras. Carros com as latarias amassadas por pedaços de pau, faróis e janelas destruídos – e alguns deles com os quatro pneus furados. Talvez ainda não estivessem convencidos de que tudo havia ocorrido mesmo. Quiçá fossem ilusões. Real ou não, ainda estavam vivos. Ou pareciam vivos. E não estavam dispostos a deixar aquilo barato. Saíram da cidade pela única rota possível e, sem combinação prévia, encontraram-se num posto de gasolina perto dali. Dezenas, centenas de automóveis e ônibus estacionados. E um debate intenso. Estavam em bom número e devidamente aglutinados:

– Estamos reunidos. Vamos voltar todos juntos, sabendo onde queremos chegar: vamos voltar para matar.

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Parte 1

Parte 3 - dia 15
Parte 4 - dia 19
Vídeos - dia 20

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara - Parte 1

Os dias em que uma torcida invadiu o terreno alheio, uma partida durou meio tempo, pistolas foram puxadas, o povo de uma cidade declarou guerra aos visitantes, um jogo foi remarcado duas vezes, retinas foram descoladas, ossos quebrados, carros e ônibus apedrejados, um estádio foi destruído, um time venceu sem marcar gols e a Segundona Gaúcha ganhou o mundo.

* * *

A Praça da República estava completamente tomada pela população local. Aquela cena do centro de Ijuí repleto de pessoas fora prevista como a maior festa esportiva da cidade nas últimas décadas. Ao final daquele domingo, 9 de dezembro de 1990, a aglomeração representava a raiva aflita. Não se esperava a delegação do Esporte Clube São Luiz que poderia retornar de Santa Bárbara do Sul com a vaga na primeira divisão gaúcha depois de 23 anos: aguardavam-se os milhares de torcedores que haviam acompanhado o time, sem saber quais e quantos voltariam, para saudá-los como heróis de guerra.

O octogonal decisivo da Segundona de 1990 chegava à última rodada com uma definição de infarto. Uma semana antes, no dia 2, as arquibancadas do Estádio 19 de Outubro haviam sido palco das primeiras combinações de caravanas rumo a Santa Bárbara. Com gols de Paulo Gaúcho e Betinho, o São Luiz bateu o lanterna Três Passos por 2 a 0. Pelo rádio, os torcedores acompanhavam os outros jogos do dia para compreender o que seria das suas vidas na rodada seguinte. Ao mesmo tempo, o Internacional de Santa Maria destroçava o Avenida de Santa Cruz do Sul com uma goleada de 4 a 0, e o fraco Oriental de Três de Maio segurava o temível Guarani de Venâncio Aires num empate por 1 a 1.

Mas as notícias mais importantes para os ijuienses percorriam o espaço em ondas vindas desde os microfones postados na fronteira com o Uruguai. Lutando para não morrer abraçados quando a noite despencasse sobre Livramento, o Grêmio Santanense e a Associação Santa Bárbara de Futebol fizeram a única coisa que não podiam: empataram. O resultado eliminou os dois. E fez com que o entorpecente da histeria se apoderasse do ar respirado às margens do Rio das Águas Divinas, o Ijuí. O acesso do São Luiz, a ser decidido contra o desmotivado Santa Bárbara, era iminente: os outros dois concorrentes ainda vivos, o Inter e o Guarani, fariam um confronto direto na rodada final.

Num tempo em que a vitória valia dois pontos, a classificação após treze das catorze rodadas terem sido disputadas apontava o Guarani na liderança, somando 17 pontos. São Luiz e Inter-SM dividiam o segundo posto com 16 unidades. Grêmio Santanense, Santa Bárbara (ambos com 14), Avenida (10), Oriental (9) e Três Passos (8) chegavam sem chances. Ao São Luiz bastava vencer a sua partida para subir sem preocupações. Qualquer outro resultado forçava os ouvidos a esquentarem, colados nos radinhos a pilha. Sem vitória, seria necessário que, no mínimo, a igualdade em pontos com o Inter permanecesse: como os dois tinham o mesmo número de vitórias, o desempate aconteceria em dois jogos diretos, marcados para Ijuí e Santa Maria. Uma derrota em Santa Bárbara, no entanto, abria a perigosa possibilidade de um empate de compadres no jogo de Venâncio Aires, que faria ascender tanto Inter quanto Guarani.

Os são-luizenses não viam motivos para acreditar na hipótese mais negativa. Os ventos que sopravam em Ijuí eram mais otimistas naquele 1990 em que a cidade festejava seu centenário de fundação. O calendário fora salpicado de efemérides comemorativas. A Expoijuí, tradicional feira local, tivera atrações especiais lembrando a história do município, e diversos eventos se estenderam pelo ano. No mais significativo, o Monumento ao Imigrante foi inaugurado. No esporte, equipes amadoras de futebol e bolão trouxeram para a cidade troféus inéditos de competições regionais. A apoteose deveria ser o acesso do São Luiz, que desde 1986 havia retomado o departamento de futebol profissional. Ademais, São Luiz e Santa Bárbara haviam se enfrentado cinco vezes na temporada – e os barbarenses não tinham vencido nem uma vez.

Por todas as esquinas de Ijuí se comentava que algo inédito seria visto na decisão do dia 9: o São Luiz atuaria fora do seu estádio, mas com a voz dos alambrados quase que inteiramente a seu favor. Das sete outras cidades com times no octogonal, Santa Bárbara era a mais próxima de Ijuí, a 72 quilômetros de distância. Típicos dessas horas boas, até os torcedores que não costumam comparecer correram para aproveitar o momento. As excursões que vinham sendo montadas desde a tarde em que o São Luiz batia o TAC, no domingo anterior à decisão, viraram coisa séria durante a semana. Não havia quem estivesse sem saber o que se passaria em Santa Bárbara.

“Ijuí inteiro se mobilizou. Um falava, outro falava, todo mundo falou, todo mundo comentou”, conta Renato Moraes, professor de matemática e ex-jogador da várzea ijuiense, que foi ver o jogo. O elenco do São Luiz passou aqueles dias prévios à partida concentrado no Jardim Europa, um hotel nos ARRABALDES da zona urbana, ao lado de um bosque, onde os atletas experimentavam uma falsa tranquilidade que mais parecia a calmaria que precede as tormentas. Dentro da cidade, fervilhavam convites e anúncios de mais e mais maneiras de se dirigir a Santa Bárbara do Sul. Os periódicos anunciavam uma “Guerra Santa” por aquelas bandas, e conclamavam a população a “invadir” o município vizinho.

Estimava-se em mais de duzentos o número de carros particulares que rodariam pela estrada. O clube fretou 24 ônibus que viajaram lotados – não houve cobrança de passagem, bastava se inscrever para ir. Quem não conseguisse um desses lugares gratuitos, via ser aberta uma outra opção: uma união de TÁXIS partiria da Praça da República para levar torcedores a preços populares. “Acompanhando o esporte, eu não me lembro de a torcida de algum outro clube ter se dirigido assim para ver um jogo. Era muita gente”, recorda Clodoaci Amaral de Oliveira, vulgo Grillo, jogador do Santa Bárbara em 1990 e hoje presidente do Conselho Municipal de Desportos (CMD) daquela cidade.

Negrini, meia do São Luiz que poderia ter subido com o Brasil de Farroupilha um ano antes, mas ficara de fora das finais após o time perder pontos nos tribunais e a vaga cair no colo do Guarany de Cruz Alta, sentia o ambiente e definia o jogo de Santa Bárbara como “o mais importante” da sua vida. Mas as provocações ijuienses atingiram a alma dos barbarenses como as pedras, mais tarde, acertariam suas cabeças. Não era admissível que aquela TURBA chegasse lá, se apropriasse do estádio e quisesse vencer com facilidades. O primeiro sinal de resistência viera na tentativa de aumentar o preço dos ingressos, dos habituais 300 para “abusivos” 1 mil cruzeiros.

Segundo cálculo do professor de Economia Internacional da Universidade Regional do Noroeste do Rio Grande do Sul (Unijuí), Argemiro Luís Brum, o tal milhar de cruzeiros equivaleria a R$ 1,62 em valores atualizados. Mas o aumento foi considerado ilegal na época. Sem conter a investida ijuiense sobre as arquibancadas do Estádio Municipal José Antonio Dumoncel pelos preços, o Santa Bárbara esperava fazê-lo dentro de campo. Queria vencer, e não apenas porque as malas brancas com incentivos financeiros vieram tanto de Santa Maria quanto de Venâncio Aires, as duas terras interessadas naquele jogo.

“O que motivou bastante o nosso time foi o jogo do primeiro turno, em Ijuí”, afirma Jair Galvão, ijuiense que em 90 estava do outro lado, defendendo as cores do Santa Bárbara. No primeiro turno, os barbarenses perderam no 19 de Outubro por 1 a 0, encerrando a sua invencibilidade na fase final e acabando com a série de 802 minutos do goleiro Osvaldo sem sofrer gols. “Depois do jogo, muitos jogadores do São Luiz falaram que buscariam a classificação dentro de Santa Bárbara, porque nós éramos uma equipe que não tinha história, não tinha estrela. Mas nós éramos uma equipe muito competitiva, e nós tínhamos muita vergonha na cara. Não íamos deixar que time nenhum do Rio Grande do Sul estragasse a campanha que nós vínhamos fazendo”, prossegue Galvão. O Santa Bárbara perdera apenas sete dos 35 jogos que disputara naquela Segundona até ali.

No dia dos grandes jogos, cerca de cinco mil pessoas eram esperadas em cada um dos estádios onde as definições se dariam. O Edmundo Feix, em Venâncio Aires, tinha a normalidade de uma maioria local ocupando seus degraus para acompanhar o Guarani versus Inter-SM com arbitragem de Renato Marsiglia. O José Antonio Dumoncel, em Santa Bárbara, vinha com o absurdo para fazer o contraste: eram vermelhos e brancos os que se espalhavam pelos seus quatro cantos. Eram ijuienses. Só o pavilhão social do estádio barbarense tinha alguns aficionados locais – e mesmo lá eram enxergados visitantes. A proporção era de cinco torcedores de Ijuí para um apoiador do time da casa.

O jogo de Santa Bárbara não demorou muito a começar. Carlos Martins, o juiz escolhido pela FGF para comandar a partida, fora indicado pela própria diretoria são-luizense. Para os cartolas, o trio que ele compunha com Justiminiano Goulart e Adão Alípio Soares era o melhor do Rio Grande do Sul. No ano, eles haviam mediado três partidas do São Luiz. Três vitórias. Martins mandou que o pontapé inaugural fosse dado pouco depois das três e meia da tarde. Como sói acontecer em rodadas importantes da Segundona, Guarani e Inter-SM trataram de retardar o começo da sua partida para saber de antemão a figura pintada em Santa Bárbara.

Quando Jair Galvão marcou o gol que dava a derrota parcial ao São Luiz logo no 13º minuto de jogo, fazendo 1 a 0 para a Associação Santa Bárbara, sequer meia dúzia de patadas tinham sido desferidas sobre o campo de Venâncio Aires. O quadro de Ijuí, muito sólido fora de casa nas fases anteriores – nas duas primeiras etapas do campeonato, havia perdido só duas vezes em onze partidas longe do 19 de Outubro –, já experimentara três derrotas em seis rodadas como visitante na fase final. Naquele 9 de dezembro, o São Luiz não começava bem mais uma vez. Quem estava lá concorda que houve aguerrimento dos dois lados, botinadas convictas em busca da vitória. Mas os são-luizenses estavam inferiores. “Nós fizemos 1 a 0 no primeiro tempo ainda. E o time deles não ia empatar conosco nunca”, analisa Paulo Moisés Mello, locutor da Rádio Blau Nunes de Santa Bárbara do Sul, que no dia da partida estava de folga e assistia ao embate como espectador comum.

Favorecidos ambos pelo empate, Guarani e Internacional não fizeram grande esforço para lograr um triunfo. Um gol foi anotado de cada lado, e o interesse em tirar o 1 a 1 do marcador inexistiu por longos minutos. O São Luiz derrotado, como estava sendo, era o sonho de uma festa dupla na jornada de Venâncio Aires – e pelo que se comentava da partida de Santa Bárbara o destino final dela não seria outro. Mas, de repente, o Inter-SM se pôs a atacar com desespero visível. Num trovejar silencioso, a incerteza abocanhou as mentes, almas e corações que estavam no Edmundo Feix. Tudo o que até ali parecia correto já não era mais seguido por ninguém. Empurrado contra seu campo, o Guarani passou a defender o empate, que o garantiria na elite de qualquer maneira. Nem todos compreenderam na mesma hora o porquê de tal mudança de atitude, tão abruptamente, se ninguém anunciara gol do São Luiz.

A causa realmente não era aquela. Um gol ijuiense poderia ser mais duro, mas pelo menos deixaria claras as necessidades de cada time. O desconhecido, a falta de uma mínima ideia do que pode acontecer, é isso que enlouquece. Enquanto pediam para que seus jogadores corressem mais, os ocupantes de cada casamata seguravam o queixo preocupados. Já sabiam de um tumulto na outra partida, mas agora repassavam a nova informação que as rádios divulgavam:

– O jogo de Santa Bárbara do Sul não vai acabar.

* * *

A reportagem sobre a Batalha de Santa Bárbara é uma promessa antiga do blog. Ei-la, depois de alguns meses de entrevistas com os personagens, pesquisas em jornais da época, consulta a vídeos arquivados e viagens para conhecer o cenário da guerra. O texto está dividido em quatro partes (as próximas serão publicadas nos dias 11, 15 e 19). Uma quinta postagem, no dia 20, trará algumas filmagens raríssimas feitas pela TV naquele jogo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Na galáxia de Júlio de Castilhos

Júlio de Castilhos não é mais a mesma. Não que tenha perdido os ingredientes essenciais de uma cidade interiorana. Não houve um crescimento desordenado e tampouco uma brusca ascensão financeira ocorreu na cidade. Oquei, a Borracharia do Gordinho, situada logo na entrada do burgo, expandiu recentemente as suas dimensões. As mudanças, porém, têm lugar na esfera esportiva. O responsável por tal movimentação ANÁRQUICA é o Esporte Clube Milan, que hasteou a sua bandeira no ponto mais alto da COXILHA DO DURASNAL, a mais famosa elevação castilhense.

Na Segundona, o Milan recebeu a devida atenção – mas faltou futebol para que a equipe seguisse sendo pauta, já que a coleção de tarjetas rojas não era exatamente um critério de classificação para as fases posteriores do certame. Eliminado e ostentando a lanterna do seu grupo, o Milan pensou que teria um ano cinzento até o mais remoto e cálido dos dias de dezembro. Os melancólicos devaneios do rubro-negro castilhense esbarraram na Copa Arthur Dallegrave, a Sul-Americana dos pampas – apesar de desmoralizada frente à Segundona, serve para ressuscitar certos cadáveres do primeiro semestre. E o Milan é o mais ATIVO dos tais defuntos.

Disposta a não envergonhar a reputação da cidade junto ao estado pela segunda vez na mesma temporada, a ELITE AGRÁRIA de Júlio embicou o balde e bradou: “queremos um timaço.” Para tal, trataram de remontar a equipe que apanhou na Segunda Divisão. Sobraram daquele grupo o goleiro Catarino (que hoje enfrenta a dura realidade do banco de suplentes) e o selecionável Amauri, que ainda é titular. Mas o que usurpou a tranqüilidade da população foi o nível dos reforços pretendidos pelo Milan. O início de tudo foi com Bonaldi, como o blog adiantou: empolgado com as causas daquela REVOLUÇÃO, o grande capitão do Riograndense aceitou a proposta e serviu como uma ISCA para outras contratações de peso.

De Santa Maria também chegaram o zagueiro Diego e o volante Bi, os escolhidos para auxiliarem Bonaldi na COLONIZAÇÃO da linha defensiva dos milanistas. Se a segurança já parecida garantida, os diretores do Milan trataram de não arriscar. Se o Real Madrid acumula atacantes no seu escrete, o Milan junta zagueiros de verdade. Para formar um tridente altamente AFIADO, o clube anunciou a chegada de Darzone que, segundo um torcedor que comia um pastel no pavilhão (fonte mais confiável do universo), iniciou a sua trepidante carreira no próprio Miguel Wairich Filho, a cancha do Milan.

Juntaram-se aos defensores os alas Restinga e Régis, o arqueiro Alisson, o volante Amaral e o folclórico meio-campista Cristiano. O sonho mais alto é o atacante Tiago Duarte, que também é disputado por equipes menos expressivas do futebol do Sul, casos de Joinville e Cerâmica, de Gravataí. Na casamata, o treinador de sempre: Valduíno Alves, um frasista que controla as linhas de seu time com extraordinária plenitude. O sol da recém composta galáxia de Júlio de Castilhos brilhou com força no último domingo, quando Milan e Ypiranga, de Erechim - terra de belas polacas -, duelaram sob os resquícios de sombra das araucárias.

Um adversário respeitável, o Ypiranga. Lá estavam, de camisetas, calções, meiões e corações amarelos, atletas mundialmente reconhecidos, como Itaqui, o eterno, ex-Grêmio e RIO PARDO. Além de Itaqui, dois jogadores merecem citação por integrarem a seleção do Futebesteirol: Pitol e Marcelo Müller. Como se vê, o duelo pela Copa Arthur Dallegrave parecia um COMBINADO entre os destaques da última Segundona. No comando dos de Erechim, que até então haviam empatado os dois confrontos anteriores, estava Amauri Knevitz, o responsável pelo recuerdo de que o Paranavaí existe ou um dia existiu.

Se em Santa Maria por vezes adentrar o campo de jogo para fotografar é uma chateação bastante trabalhosa, em Júlio de Castilhos há, de fato, LIBERDADE DE IMPRENSA. Não há qualquer obstáculo entre o portão escolhido e o gramado – basta escalar as escadarias e admirar o belo cenário proporcionado pelas canchas puramente interioranas. Ao fundo, árvores e a copa. No centro do campo, repórteres de duas rádios de Erechim e da única de Júlio, além de outro fotógrafo. “FLAGRE os dois capitães ao lado do árbitro. Não tem retrato melhor”, recomendou-me em um depoimento que carecia de SENTIDO.

Como também carecia de sentido a estratégia de jogo proposta pelo Ypiranga de Erechim. Aparentemente encantados com a dureza do futebol do Milan, composto de balões, balões e bicudos, os norteños esqueceram de jogar futebol. O Ypiranga, um onze mais técnico e bem organizado em campo, também queria brincar de embicar a pelota para o outro campo – e acabou apenas consagrando Bonaldi na estréia do zagueiro. Quando o primeiro tempo findava em uma mediocridade assustadora, Régis cobrou rápido um arremesso lateral para Jarbas, o centroavante com nome de CHOFER. Com a MALÍCIA necessária, Jarbas encobriu Pitol com um só toque e declarou 1-0 para quem veste vermelho e preto.

Depois de quinze pacatos minutos na sombra, mirando o LUAR castilhense, notei certo desespero nas primeiras ações da etapa complementar. Por volta dos dez minutos (período que vai dos três minutos aos dezoito), Sharlei, o centrodelantero visitante, abandonou a cancha: “não pedi para sair, mas não adianta jogar a bola na área com um alemão de dois metros por lá”. Fosse uma semana antes e a frase cairia bem na reportagem de Bonaldi. Vivíamos instantes nervosos. O Ypiranga não assustava com a crueza de quem sabe que achará o gol, mas o Milan perdia espaço. Não tinha mais pernas. A retranca, então, foi consolidada. E os ARGUMENTOS extra-campo acionados.

Valduíno fez a sua parte e mandou QUEIXINHO para o gramado, com recomendações claras: “agora tu vai correr!”. Desgastados com a insistência dos atacantes amarelos, os beques alteraram o estilo de jogo. Deixaram de apenas espantar a bola da área para mandar o esférico longe dos limites do estádio. As pelotas pouco a pouco rareavam, para irritação generalizada do banco do Ypiranga. Até que um gandula encostou no seu superior: “a bola caiu no pátio da casa verde. Pego?” Ouviu o seguinte DISPARATE: “pega, mas devagarzito. E cuidado com o cachorro”.

A agonia do Milan arrefeceu quando Romano brochou com as expectativas de empate e foi expulso. Aliviado, o Milan voltou a pensar um pouco em futebol. Já nos acréscimos, na primeira jogada ofensiva do segundo tempo, Régis foi derrubado na área. Cristiano, o cabeludo, o folclórico, o que teve a sua habilidade ligeiramente ofuscada pela rispidez do encontro, encarou as provocações de Pitol. Como fez diante do Porto Alegre, o goleiro tentou devastar a tranqüilidade do batedor. Cristiano resolveu DEBOCHAR.

Depois de ouvir que “se bater mal eu pego, cabeludo”, ele derrubou Pitol com uma paradinha. Com o arqueiro caído, pôde até bater mal. Comemorou como se o seu Milan fosse o italiano e aquele palco, o San Siro. Ilusões de um camisa 10, mas o Miguel Wairich Filho era, de fato, um outro estádio. E este é um outro Milan, agora sem a AURA da derrota.

P.S.: Na chuvosa tarde de hoje, o Milan surrou o nômade Rio Pardo por 4-0 alcançou a segunda vitória na Copa Arthur Dallegrave. Gols de BONALDI, Diego, Cristiano e Jarbas.

domingo, 30 de agosto de 2009

FC Rio Pardo, duzentos e setenta e seis dias depois

Um clube fundado há menos de um ano está fazendo ESVOAÇAR as certezas sobre o seu futuro, o seu curto passado, e até mesmo o seu TERRITÓRIO. O Futebol Clube Rio Pardo, nascido de um parto NATURAL ainda que INCOMUM no dia 27 de novembro de 2008, entrou na Segundona com um projeto amplo, almejando a subida de divisão logo na temporada de estreia e buscando uma identificação com a cidade que o sediava. Agora, abre o segundo semestre mandando seus jogos na improvável cidade de Três Coroas, a mais de duzentos quilômetros de Rio Pardo.

A história não recebeu muito destaque nas páginas esportivas dos PERIÓDICOS mais lidos destes CONFINS entre as planuras e as serras do sul do mundo, mas aqui no Futebesteirol o andar do Rio Pardo foi observado de maneira mais aproximada. Tabajara Ramalho de Andrade, um dos fundadores e presidente da agremiação, concedeu entrevista em maio explicando o que se tinha em mente ao fazer a equipe. Falava de um projeto da administração municipal para iniciar o futebol profissional por lá e um convite para liderar o novo clube.

As dificuldades típicas de um quadro do interior, no entanto, foram enterrando os sonhos do auriverde da terra da Tranqueira Invicta durante a Segundona. Com a falta de dinheiro, os jogadores descontentes ameaçaram o comando do clube com greves. Segundo fonte de dentro do próprio elenco, os atletas disseram se recusar a entrar em campo caso Tabajara não fosse afastado. Ainda exigiam o retorno imediato do treinador Marcão, que saíra do Rio Pardo sob acusação oficial de estar apresentando, fora de campo, conduta antiprofissional.

Quando o Rio Pardo foi a Santa Maria enfrentar o Riograndense pela Segundona, a situação dos verde-amarelos era esta: um Tabajara longe do clube – de acordo com alguns rio-pardenses, por pressão da própria Prefeitura da cidade – e um Marcão de volta. A interrupção do trabalho do treinador custara caro e a equipe não conseguiu recuperar a campanha pífia no período em que a casamata teve ocupantes incertos. Foi eliminada na segunda fase do certame, mas seguia com o planejamento anunciado desde o princípio por Tabajara: disputar a Copa Arthur Dallegrave no segundo semestre, dando cancha aos talentos mais jovens.

Como o tempo de seu mandato segue, Tabajara nunca esteve realmente desligado do Rio Pardo. Embora o afastamento tenha de fato ocorrido, por razões que variam de acordo com quem conta, e a presidência hoje seja ocupada provisoriamente pelo vice José Faustino dos Santos, ele segue ativo a encabeçar o auriverde. Ontem, durante o Radar Esportivo, pela Rádio Universidade de Santa Maria, eu e a Laura Gheller entrevistamos Tabajara Ramalho de Andrade. Muito diferente do que havia dito na conversa de maio, ele revelou que o clube, na realidade, é uma empresa mantida pelas suas mãos e as de mais três investidores. Aos torcedores que interpretaram como “traição” a saída do Rio Pardo da cidade que o fez nascer, Tabajara explicou as razões para a mudança para Três Coroas, e falou em retornar ao estádio Amaro Cassep para a Segundona do ano que vem. Por fim, o presidente/afastado/dono/fundador do Rio Pardo também deu a sua versão sobre os fatos que cercaram a CONTURBADA temporada do clube. A seguir, a entrevista.

* * *

Como foi a volta ao FC Rio Pardo depois do teu breve afastamento? Como foi o clima na recepção?

Nós nunca nos afastamos. Eu estou de licença como presidente. Mas o Futebol Clube Rio Pardo foi fundado como clube-empresa, então ele pertence aos proprietários. Sou um dos donos, e mais três investidores que estão junto comigo. Nós nunca nos afastamos. Sempre estivemos na linha de frente. E agora levamos para Três Coroas para jogar a Copa RS por questão de patrocínios, porque você sabe que a dificuldade do futebol é conseguir patrocinadores. Porque os nossos patrocinadores são todos de fora, a maioria é de Porto Alegre.

- Aqui em Santa Maria, quando o Rio Pardo veio jogar contra o Riograndense, e acabou levando 5 a 0, várias pessoas falaram desse momento que o senhor estava meio afastado da direção do clube. Os jogadores fizeram greve, e teria sido esse o motivo do seu afastamento. Como foi esse episódio?

Eu não levo pra esse lado. Vou dizer uma coisa recente pra vocês... O Pelotas, o único jogador que tá em Pelotas é o Sandro Sotilli. E o Pelotas tá na primeira divisão. Então, no futebol, atrasar salários (é comum) – eu duvido que o Riograndense está em dia com os salários aí; (se estivesse) seria uma exceção. Mas nós sempre honramos – eu trabalhei no Santa Cruz durante dez anos, fui cinco anos presidente; nós sempre ficamos com uma pendência, mas sempre depois pagamos e honramos. Lá no Futebol Clube Rio Pardo foi o seguinte: eu tive um problema de doença, e eu não vou levar para a grande mídia isso aí; eu tive um problema de doença na família, da minha mãe, que tem oitenta e seis anos, e eu não vou deixar de atender a minha mãe. Então eu pedi a esses investidores, comigo junto, que nós nos afastássemos. E agora o meu vice-presidente tá na ativa, o Faustino (José Faustino do Santos, vice do FC Rio Pardo), tá como presidente, porque nós estamos com um outro projeto muito grande dentro do futebol, e fizemos reunião toda a semana em Porto Alegre. E vamos jogar no campo do Mundo Novo como locamos com o doutor Joni Lisboa, que é o prefeito municipal (de Rio Pardo), que é uma pessoa que temos um carinho muito grande, uma pessoa boníssima, finíssima e muito educada, e nos tratou super bem. Lá o doutor Joni nos cedeu o campo pro Rio Pardo para nós jogarmos. E eu prometi a eles que o Futebol Clube Rio Pardo vai jogar a Série B do ano que vem em Rio Pardo, com esse patrocinador forte que nós estamos trazendo.

- O que aconteceu na metade da Segundona. Como o dinheiro passou a rarear no clube? Que dificuldades aconteceram?

Nós tivemos um patrocinador que teve um problema financeiro para nos repassar (o dinheiro), mas isso já está sendo solucionado, nós já estamos acertando. Todos os jogadores acertaram conosco numa boa e nós fomos repassando pra eles agora, e pagando, e vamos rever. Claro que tivemos problemas com alguns jogadores ali, você sabe que futebol é isso aí, tem as suas restrições. Mas do grupo, noventa por cento é excelente. Nós tivemos dez por cento que foram trazidos pelo primeiro técnico, o Laoni (Luz), que nós não conhecíamos eles.

- Durante esse período os jogadores fizeram greve, deu esse problema, e o treinador Marcão, que havia sido afastado, acabou retornando para o comando da equipe. Por que ele voltou?

Porque o pessoal do Rio Pardo queria que ele voltasse. Agora vou dizer uma coisa pra ti, e eu digo isso aí publicamente: se eu tiver que contratar um treinador, eu jamais vou contratar o Marcão. O Marcão é um excelente profissional dentro do campo, mas fora do campo, extracampo, o que ele aprontou dentro de Rio Pardo, que é uma cidade pequeninha, de vinte e poucos mil habitantes, não chega a trinta mil habitantes, é impressionante. Então nós não compactuamos com certas coisas que ele fez. Mas os jogadores nunca fizeram greve... isso foi mais um “bafo”. Eles sempre jogaram, jogamos todos os jogos. Eu acho que o “bafo” é normal fazer.

- Mas em relação ao Marcão. Uma versão que nós acompanhamos foi que ele teria saído por conta própria por não ter recebido o pagamento de uma premiação. O senhor nega isso?

Ele foi demitido por mim. Demitido. O Marcão recebeu todo o salário dele, não deixamos de pagar nada pra ele. Para ver que ele é muito bom treinador e está desempregado até agora. Duvido que ele pegue algum clube.

- E do elenco que disputou a Segundona, quantos jogadores ainda estão aí?

Como eu disse, desde junho que eu estou afastado, mas o clube é nosso – eu e mais três empresários. Estamos só com gurizada. Fizemos assim para jogar a (Copa) RS. Com esse patrocinador, que é um patrocinador forte, que ele pediu para não divulgar ainda em respeito aos nossos atuais patrocinadores deste ano, para voltarmos no ano que vem muito fortes. Mas nós não utilizamos nenhum jogador que atuou conosco na Série B. Então é uma folha baixa, para manter o Rio Pardo na mídia. Hoje (ontem) à tarde, às três horas, estamos jogando com o Cruzeiro de Porto Alegre. Estreamos no domingo passado contra o Grêmio, lá em Três Coroas. Foi muito boa a recepção da torcida. Perdemos infelizmente por um a zero, teve expulsão de um jogador nosso, e agora de tarde nós jogamos com o Cruzeiro de Porto Alegre (fora de casa [casa?], o Rio Pardo foi derrotado pelo Cruzeiro por 3 a 0).

- No início do ano eu conversei com o senhor e foi citado um projeto de parceria com o Botafogo do Rio. Que fim deu esse projeto?

Estamos com dois guris no Botafogo do Rio já. (O projeto) Está andando. Não dá pra nós mandarmos muitos jogadores. Se destacaram dois jogadores e nós mandamos pra lá. E dois jogadores agora nós estamos mandando para a China. Estão embarcando na próxima semana para a China, e vão ficar em contrato de um ano.

- O Rio Pardo é um clube-empresa, como tu disseste, mas ele chegou a ter o apoio da torcida na Segundona. Depois da transferência dos jogos do FC Rio Pardo para Três Coroas, como foi a reação dos torcedores da cidade de Rio Pardo?

O Futebol Clube Rio Pardo, e isso nós botamos bem claro para o prefeito, nós quando fundamos o clube até íamos jogar em outra cidade, porque tínhamos um projeto nosso. Mas fomos lá porque temos um carinho muito grande e um respeito muito grande para o prefeito municipal, o doutor Joni, que gosta de futebol. Eu sei que o torcedor pode não gostar (da mudança), mas você sabe que futebol vive de dinheiro. E como esse patrocinador nos abriu essa janela para o ano que vem, e pediu para nós jogarmos lá, porque lá em Três Coroas não tem futebol, só tem o amador, nós fomos pra lá. Mas no ano que vem estamos de volta a Rio Pardo, vamos jogar em Rio Pardo, porque o contrato com a Prefeitura, com o campo municipal da Prefeitura para o Futebol Clube Rio Pardo é de cinco anos a cedência.

- Em termos de apoio financeiro, qual o peso da Prefeitura de Rio Pardo atualmente no clube?

O Tribunal de Contas proíbe qualquer ajuda para clube profissional. O doutor Joni nos cedeu o campo por cinco anos, e sempre cumpriu com tudo o que nós acordamos com ele. Então a cedência do campo, arrumar o campo, foi isso aí que a Prefeitura nos deu.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

As entranhas de um capitão

Entrevista: Iuri Müller e Maurício Brum
Texto e fotos: Iuri Müller

Vinte e cinco foram os jogos da Segundona acompanhados pelo blog que renderam uma matéria. Muitas foram as fotos e os causos elucidados em cada cancha do interior. Ao fim das jornadas, alinhamos uma seleção. Mas não era o fim da cobertura da Segundona Gaúcha. Faltava a palavra do maior zagueiro do campeonato. Não falta mais. Em um Estádio dos Eucaliptos melancolicamente entristecido com a eliminação do Riograndense, BONALDI se abriu para os microfones do Futebesteirol.

A entrevista estava marcada para uma ingrata sexta-feira matinal. Mas Bonaldi não se mostrou sonolento. Deixou a CAVERNA, como é chamado o aposento destinado aos jogadores que vivem no estádio, e se mostrou pronto para destrinchar o seu passado e a imensa contribuição que teve na honrosa campanha do Periquito na temporada. Rumamos para o alto do pavilhão dos Eucaliptos. Certamente o canto mais agradável da cancha. De lá, Bonaldi avistava o ralo gramado em que pisou semanalmente pela embarrada Segundona.

Não estávamos frente a frente com um entrevistado qualquer. Bonaldi não era um zagueiro qualquer. Isso ele explicitou a cada cabeçada em que salvava o rubro-esmeralda de uma investida inimiga. Bonaldi, com a jaqueta branca do ferroviário santa-mariense, parecia ter olhos apenas para o futebol da sua equipe. De pé no concreto do pavilhão, mostrou a mesma decisão. Falava sempre com firmeza. Se por vezes faltavam sorrisos, frases definitivas jorravam tranquilamente da face do defensor.

Rodrigo Corrêa Bonaldi, que completa trinta e um anos em setembro, mora no alojamento do clube porque “é sozinho”. A mãe ficou em Cruz Alta, cidade natal do jogador. O zagueiro solitário, de parcos fios de cabelo e marcas no rosto que evidenciam batalhas em Bagé ou Livramento, teve um início de carreira “esquisito”, como descreveu. Na sua estréia como profissional, na já distante temporada de 1998, atuava como CENTROAVANTE do Guarany, de Cruz Alta. Zagueiro nas categorias de base, Bonaldi não se contentou em ser útil apenas na bola aérea. Convenceu-se de que faltava mobilidade e destreza para iludir a marcação dos beques cruz-altenses.

Um ano depois, retornou ao encardido universo dos defensores. Quando esclareceu que “lá na frente não dava mesmo”, Bonaldi esboçou o seu segundo e último sorriso da manhã. O primeiro foi um riso discreto e desconfiado que largou quando recebeu as fotos do Futebesteirol, em que aparecia erguendo o braço para os alambrados ou derrubando algum atacante mais faceiro. Recuperada a sisudez habitual, Bonaldi recordou a primeira conquista: em 2000, ascendeu da terceira para a segunda divisão estadual com o seu Guarany.

O acesso rendeu a primeira experiência de Série A. Contratado pelo São Paulo de Rio Grande, Bonaldi disputou a primeira divisão do futebol gaúcho em 2001 e 2002, ano em que o São Paulo caiu. O seu destino, então, foi a longínqua Alagoas. No primeiro semestre de 2003, foi atleta do CSA. A EDUCAÇÃO futebolística prestada aos alegres defensores alagoanos chamou a atenção do Náutico, de Pernambuco. Pelo Timbu, Bonaldi esteve em campo na lendária Batalha dos Aflitos. Oquei, é claro que não. Com Bonaldi em campo, o Náutico nunca entregaria uma partida daquelas.

Findo o breve ciclo pelo Nordeste e depois de atuar no interior paulista, Bonaldi finalmente desembarcou em Santa Maria. Mas não no Riograndense. Em 2005, com o mesmo ímpeto com que agora balança os cordões nos Eucaliptos, vestiu o vermelho do rival Inter-SM. Na Baixada Melancólica, Bonaldi não pôde contrariar a atordoante sina do coloradinho. Como de costume naqueles anos, o Inter morreu na praia e viu São Luiz e Gaúcho lograrem os bilhetes para a Série A. Assim mesmo, se destacou pelas cobranças de falta de muito longe que sempre flertavam com o gol.

Dois anos mais tarde, o Riograndense surgiu na carreira do beque. Em 2007, assim como em 2006, 2005 e 2004, o Periquito era dono de um elenco tristemente limitado. Inverno após inverno, o time apanhava até do Cachoeira. Mas desta vez ao menos havia Bonaldi. O zagueiro proporcionou uma das raras alegrias daquela Segundona. No Rio-Nal disputado nos Eucaliptos, o Riograndense saiu perdendo, para variar. A revolta do capitão, porém, possibilitou o empate: no segundo tempo, Bonaldi peitou a arbitragem, desafiou os rivais e anotou o gol da igualdade. Na comemoração, escalou os alambrados.
Naquele ano, o Inter-SM subiria. Já o Riograndense de Bonaldi não alcançou a segunda fase. Restava a famigerada repescagem, destino comum de todos os eliminados. O adversário seria o sempre temido Lajeadense, que ainda não contava com os festejos de Lucas Precheski. Na ida, o Riograndense bateu o time azul por 3-1, na primeira atuação convincente da temporada – mas no último escanteio da tarde, o goleiro Mainardi frangou miseravelmente e possibilitou o “1” do Lajeadense. Um novo 3-1 em Lajeado forçou a disputa por penais: o Periquito perdeu por 5-4. Mas Bonaldi viu FUTURO naquele esquadrão ainda enfraquecido.

O sentimento de Bonaldi pelo time nasceu nos primeiros insucessos: “a partir dali, aprendi a amar o Riograndense”, conta o zagueiro. Incrível como os sentimentos soam bem mais sinceros em um cenário REAL como o interior gaúcho. Perguntado sobre como um jogador se mantém no pampa, Bonaldi disse que no interior o atleta “se DEFENDE”. Os contratos curtos, válidos quase sempre durante apenas um campeonato, forçam o jogador a trocar de camisa por semestre - ficar parado significa a ruína financeira. Para a próxima temporada, Bonaldi pode voltar à elite do Gauchão – o que significa mais tranqüilidade no bolso. Tudo porque 2009 foi um ano de luzes para o camisa seis do Riograndense.

“Desde o início pensávamos em brigar”. Bonaldi não concorda que a presença do clube de Santa Maria entre os quatro melhores da competição tenha sido surpreendente para quem viveu a campanha. Trata-se de um clube com jogadores rodados e conhecidos, que melhorou a estrutura e que já havia alcançado uma boa colocação no ano anterior. Lembrou, também, que apesar da expectativa do acesso ter minguado no quadrangular final, o time fez uma trajetória valorosa, “a melhor dos últimos trinta anos”.

Jornada após jornada, Bonaldi se consolidou como o maior nome da equipe. Era a referência do time que mostrou solidez para garantir a classificação na primeira fase. Posteriormente, foi o símbolo de um Riograndense que vencia fora de casa como um matreiro fronteiriço. Faltou erguer a taça e dar a volta olímpica. Entre as razões para o desmoronamento técnico da equipe nas últimas rodadas, Bonaldi apontou carências no elenco – “nas laterais e no meio-campo”, principalmente – e nas condições de trabalho, incomparáveis com as de Pelotas e Porto Alegre, favoritos às duas vagas desde o SORTEIO dos grupos.

Se jogar a primeira divisão com a camiseta do Riograndense se tornou tarefa impossível para 2010, não faltaram interessados em contar com a solidez de Bonaldi na Série A. E o jogador agradece pela visibilidade atingida justamente ao clube de Santa Maria. Conta que representantes de Avenida e Veranópolis fizeram contatos a partir dos jogos televisionados pela TV COM, o que só foi possível porque o Riograndense foi longe no campeonato. Só que as propostas “ainda não são oficiais”, e Bonaldi pode vir a ter uma nova equipe ainda neste ano.

O Milan, de Júlio de Castilhos, que constrói um elenco bem mais decente do que o apresentado na Segundona, quer ter em Bonaldi o capitão para a Copa Arthur Dallegrave, que até já iniciou. O rubro-negro castilhense também deve levar outros jogadores do Riograndense, como o atacante Alfinete e o também zagueiro Diego. Bonaldi via a transferência como incerta: a sequência de jogos até então fora intensa (ele disputou 32 dos 36 confrontos do time) e o interesse (frustrado) do Riograndense em disputar a Copa também dificultou o negócio.

Para o torcedor do Periquito, há uma boa notícia. Bonaldi se mostrou disposto a firmar vínculo com o clube para voltar no ano que vem – depois de uma possível passagem pela primeira divisão. As tratativas dependeriam do interesse da diretoria. Certo é que logo veremos novamente Bonaldi por estes campos: no Antônio David Farina, nos Eucaliptos de Santa Maria e de Santa Cruz ou, quem sabe, no Estádio Olímpico Monumental. Bonaldi sabe que é “um sonho distante” defender o seu querido tricolor de Porto Alegre – objetivo que estará um pouquinho mais perto se o zagueiro repetir as grandes atuações na divisão principal do Gauchão. Se não der, “quero ao menos jogar contra”, diz Bonaldi. É um raciocínio interessante.

Finalizados os questionamentos, Bonaldi se despediu e, ao caminhar pelas arquibancadas ensolaradas, atendeu o celular. Talvez fosse um dirigente randômico do outro lado da linha, negociando uma transação para Erechim, Passo Fundo ou para a Indonésia. Bonaldi sabe que “o futebol é uma MÁFIA”, e que pode ser prejudicado por não contar com um empresário, mas agora diz resolver tudo por conta própria. “Se alguém quiser conversar, dou o meu número e pronto”. A verdade é que Bonaldi se garante.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Prêmio Urutau d'Oro 2009 - Seleção da Segundona

Iuri diz:
*não terá um texto introdutório?
Maurício Brum diz:
*até pode ter.
*dizendo o quê?
Iuri diz:
*que não é uma seleção qualquer.
*é o que há de mais valoroso no estado e pá
Maurício Brum diz:
*tá
*comecemos explicando o que é um URUTAU.
Iuri diz:
*um bicho de sete cabeças.
*aliás
*necessário, o tal textinho?
Maurício Brum diz:
*o introdutório?
Iuri diz:
*sim
Maurício Brum diz:
*foi tu que sugeriu, hahaha
Iuri diz:
*eu sei.
*mas PENSANDO BEM.
Maurício Brum diz:
*veja
*"O urutau é um pássaro de canto melancólico. Algumas lendas dão à ave a alcunha de FANTASMA, e afirmam que um urutau só canta para anunciar a morte de alguém. Pelos campos, no entanto, os PEÕES respeitam o bicho. Ele representa força, defendendo-se com GALHARDIA dos predadores que cruzam seu caminho.
*Os jogadores da Segundona, guerreiros dos empobrecidos clubes do interior, são urutaus a resistir contra o MERCANTILISMO do futebol. Esta não é uma seleção qualquer. O Prêmio Urutau d'Oro é o GLORIFICAR dos mais valorosos atletas da Segundona Gaúcha em 2009."
*fim
*COMPLEMENTE.
Iuri diz:
*Os jogadores da Segundona, guerreiros dos empobrecidos clubes do interior, são urutaus a resistir contra o MERCANTILISMO do futebol.
*HAHAHAHAHAHAHA
*eles são urutaus!?!?!?!!??!!
Maurício Brum diz:
*hahahaha
*SÃO.
Iuri diz:
*QUEM SOU EU PARA DISCORDAR.
Maurício Brum diz:
*são COMO urutaus, que seja
Iuri diz:
*acho que vamos meter isso sem textinho.
*afinal, ninguém faz introduções na segundona.
*é pau e pau (ns)
*no máximo, cole esse diálogo como introdução
Maurício Brum diz:
*podia.

* * *

Eis, então, a Seleção da Segundona Gaúcha em 2009, com elaboração, textos e fotos de Iuri Müller e Maurício Brum. O Prêmio Urutau d'Oro é SIMBÓLICO. Mas estamos aceitando DOAÇÕES para mandar CONFECCIONAR troféus e entregar aos craques. A equipe tem diversos IMPROVISOS, culpa da tradicional falta de dinheiro dos clubes da Segundona.

SELEÇÃO TITULAR

PITOL (Goleiro, Glória)
Marcelo Pitol - 16 jogos, 9 gols sofridos

Melhor aproveitamento. Melhor ataque. Melhor defesa. Se houve um time nesta Segundona que provocasse ÓDIO extremado pelo seu DESPOTISMO, foi o Glória de Vacaria, que possuiu todas essas condições desde a primeira fase da Segundona até finalmente sofrer um GOLPE DE ESTADO. A impenetrabilidade das suas linhas defensivas não encontrou equivalente em nenhum PEDAÇO do Rio Grande. Com Pitol, que estreou na penúltima rodada da primeira fase, a retaguarda até ali sustentada pelo goleiro Dudu ficou ainda mais forte. Pela média e pelos números absolutos, as redes que tiveram a HONRA de serem GUARNECIDAS por Marcelo Pitol sabiam que corriam menos risco de levar BOLADAS do que com qualquer outro arqueiro do Estado.

MATEUS (Lateral-direito, Pelotas)
Mateus Medina de Moura - 28 jogos, nenhum gol

O dono da banda direita do valoroso selecionado não passa de um GURI. Mas não falamos um piá qualquer. Mateus vestiu a jaqueta número dois do Pelotas para não tirar NUNCA MAIS. A força de seus ARRANQUES e o temperamento intempestivo bastaram para que a exigente massa áureo-cerúleo se transformasse em um BANDO de enamorados. Um causo exemplifica decentemente a citada identificação: após uma partida em que o universo conspirou explicitamente contra (Pelotas 1-2 Riograndense, na Boca do Lobo), uma raivosa parcela de torcedores esperava a saída da delegação pelotense para ter o gosto de ofender tudo e todos. Apenas Mateus escapou. Foi aplaudido por ser “o único com vergonha na cara” e pôde caminhar pela ruas da sua úmida Pelotas com a tranquilidade de um SELECIONÁVEL.

CIRILO (Zagueiro, Pelotas)
Jeferson Cirilo da Martha - 26 jogos, 2 gols feitos

Há uma ESPÉCIE de jogador que VEIO AO MUNDO para triunfar na Segundona. Um dos representantes é o beque Cirilo. Com suas orelhas SALIENTES, o zagueiro foi o pavilhão mais sólido da defesa vice-campeã do torneio. As jogadas aéreas inimigas inescapavelmente morriam nos pulos de Cirilo, que frequentemente ameaçava também na área ofensiva. Atuando com a camiseta do Inter de Santa Maria – manto com que subiu em 2007 – teve o mesmo desempenho. Seus cruzamentos tinham, por vezes, algum local FORA DA CANCHA como destino, mas era excepcionalmente seguro no ATO de defender. Também foi assim com o Pelotas que ascendeu neste ano.

BONALDI (Zagueiro, Riograndense)
Rodrigo Corrêa Bonaldi - 32 jogos, 6 gols feitos

Em 32 dos 36 confrontos em que o Riograndense esteve presente pela Segunda Divisão, Bonaldi foi o capitão. El gran capitán. Foi como os caudilhos de antanho, que endereçam certos times à glória de um título. Um Hugo de León, um Figueroa, um Bengoechea, um Verón, o Bonaldi. E se o zagueiro (ainda) não teve o mesmo fim dos renomados capitães citados, ao menos foi muito longe. Nas espaldas de Bonaldi, o jogador mais importante da campanha lejos, o Periquito alcançou o último dos quadrangulares. O Riograndense que apanhava inverno após inverno teve enfim uma Série B iluminada. Muito porque teve Bonaldi: o melhor zagueiro do campeonato, o cobrador de faltas, o cabeceador mortal, o capitão que só podia vencer. E que não mereceu o mesmo fim da sua equipe.

CRISTIANO (Lateral-esquerdo, Porto Alegre)
Cristiano Goelzer - 24 jogos, nenhum gol

Cristiano apareceu no Grêmio no ano de 2004. O técnico Plein o buscou no Glória para proporcionar um pouco mais de seriedade naquela COISA que encerrou o ano na lanterna do Campeonato Brasileiro. A passagem pelo tricolor, porém, não rendeu contratos em outros clubes grandes para Cristiano – muito porque aquele foi o pior Grêmio da história. Na Segundona de 2009, ele tratou de consolidar uma obviedade: não teve culpa alguma no fatídico rebaixamento. Ostentando a camiseta COSTURADA por ASSIS (?), às vezes como ala, outras como lateral pela esquerda, Cristiano beirou o heroico na reta final da campanha. Com uma lesão no pulso esquerdo, foi orientado pelos médicos a parar por dois meses. Respondeu que se tratava de um quadrangular final. Atuou nos seis jogos e saiu campeão.

BI (Volante, Riograndense)
Ademir dos Santos Júnior - 31 jogos, nenhum gol

Bi não é o típico volante da Segundona. Não é alto e tampouco esbanja a força física tradicional dos quebradores interioranos de pelota. Destacou-se no céspede do Estádio dos Eucaliptos porque a sua entrega alcançou o adjetivo “EMOCIONANTE”. Para os fotógrafos, Bi é o jogador perfeito. Está sempre caindo, enroscado nas pernas do meia-esquerda habilidoso ou deslizando em um carrinho sanguinário. Quando chove e o campo vira um potreiro, melhor ainda. Até nas rodadas finais, em que o Riograndense virou um SIMULACRO do que foi e poderia voltar a ser, Bi manteve a honra. Se também padeceu do desmoronamento técnico da equipe, compensou com a valentia de todos os dias. Bi merecia o acesso, como também mereceu proteger a RÚSTICA defesa da seleção do campeonato.

DEIVES THIAGO (Meia, Cerâmica)
Deives Thiago da Silva - 15 jogos, 4 gols feitos

Outro que só passou a figurar nas relações de titulares de seu time bem depois de o campeonato começar, Deives Thiago acrescentou qualidade a um Cerâmica que, embora superasse as fases, não convencia. Tornou-se importante a ponto de RAREAREM os jogos em que não era exaltado por torcedores ou repórteres de certas rádios, e ajudou a carregar o quadro de Gravataí até a fase final, marcando o gol que custou a eliminação ao favorito Glória, no confronto direto. No quadrangular decisivo, porém, uma lesão afastou Deives Thiago da equipe – dos seis jogos finais, ele só pôde entrar em campo em um. Talvez SÓ por causa da ausência dele, a corrida do Cerâmica até a primeira divisão parou no terceiro lugar.

MARCELO MÜLLER (Meia, Glória)
Marcelo Volnei Müller - 13 jogos, 4 gols feitos

A montagem da máquina AZEITADA do Glória durante a competição exigiu reforços com a Segundona em andamento. Quando a SOBERANIA dos vacarianos ainda era incontestável, Marcelo Müller apareceu para desesperar um outro tanto dos futuros adversários da equipe dos Altos da Glória. No dia em que o Glória foi eliminado, empatando por 2 a 2 com o Cerâmica em Gravataí ao som do brado de uns INSURGENTES que queriam “liberdade, igualdade e fraternidade”, foi o camisa 10 (que algumas vezes vestiu a 11) quem deu o tiro derradeiro na tentativa de manter a DITADURA dos de Vacaria, marcando o último gol da equipe na Segundona. Suas boas atuações em tão escassas oportunidades ATIÇARAM o olho grande de empresários pelas campinas do mundo. Marcelo Müller atuou poucas vezes. Mas jogou muito.

TIAGO DUARTE (Meia, Pelotas)
Tiago Pereira Duarte - 20 jogos, 8 gols feitos

O homem AGUDO da meia-ofensiva pelotense foi um cidadão que disse ter a EXATA noção do que significaria não subir com o Lobo. Um fracasso que não poderia mais se repetir. Uma desilusão que, vindo pelo quinto ano seguido, começaria a EMPUTECER demais uma população para ser PERDOADA. Tiago Duarte sabia a MORTANDADE que novas derrotas poderiam gerar. E foi um dos maiores responsáveis para evitar que o desastre se repetisse. Infernal a aparecer em diferentes cantos das CERCANIAS das áreas rivais, deu assistências para gols importantíssimos na trajetória áureo-cerúlea rumo à elite – e marcou vários outros ele próprio.

MARCELINHO (Atacante, Bagé)
Luis Marcelo Soares Resende - 24 jogos, 15 gols feitos

Com Marcelinho em campo, e Marcelinho sempre esteve em campo, os presentes nas arquibancadas viam as redes balançando mesmo sem vento, mesmo sem bolas. Em verdade, os barbantes TREMIAM de medo por serem as próximas VÍTIMAS dos pelotaços vindos dos pés do matador jalde-negro. Começando as partidas ou entrando no decorrer delas, Marcelinho tomou parte em TODAS as batalhas disputadas pelo Bagé na Segundona 2009. Meteu gols, gols e gols e se ALÇOU à artilharia inquestionável do campeonato por longas semanas. AFASTADO do certame ainda na segunda fase, pela eliminação do seu time, ele permaneceu como maior goleador do campeonato até a terceira rodada do quadrangular final, quando finalmente Adão logrou superá-lo.

HYANTONY (Atacante, Porto Alegre)
Hyantony do Nascimento Canedo - 24 jogos, 10 gols feitos

A dupla de ataque mais temida do certame foi montada no PÁTIO da mansão de Assis: o Parque Lami. Juntos, Hyantony e Adão – a dupla de ataque do Porto Alegre - somaram expressivos 27 gols. Mas por que Hyantony, e não Adão, se o primeiro marcou sete gols a menos? A explicação está no quadrangular final. Nos últimos seis jogos, Hyantony festejou sete vezes. Adão, no mesmo período, GRITOU apenas duas vezes. Se com os tentos de Adão o Porto Alegre pôde ingressar no quadrangular, foi com os gols de Hyantony que conquistou o acesso. O pai de HYAN, aliás, salvou o Porto Alegre da DEGOLA na segunda rodada da fase final: no 4-4 diante do Cerâmica, que prolongou a EXISTÊNCIA do time, o atacante marcou um triplete.

RODRIGO BANDEIRA (Treinador, Panambi)
Rodrigo Bandeira comandou o Panambi em 30 jogos, obtendo 11 vitórias, 11 empates e 8 derrotas

Não possuía individualidades de destaque, o Panambi. Havia, sim, jogadores históricos, como Evandro Brito, mas ninguém que estivesse se SOBRESSAINDO na prática. Mesmo assim, Rodrigo Bandeira conseguiu fazer dos seus comandados um dos grupos mais VALOROSOS que a Segundona viu na temporada. O Panambi, que para muitos OTIMISTAS já teria ganho o ano se fosse eliminado dignamente na segunda fase, seguiu vivíssimo até os quadrangulares semifinais. Em casa, não foi derrotado por ninguém. Foi um dos únicos dois times a vencer o poderoso Glória – o outro foi o campeão Porto Alegre. Mesmo com uma equipe cuja folha salarial mal chegaria à metade da pelotense, ATERRORIZOU o Lobão até o fim – o Panambi deixou de ir à fase final não porque fosse superado em pontos pelo Pelotas, mas pelo critério de desempate do número de vitórias. Bandeira fez um trabalho extraordinário num dos clubes com algumas das maiores limitações técnicas, financeiras e, principalmente, estruturais do campeonato.

BANCO DE RESERVAS
(menções honrosas)

MARASCA (Goleiro, Porto Alegre)
Alexandre Marasca - 32 jogos, 28 gols sofridos

Marasca barrou uma bela fotografia no jogo Riograndense 1-4 Porto Alegre: defendendo uma penalidade, impediu que um retrato dos cordões BALANÇANTES existisse. No confronto seguinte, contra o mesmo adversário, em Porto Alegre, Marasca comandou a sua defesa berrando ininterruptamente durante os noventa minutos. Para ensurdecer qualquer vivente. Um chato, esse Marasca. Por isso está na reserva. Não. A verdade é que o goleiro fez um belo campeonato, mas acreditamos na superioridade de Pitol. Só que Marasca teve muitos méritos no título do Porto Alegre - inclusive foi o jogador que mais atuou pela sua equipe entre os selecionáveis. O novo-rico campeão teve em Marasca o seu ESPÍRITO personificado: discreto e muito competente. Por isso, um pouco IRRITANTE. Ou talvez seja só RECALQUE.

ALÁDIO (Zagueiro, Bagé)
Aládio José Knebel - 19 jogos, 2 gols feitos

Peça uma lista de dez jogadores marcantes do interior que seguem em atividade. Lá estará Aládio. Se falarmos apenas de zagueiros, Aládio cabe até em um TOP-3. Ele conhece cada estância, cada coxilha, cada CURVA do Rio Grande. Dentro de campo, é ainda mais sábio. Antecipa com precisão, dialoga MATREIRAMENTE com o árbitro e tranqüiliza a defesa de uma equipe. No Bagé que começou TOCANDO O CÉU no início do campeonato, Aládio foi um BALUARTE. O jalde-negro que assegurou a segunda melhor campanha da primeira fase CHOROU apenas onze vezes com o esférico AGREDINDO as redes. Tudo perfeitamente compreensível: a defesa era formada por Aládio e DARZONE. O Bagé não foi longe, mas Aládio integra o time pela eficiência de ser um dos grandes na Segundona, ano após ano. E por ter anotado um gol no Ba-Gua.

DÊ (Volante, Porto Alegre)
Anderson Francisco Barros - 31 jogos, nenhum gol

Quem sentava nos degraus do Parque Lami ou dos estádios interioranos por onde o Porto Alegre PISOU, via em campo um SER que parecia se REPARTIR em QUARENTA. Ora carregando nas espáduas o número cinco, ora trajando a camisa oito, o tal de Dê era muito mais do que o apelido de duas letras indicava. Em algum pedaço do campo podia faltar OXIGÊNIO, mas não faltava Dê. Na defesa e no ataque, lá estava ele. Contendo e apoiando. Necessário para que as coisas andassem no campeão da Segundona, foi o jogador de linha que mais vezes entrou em campo pelo Porto Alegre entre os selecionados, mesmo sem marcar um único gol.

MAICON SAPUCAIA (Meia, Pelotas)
Maicon Falheiro da Silva - 19 jogos, 3 gols feitos

Reserva no início, titular importante no fim. Maicon Falheiro, o Sapucaia, que em algumas súmulas aparece como Maicon PALHEIRO, justificou o sobrenome falso e ACALMOU muitos torcedores quando acionado dentro da cancha. Importante para COMUNICAR a traseira do campo com a ofensiva, e surgindo repetidamente dentro da área dos oponentes, ele ABASTECEU o positivo ataque do Pelotas com competência. A certa altura, a saída da titularidade de um Dauri que marcara vários gols nas fases iniciais nem foi tão INSUPORTÁVEL ou sentida, graças à POLIVALÊNCIA das jogadas do sapucaiense Maicon.

AMAURI (Meia, Milan)
Amauri Cereser Barrasuol - 13 jogos, 2 gols feitos

Amauri poderia ser o injustificável presente na seleção da Segundona. Mas seu nome aparece em forma de homenagem. Amauri resume os que não puderam aparecer na ZERO HORA como jogadores de segunda divisão. Amauri defendeu o Milan de Júlio de Castilhos, um dos quadros mais pobres do campeonato. Amauri foi meia-armador de uma equipe que atuava sempre e somente na retranca. Na terceira rodada da primeira fase, o seu Milan enfrentou o Riograndense em Santa Maria. O lanterna da Chave 3 viajou para não perder de muito. Não conseguiu. Levou 4-0 ao natural, mas um ENFURECIDO camisa 10 mereceu atenção. Era Amauri, que apesar da goleada foi um dos melhores em campo. Amauri resume os que não foram. Mas aparece na seleção porque a Segundona é suficientemente democrática para lembrar que há VIDA e FUTEBOL nos arrabaldes.

ADÃO (Atacante, Porto Alegre)
José Adão Fonseca - 25 jogos, 17 gols feitos

Há poucas camisas no interior gaúcho que Adão não tenha defendido durante uma carreira vitoriosa que, entre outros GALARDÕES, ostenta um título gaúcho pelo Caxias no ano 2000. Na atual temporada, com trinta e oito anos nas costas, o centroavante que para muitos estava acabado decidiu dar um ESPETÁCULO de final (final?) de carreira, marcando gols para felicidade da menor torcida que lhe aplaudiu nesse horizonte que a MEMÓRIA alcança. Adão encerrou a Segundona como artilheiro da competição. Suas lesões e suspensões por vezes custavam pontos ao time de Assis, e os ANCIÃOS do Parque Lami CISMAVAM em repetir que “quem tem Adão, tem a solução”. A idade pesou e no fim do campeonato Adão rendeu menos, marcando só dois gols no quadrangular decisivo, mas o time não teria chegado lá sem a absurda EFETIVIDADE do atacante nas jornadas anteriores.

LUCAS PRECHESKI (Atacante, Lajeadense)
Lucas Precheski - 22 jogos, 13 gols feitos

Liderar o ataque de um Lajeadense que começou o campeonato com cinco derrotas nas cinco primeiras rodadas e só passou da primeira fase por MILAGRE não é das tarefas mais FELIZES. Ir às redes TREZE vezes, mais da metade do total de gols da equipe (25), é conquista só possível para os verdadeiramente FORTES. Lucas Precheski, ou simplesmente Lucas, MONOPOLIZOU os gols do Lajeadense. E foi o herói da sobrevivência de um exército que avançou mais do que poderia. Não jogou bola para merecer mais do que uma eliminação na primeira fase, o quadro de Lajeado – mas pôde avançar até a etapa dois graças a uma goleada por 6 a 0 sobre o concorrente direto Atlético Carazinho, na última rodada da primeira fase. Naquele dia, o Florestal presenciou o ZÊNITE de Precheski – o ASSASSINO provocou três dos seis festejos da sua torcida.

“A foto do título”

O Porto Alegre tem um fotógrafo oficial. Ou tinha. O que me intrigava um pouco. Na época daquele jogo contra o Glória, o time de Assis não possuía um site. Tampouco atraía periódicos impressos para divulgar a sua (não) nobre CAUSA. O que faria com os retratos que tirava, o fotógrafo oficial do Porto Alegre?

Suponho que a vida dele fosse mais tranquila do que tentar imagens épicas sobre uma partida da Segundona e depois ainda fazer um texto usando elas. Por aqueles dias, suas imagens deveriam ir para o seu próprio portfólio e para arquivos pessoais de alguns jogadores. E fim. Nada de JULGAMENTOS ou cobranças em cima delas. Nada de dúvidas sobre colocar ou não uma legenda para explicar o que diabos tal imagens mostra ou leitores indignados com a ESCURIDÃO ou LUMINOSIDADE excessivas.

O fotógrafo oficial do Porto Alegre talvez nem acompanhasse a equipe longe do Lami. Provavelmente, sequer ficaria muito preocupado em manter a câmera armada durante a partida inteira. Para ele bastaria a equipe posada, uma jogada menos inspirada em que aparecessem dois adversários e a bola (não é isso que costuma ILUSTRAR notas sobre partidas assim, afinal?) e, com um pouco de sorte, um lance de pênalti. Pênaltis são muito bons para fotógrafos que não gostam de deixar suas máquinas preparadas, pois dão o tempo necessário para ajustar tudo e ainda pegar ALGO relacionado a um gol.

Minhas fotos neste ano foram mudando de PERSPECTIVA. Comecei usando um celular e capturando ÁTIMOS por trás dos alambrados. A maior dificuldade era a falta de zoom. As imagens saíam todas GERAIS, com os jogadores sendo pequenos ÁCAROS coloridos sobre uma relva verde. Mesmo assim, algumas fotos ficaram dignas de EXPOSIÇÃO. Quem acha que um carrinho é a maior ode à raça que um jogo qualquer de futebol pode ter é porque nunca ROÇOU a realização de, nas condições em que eu me encontrava, sair da cancha com fotos melhores do que a dos profissionais postados com CANHÕES fotográficos dentro de campo.

Com o tempo, veio uma câmera de verdade. Um zoom óptico de dez vezes, uma resolução de imagem que dobrava a qualidade dos retratos anteriores. Em tese, as imagens permaneciam inigualáveis às obtidas pelos que são pagos para tirar fotos. Quase como umas toscas XILOGRAVURAS comparadas às mais belas pinturas de Monet. Em tese. Mais tarde, cruzar-se-ia (!) também a barreira dos alambrados, e a melhora considerável das imagens até enganava quem as via, fazendo pensar que usávamos poderosas teleobjetivas e outros aparatos profissionais.

Mas não tínhamos nada daquilo. Éramos um Milan de Júlio de Castilhos tentando vencer na base da garra. As imagens boas fizeram nascer uma concorrência INTERNA. Iuri e eu passamos a PELUDEAR por fotografias que honrassem o potencial da Segundona. Chegamos a COMPETIR para ver quem lograva registrar mais carrinhos. Não fazemos mais porque eu sou um fiasco. Enquanto ele consegue focalizar até um URUTAU atorando um BEM-TE-VI, eu ainda tento capturar meu primeiro lance violento FOTOGÊNICO – uma vergonha para quem teve tantas vezes um Bonaldi diante das lentes.

Fez a melhor cobertura fotográfica da HISTÓRIA da Segundona, o Iuri. Eu COADJUVEI decentemente.

Já o fotógrafo oficial do Porto Alegre ganhou um lugar para expor suas imagens, com a criação do site do clube. Naquele dia da partida contra o Glória, só duas pessoas tinham câmeras no gramado do Parque Lami. Ele e eu. Só uma recebeu atenção dos jogadores do Porto Alegre. O oficial. Quando posaram, fizeram-no para ele. Saíram de frente para a foto nunca divulgada. E meio de lado na minha imagem. Muito antes de despontarem como CANDIDATOS, brincavam diante da máquina fotográfica. De um daqueles onze atletas veio a frase: “essa ainda vai ser a foto do título”. Foi.

A foto que abre este texto é a imagem que um dia foi profetizada como sendo a do título. O time perfilado antes de empatar por 1 a 1 com o até ali favorito Glória de Vacaria, no dia 15 de julho. Ontem, nove partidas depois, o Porto Alegre bateu o Pelotas por 2 a 0, na última rodada da segunda divisão, assegurando a conquista inédita. Ironicamente, a conclusão que dei ao texto do Porto Alegre 1-2 Pelotas em junho, se inverteu. No final da Segundona, foi a torcida do Pelotas, presente em grande número no Lami, quem terminou obrigada a assistir aos porto-alegrenses vibrando do outro lado da cerca.

* * *

Momento fotográfico do Futebesteirol: no jogo Riograndense 5-0 Rio Pardo, duas fotos tiradas praticamente no mesmo instante, de ângulos diferentes. Quando o Rio Pardo acertou o travessão dos santa-marienses, o Iuri clicou do alto do pavilhão - e eu fiz o mesmo da altura do campo. O resultado, abaixo: