segunda-feira, 6 de julho de 2009

Yo soy de Parque Patricios, evocación de mi ayer¹

Os TENTÁCULOS infalíveis do DESTINO optaram por uma surpresa no sistema de disputa do Clausura argentino. A pontuação ao fim de dezenove jornadas definiria o GLORIOSO. Nada de final, mata-mata ou DESORDEM. Assim é que constava no regulamento, ao menos. Mas quis o PODER MAIOR do futebol que Huracán e Vélez Sarsflied, respectivos líder e vice, duelassem na rodada derradeira. Quem vencesse levava a taça. Em caso de empate, grito do Huracán. O PREFÁCIO de uma das partidas mais fantásticas dos últimos SÉCULOS esteve aí, no “como ocorreu”. Mas o desenrolar futebolístico foi ainda mais espetacular.

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José Amalfitani, bairro de Liniers, Buenos Aires. No palco, quarenta mil adeptos do Vélez e quatro mil e quinhentos loucos pelo Huracán. Desigual. COMEÇOU POR AÍ, poderia bradar um tipo mais PRECIPITADO. Porém, seria absurdo exigir que os cartolas do Fortinero fossem suficientemente AMIGÁVEIS para adocicar as VIDAS dos do Huracán. Estamos tratando de uma final, carajo. A divisão de torcidas no estádio era, portanto, natural. Natural como a estratégia proposta por Angel Cappa, o treinador mais aclamado do campeonato. Cappa armou o seu Huracán como fez durante todo o semestre: para frente, a partir de um toque de bola ILUDÍVEL.

“Para frente, a partir de um toque de bola ILUDÍVEL” sendo que o empate servia. Um ferrolho eficiente e SELVAGEM seria de maior prudência, diziam alguns. Não com o Huracán. Não com estes jogadores e não com Cappa. Quem jogou dezoito vezes buscando o gol a todo custo e que, assim, ostentou o ataque mais positivo do Clausura, não saberia atuar com a GROSSURA que a retranca exige dos seus praticantes. Nos primeiros minutos, um Vélez que precisava ACIMA DE TUDO NO MUNDO triunfar foi ofuscado pelo quadro visitante. Houve equilíbrio, sim. Mas o equilíbrio estava do lado dos de Parque Patricios, bem como o 0-0, a raridade de oportunidades de tento e a ausência de uma pressão no arco de Monzón.

Até que, depois de um centro, o beque Eduardo Domínguez acertou um testaço nos cordões de Montoya, que não é o histórico Navarro. Seria o 0-1. Anulado. Mal anulado. A linha de impedimento falhou como costuma falhar e Domínguez estava LÍCITO. Significou apenas a primeira tentativa do Huracán de vencer a CENSURA que o oprimiria mais e mais no José Amalfitani. A próxima repressão, entretanto, não partiu da arbitragem, e sim dos CÉUS. A harmoniosa chuva que BEIJAVA a rala grama da cancha rapidamente transformou-se em tempestade e, em segundos, em GRANIZO. Pedras do tamanho de HELICÓPTEROS atingiam o cenário, determinando o CAOS. Atletas corriam para os vestiários, torcedores protegiam-se com seus trapos ou, como optaram os mais RÚSTICOS, com as CADEIRAS do estádio.

A partida foi suspensa aos 19 minutos e reiniciou apenas 28 minutos depois. Tempo hábil para que um SENHOR conseguisse derrubar a chave do seu AUTO no fosso que separa a RALÉ dos CRAQUES. Como choviam BAIACUS, o fosso rapidamente encheu-se d'água. Foi o que bastou para ele se jogar na FAMA, alcançando a sonhada chave com incrível rapidez. Para sair, foi socorrido pelos BOMBEIROS. A indefinição sobre a continuidade da “final” cessou com o fim do granizo. Com tempo limpo, o árbitro Gabriel Brazenas apitou o recomeço. Provavelmente o inesperado fenômeno climático atingiu os nervos dos Quemeros. Cinco minutos após o último TIJOLO de gelo cair no campo, Araujo, o lateral direito visitante, atorou impiedosamente Martínez. Pênalti incontestável que o uruguaio Hernán Rodrigo López perdeu, para consagração do voo de Monzón.

Na jogada seguinte, o mesmo Rodrigo López FLERTOU com o gol. Sua cabeçada superou o arqueiro, mas não a cabeça de Arano, que salvou a VIRGINDADE do Huracán saltando sobre a linha que separa a LUTA do JÚBILO. O lance mais próximo de balançar o concreto das arquibancadas, porém, não foi assinado por López. Nos últimos ARDORES da primeira etapa, Domínguez, que já tivera um gol sonegado, acertou o travessão. No rebote, frente a frente com Montoya, o INDECIFRÁVEL centroavante Nieto chutou fraco para a defesa do assustado goleiro. Soprado o apito, prosseguia um BALEADO 0-0, que resistiu a pelotaços na trave, penais e até a uma NEVASCA.

Nas quarenta e cinco voltas finais, o DESESPERO e as ganas do Vélez finalmente ACUARAM o Huracán. O 1-0 precisava sair e o que se viu foi um onze inteiro EMPURRANDO o balão para o campo de ataque. Afinal, o segundo tempo valia o campeonato. E o Huracán precisou, enfim, recuar. Maximiliano Moralez, o já citado López e Lavirrey, que adentrou do banco, insistiam com atordoada IMPACIÊNCIA. Pastore e De Federico, abertos pelas pontas, não faziam o TIKI-TIKI fluir como em OUTROS TEMPOS. O Vélez, com um jogo elétrico e comovedoramente interessado, impulsionou a multidão a saltar alto nas tribunas.

Criou-se, então, um merecimento. Algo assaz relativo no futebol, mas inevitavelmente analisado. Um merecimento parcial, pode-se dizer. Se no campeonato todo o Huracán mostrou o melhor e mais vitorioso futebol (12 vitórias e 35 gols), neste domingo insano quem deveria chegar ao gol primeiro era o Vélez. Em um chute de fora da área com Cubero, em jogada individual de Moralez – gambeta incluída – com López de cabeça, ou até mesmo no penal malogrado ainda no primeiro tempo. Mas não como a bola entrou.

Domínguez, zagueiro pela esquerda, buscou recolocar o Vélez no ataque e preparou um BICUDO. Rodrigo López, o artilheiro do time na competição, intercepta a pelota e desvia de cabeça. Quem aparece por trás da zaga é Larrivey, ex-jogador do Huracán. A bola corre mais que o esperado na grama molhada e Larrivey tenta alcançá-la de carrinho. Monzón está prestes a agarrar o esférico quando o atacante atinge a sua perna com a sola da chuteira. Moralez aproveita que o goleiro está fora de COMBATE e chuta para o arco vazio. Nas palavras de Cappa, “era possível notar que foi falta desde o estádio do NEWELL'S”.

Os minutos seguintes foram de absoluta TENSÃO. ACABARAM as pelotas no Fortín de Liniers, para desespero de Angel Cappa. O Vélez catimbava a cada segundo e Montoya ainda salvou o título em uma confusão caótica que rondou a sua grande área. No último minuto, houve até SANGUE na confusão dos defensores do Globo com Larrivey e Díaz, do Vélez. Apito final, invasão de campo e Vélez Sarsfield campeão nacional pela sétima vez. O Huracán viu um gol legítimo e um carrinho faltoso não punido serem levados pela tempestade que banhou Buenos Aires.

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O Huracán movimentou Parque Patricios como não se via desde 1973. A equipe que conquistou o Metropolitano era, como a de hoje, felicitada pelo futebol que emocionava o torcedor. Nas palavras de Carlos Poggi, da revista El Gráfico de Buenos Aires: “este campeón está incorporado, por derecho y juego proprio, a la bibliografía de los equipos que mejor jugaran al fútbol en la Argentina. Siempre recordado, el Huracán de 73, aquel de Roganti, Chabay, Buglione, Basile, Carrascosa, Brindisi, Russo, Babington, Houseman, Avallay y Larrosa”.

O de 2009, o de Cappa, Pastore, Defederico e Monzón, também escapa do olvido. Em 2045 alguém há de lembrar do Globo que enfileirou 4-0 no River Plate e 3-0 no Lanús, que bateu sem dó no Racing Club de Caruso e que enchia o Tomás Ducó a cada jornada. Por dezoito jogos e oitenta e cinco minutos, o Huracán foi novamente histórico.

¹ Do tango "Yo soy de Parque Patricios", de Carlos Lucero.

Fotos do La Nación.

3 comentários:

Maurício Brum disse...

Ainda pior que o árbitro-que-só-faltava-ter-um-V-alvi-azul-no-peito foi a transmissão do Sportv. Jogadores sangrando em Liniers e eles mostrando premiação de judô... Há horas para se apoiar os esportes menos destacados, mas elas definitivamente não são aquelas em que O MAIOR JOGO DE FUTEBOL DO ANO está acontecendo.

Faltou noção da IMPORTÂNCIA RELATIVA DAS COISAS.

Sandro Viero disse...

Maior jogo do ano?? Céus...
Viva Inter, o MAIOR!

Sandro Viero disse...

Maior jogo do ano? Céus... poupe-me.
Viva Inter!! O MAIOR!