quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Não era uma terça qualquer

PELOTAS – Quando o Xavante foi estraçalhado pelo acidente de 15 de janeiro, cogitou-se licenciar o time do estadual, sem rebaixá-lo. Por mais justa que a proposta fosse, o clube, ainda envolvido na dor, não quis aceitar. Parte dos contrários era enfática ao defender que só dentro da cancha o Grêmio Esportivo Brasil reagruparia as forças e seguiria em frente. Nesta terça-feira, somente dezenove dias depois da tragédia, o clube pelotense voltou.

O curto período correu com quatro rodadas do campeonato sendo disputadas, e várias demonstrações de solidariedade pelo Rio Grande. Uma barra negra sobre a torcida colorada em Porto Alegre, uma marcha fúnebre tocada solenemente antes da primeira rodada em Santa Maria, uma faixa de apoio exibida por jogadores de dois times adversários abraçados em Bento Gonçalves, gritos em nome do Brasil de Pelotas em Ijuí, minutos de silêncio por todos os rincões do estado onde houve futebol em 2009.

Aqueles que vivemos o esporte sentimos, em maior ou menor escala, uma parcela da comoção que tomou os corações xavantes. Esta partida de terça-feira teve um fundo distinto de praticamente todas as outras já jogadas no país. Havendo condições para tanto, era necessário estar aqui. Eu fiz a insanidade. Pelo único motivo de presenciar o retorno do Brasil aos gramados após a dor, saí de Ijuí às 8 da manhã e percorri os quase 500 quilômetros de distância até Pelotas.

Depois de Santa Maria os elementos da paisagem vão reduzindo gradativamente. Em certo momento o horizonte não abriga mais que campos, pedras, colinas e capões, campos, pedras, colinas e capões, campos, pedras, colinas e capões, visão repetida até a loucura. A beleza e a calmaria da metade sul do Estado, inquestionáveis, existem justamente pelo deserto humano que é essa região.
Nesse meio de nada aconteceu o acidente. Os indícios, apagados aos poucos, continuam visíveis. A fechadíssima curva do trevo de acesso à BR-392 tem seu asfalto riscado pela lataria do ônibus e marcas de pneu no chão. Finalizando o traço da derrapagem, um guard-rail novo, substituindo o derrubado na ocasião, e atrás dele o desnível fatal de dezenas de metros. Restam sobre a grama os pedaços do vidro quebrado das janelas e partes da sinalização arrancada no acidente. Uma das placas que avisam sobre a periculosidade da curva tem hoje uma flor vermelha pendurada, numa homenagem anônima a Claudio Milar, Régis e Giovani Guimarães.

Os três para quem um jogo contra o Futebol Clube Santa Cruz foi o último. E da sua morte, do ferimento de outros tantos profissionais, concluiu-se, a princípio, o fim do Brasil de Pelotas em 2009. Foi simbólico que o retorno tenha sido contra o mesmo Santa Cruz, e uma demonstração de força inacreditável que tenha se dado em pouco mais de meio mês. Sabia-se da capacidade desses fiéis torcedores xavantes, mas nós, aficionados normais, não imaginávamos que fosse tanta. Os jogadores remanescentes, os cedidos por outros times do Rio Grande, os dirigentes que se negaram a abandonar o estadual, o treinador Cláudio Duarte que veio para trabalhar de graça, esses imaginavam.

E foram premiados por um Bento Freitas completamente lotado. Ao meio-dia a tevê informava que os ingressos disponibilizados até então já estavam esgotados – os comprados depois, como o meu, compunham um lote extra. Pelotas respirava um ar vermelho e preto, e camisas do Brasil multiplicavam-se pelas calçadas. De dentro do estádio, observando pelas frestas, era possível avistar a rua de acesso inteiramente tomada por uma fila de aficionados, uma hora e meia antes do início do jogo.A fila, impressionante, não diminuiu em momento algum. As pessoas entravam, o Bento Freitas enchia, e parecia que a rua continuava com tantos torcedores quanto antes – ou mais. As arquibancadas superlotaram com 15 mil pessoas, e não se duvida que outro milhar ficou do lado de fora, impedido de entrar por questões de segurança. Absolutamente fantástica, a torcida do Xavante nesta terça-feira. Ao meu lado, alguns sócios lamentavam não haver mobilização assim sempre. Mas não era, afinal, um dia qualquer de futebol. E se é possível dizer que da tragédia brotou algo positivo, esse consolo está na união fortalecida entre os aficionados do Brasil e o clube – estima-se em 800 os novos associados nas últimas semanas.

Faixas em memória aos falecidos passaram em frente às arquibancadas, no ritual do pré-jogo. Incluíam-se aí as homenagens do ABC de Natal (RN) e a bandeira uruguaia com o rosto de Claudio Milar estampado, ofertada pela comunidade oriental do Chuy (os amigos del Chuy, como fizeram questão de se identificar), terra-natal do ídolo. Como era preciso ter ânimo para a partida, não podendo deixar o luto tomar conta, o humor não se perdeu – quando Dunga, representando a CBF, entrou em campo, um gaiato das cadeiras soltou o comentário: “Não é novidade ter técnico da Seleção aqui. O Felipão já treinou o Xavante.”

Enfim veio o time ao gramado. Vestindo negro, sem as camisetas 3 de Régis e 7 de Claudio Milar na relação. O recebimento foi uma ode à superação. “Eu acredito!”, berravam os xavantes, depositando confiança nos responsáveis por acabar com o trauma e carregar as suas cores em 2009. “Eu acredito!”, repetiam, enquanto o Santa Cruz entrava em campo também aplaudido, já que carregava uma mensagem de apoio ao clube pelotense. O minuto de silêncio respeitado por Carlos Eugênio Simon virou minuto de ovações.

A terça-feira diferente de todos os outros dias de futebol já vistos por aqui foi lembrar uma jornada comum – ainda bem – no momento em que o esférico recebeu o primeiro pontapé. Sucedendo a consternação vieram os rugidos das fileiras lotadas, vibrando a cada carrinho e a cada chutão, dispostos a apoiar mesmo os passes errados, que não foram poucos, porque o que interessava ali era dizer que a maior e mais fiel torcida do interior estaria sustentando a equipe frente ao que viesse. Frente, até, às falhas de Danrlei, que passou o jogo inteiro longe da velha técnica, espalmando bolas fáceis nos pés dos atacantes do Galo dos Plátanos – aos 13 minutos, o resultado dessa lambança foi o gol de Eraldo, fazendo 0 a 1 para o Santa Cruz.

Criada a desvantagem, o Brasil atacou com a força do temporal que atingiu a região de Pelotas na semana passada, remontou e roçou um massacre. Adriano Sella empatou aos 26 minutos, num chute de longe desviado pela zaga visitante para tirar o goleiro Cássio da jogada. Kelson, de pênalti, e Alex Martins, num daqueles gols de luta, concluíram a virada antes do fim do tempo regulamentar. Um 3 a 1 de sonho contra o time interiorano de melhor técnica apresentada até este momento da temporada. Nos acréscimos, porém, uma bola cruzada na área, um Danrlei que não saiu da meta e uma zaga que não pulou deixaram Eraldo livre para mandar um testaço ao fundo das redes e botar recuperáveis 3 a 2 no marcador do intervalo.

A metade final do jogo foi um martírio para o rubro-negro, vitimado pela sua preparação reduzida após o acidente. Cansados, caindo de cãibras a todo momento, os jogadores do Brasil arrefeceram seu poder ofensivo. A ordem era resistir. Se pudessem substituir mais que três jogadores, fariam. Como não podiam, o Santa Cruz tomou conta. Aos 61 minutos acertou uma bola na trave; aos 74, Eraldo, de novo, chutou e fez 3 a 3 ajudado por um desvio da zaga. Magno, melhor dos pelotenses no jogo, foi mais um que sentiu as pernas faltarem no fim, mas teve que continuar em campo no sacrifício para não deixar a equipe com dez. O empate já soava bom o bastante.

E melhor ficou quando o Santa Cruz acertou a trave pela segunda vez, no tardio 89º minuto. Três minutos depois, no último sopro de Simon, o ponto foi comemorado pelo Bento Freitas superlotado. Não havia dúvidas da qualidade do Santa Cruz, ao passo que o Brasil, mesmo depois de ontem, continua uma incógnita – não se sabe quanto renderá esse time depois de estar com resistência parecida com a dos outros. Pode ser que a vontade do clube de disputar o Gauchão a qualquer custo renda uma árdua briga para não cair. É o preço pago por acreditar. O importante está na concretização do que previram os entusiastas da não-desistência do Brasil: a cancha repleta de apaixonados diluiu a tristeza.

2 comentários:

Cassol disse...

Baita relato. Eu estava no estádio também. Podíamos ter nos encontrado para conversarmos sobre os rumos da ImpedCorp e da Futebesteirol International.

Abraço.

Maurício Brum disse...

Haverá oportunidades futuras, esperamos! hehe