terça-feira, 11 de agosto de 2009

Quando a Segundona é um sonho

IJUHY – A realidade é uma paliçada. É ela que cessa a corrida fácil das ilusões de quem multiplica números e obriga a procurar um contorno. Se o Grêmio Esportivo Gaúcho tivesse duzentos sócios pagando quinhentos reais por mês, ao final de cada trinta dias seriam cem mil reais a pingar nos cofres. Numa cidade de oitenta mil habitantes, duas centenas de pessoas capazes de bancar isso até soa aceitável. Mas a realidade se ergue acima do horizonte e obriga a abandonar o caminho da matemática que simplifica o crescimento. No Gaúcho, não se multiplica. Somam-se quantias pequenas. O orçamento do clube é de três mil reais por mês. Os jogadores pagam para entrar em campo. Os dirigentes lutam para preservar o patrimônio e ampliá-lo com o que têm. E, mesmo assim, a utopia de todos, entrar na Segundona Gaúcha, é cada vez mais FACTÍVEL.

– Eu vejo o Inter vender um quinto goleiro por um milhão. Se nós temos um milhão aqui, fazemos time para dez anos – diz Jouberto Matte, tesoureiro do clube.
– Que tal nós juntarmos um milhão, o que não dava para fazer – prossegue Noedi Fassbinder, o presidente.
– Mas se tu lança uma escolinha, uma hora pode estourar alguém – fala Ivo Brandli, vice do Gaúcho. À frase dele se segue uma extensa lista de jogadores formados em Ijuí, que Jouberto tira da memória.

A Escolinha, com E maiúsculo e grandeza devida, é o projeto inicial para o Grêmio Esportivo Gaúcho voltar a ter um nome conhecido fora de Ijuí. É como a Pedra Fundamental de Brasília: em 7 de setembro de 1922, uns figurões decidiram comemorar o centenário da independência do Brasil no alto de um morro em Goiás, assentando sobre ele um obelisco anunciando que por ali seria construída a futura capital nacional. Passaram-se trinta e oito anos até Brasília despontar no horizonte do Centro-Oeste brasileiro, e a 25 quilômetros da pedra fundamental, mas aquele marco simbólico no meio do nada resultou numa cidade moderna. O futebol é mais DINÂMICO que a política e os feitos da engenharia, e a diretoria do Gaúcho também não está começando seu trabalho de um nada absoluto. Da iniciativa precisam aparecer resultados mais rápidos. O tricolor ijuiense, afinal, já esperou seus trinta e oito anos.

Causou alguma comoção no fim de 1971 quando ficou confirmado que, depois de sucessivos cambaleios, o clube estava dando um fim à sua participação no grande futebol – por tempo indeterminado. Fundado como Esporte Clube Gaúcho em 1943, na Linha 3 Oeste, arredores da sede do município, o time tardou cinco anos até ganhar a devida notoriedade. Em 1948, a transferência do clube para a cidade e a filiação à federação estadual permitiram que o Gaúcho disputasse o Campeonato Ijuiense. Seu espírito de competitividade ficaria evidente logo de cara: ao longo daquele ano, houve nove partidas entre São Luiz e Gaúcho – enquanto os são-luizenses venceram sete de menor valor, os gaúchos ganharam as duas que interessavam, válidas pela série melhor-de-três do Citadino, e conquistaram o título mais importante do município.

Pelas décadas seguintes seria essa IDEOLOGIA de vencer os embates relevantes que marcaria o Gaúcho contra o São Luiz. Na estatística dos clássicos, constam 121 jogos, 57 vitórias são-luizenses, 26 empates e 38 vitórias gaúchas. Na listagem das taças, porém, a vantagem se inverte: em 24 campeonatos envolvendo as duas equipes, onze foram para o Gaúcho e dez para o São Luiz, além de três que não chegaram a se definir. O Gaúcho sempre venceu mais partidas oficiais. Vermelho e verde quando da primeira conquista ijuiense, o clube cambiou suas características logo no ano seguinte, em 1949: absorvendo representantes do extinto Grêmio Literário e Esportivo Ijuiense, que era azul e branco, mudou de nome e cores – virou Grêmio Esportivo Gaúcho, um tricolor semelhante ao Nacional de Montevidéu, listrando suas vestes em azul, vermelho e branco. A influência da capital contribuiu para polarizar a rivalidade em Ijuí: com o tempo, o todo vermelho São Luiz virou o time de quem simpatizava com o Inter de Porto Alegre, e o tricolor-apesar-de-vermelho Gaúcho recebia o apoio dos gremistas.

Conta-se que em meados dos anos 1950, em Santo Ângelo, o Gaúcho venceu um jogo com quatro homens a menos. Todos saíram machucados, dois deles indo parar no hospital, e, sem substituições, os remanescentes montaram uma retranca desesperada. O relato ENVEREDA pelo caminho da lenda para recordar que um dos quebrados era o goleiro, forçando um homem de linha a ir para baixo do arco. Empatando por 2 a 2, deixando um solitário atacante no aguardo de eventuais sobras, o Gaúcho PARIU um contra-ataque e foi às redes. Triunfou por 2 a 3. Em 1951, disputou o Campeonato da Serra, contra campeões de outras cidades da região, e chegou ao vice-campeonato: na primeira partida da final, fora de casa, chegou a empatar por 3 a 3 contra os profissionais do poderoso Ypiranga de Erechim, e foi obrigado a passar pela vizinha Cruz Alta antes de voltar para Ijuí – a população local exigiu prestar uma homenagem aos jogadores que haviam logrado um empate diante da mesma equipe que, dias antes, massacrara o Nacional de lá. Apodado “Leão da Serra”, o time cruz-altense saíra MIANDO de seus jogos contra os erechinenses.Estenderam-se os anos de façanhas. Para 1952, foi organizada uma excursão a Oberá, na Província de Misiones, na Argentina, onde o Gaúcho virou o primeiro time ijuiense a atuar fora do país e ainda “cobriu-se de glória”, nos termos dos jornais da época: empatou por 1 a 1 com o Atlético de Oberá e venceu por 4 a 3 um selecionado daquela cidade. A grandeza exigiu um campo próprio. No ano de 1956, o Campeonato Ijuiense, que só era jogado no campo da Baixada, o Estádio 19 de Outubro, ganhou um novo TEMPLO. Nomeado Bertholdo Christmann em honra ao atuante patrono do clube, o estádio do Gaúcho recebeu a alcunha de Montanha por ficar uns metros mais alto que o do São Luiz. Hoje, em vez de torneios citadinos e estaduais, são amistosos de veteranos que se desenrolam no gramado da colina: na categoria que permite apenas jogadores com mais de 35 anos, o Gaúcho tem calendário cheio para a temporada inteira, com partidas todos os sábados.

O patrimônio que ficou é o trunfo do clube para tentar se reerguer. Quando Jouberto Matte assumiu como tesoureiro, seis anos atrás, a agremiação carregava uma dívida pendente de 26 mil reais em impostos atrasados. No passado, contas não pagas provocaram vendavais: nos anos 1980 a Prefeitura tomou a Montanha e uma área de terra com valor estimado em 450 mil reais. Ao contrário do estádio, o terreno nunca foi devolvido. A quadra vazia, que seria usada talvez para a montagem de um campo de treinos, terminou ocupada para uma CARICATURA de “reforma agrária”. A peleja na Justiça agora tem ações de usucapião movidas pelos ocupantes da área. Uma ENXAQUECA que o pagamento das contas em dia, ordem dos atuais mandatários pelas bandas do Bertholdo Christmann, quer evitar. Jouberto conta que os responsáveis pelo clube percorreram todas as rotas para zerar os impostos atrasados. Haviam pago metade das dívidas quando descobriram que, por ser uma entidade sem fins lucrativos, o Gaúcho não precisaria arcar com aquelas despesas – mas não teria como requerer a devolução dos impostos pagos indevidamente.

Alcançada a rara condição de clube sem dívidas por pagar, há que se buscar receitas. Os cerca de cinquenta sócios patrimoniais, metade deles jogadores da equipe de veteranos, pagam mensalidade entre 20 e 25 reais. A labuta do clube inclui rifas e jantares. Tudo para poder investir no patrimônio. O vice Ivo Brandli, “o maior vendedor de placas de Ijuí” segundo Jouberto, destaca o apoio maciço das empresas na cidade quando se busca patrocínio – no entanto, uma equipe com pouca divulgação não pode cobrar valores altos. Um espaço publicitário na Montanha é vendido por uma média de 250 reais, pagamento único, pelo período de dois anos. Aumentar o valor do patrocínio passa pela competência extrema de administrar os poucos recursos que entram e usá-los para melhorar a estrutura. O tesoureiro Jouberto Matte comenta que é impossível levar jogos maiores ou shows à Montanha pelo fato de o estádio não ser completamente fechado – atrás de uma das goleiras, só o alambrado e um barranco separam as ruas e o campo.
Da esquerda pra direita: Dilene Brandli, Ivo Brandli (vice-presidente), Willian Brandli, Noedi Fassbinder (presidente), Elena Fassbinder, Jouberto Fernando Matte (tesoureiro) e Luis Carlos de Brum (secretário)

Mas os projetos de 2009 são ambiciosos. Contando com o esforço de cada um dos ligados de alguma forma ao clube, entraram recursos suficientes para se ampliar a sede social, que foi reinaugurada em julho. O presidente Noedi Fassbinder passou quase dois meses dedicando mais do seu tempo ao Gaúcho do que ao trabalho ou à família. Estava auxiliando nas obras, um gasto que possibilitará o aluguel do espaço para formaturas e outros eventos:

– Se eu tenho uma placa de publicidade e ninguém vem jogar, por que a empresa vai botar dinheiro aqui? Mas se eu tenho um fluxo de duas ou três mil pessoas circulando aqui por mês, é um argumento para fazer alguém investir – ressalta Jouberto.

“Devagarzinho igual tartaruga”, como diz Ivo Brandli, a situação vai melhorando. Na noite de sexta-feira, festejava-se a confirmação de um acordo com a Coca-Cola, que pagará três mil reais ao clube, também para ocupar um espaço por dois anos. O plano da Escolinha será decidido em reuniões futuras, mas a ideia caminha firme. Confirmando-se, o clube esperará o término do contrato com a GBM/Ouro Verde, que usa a estrutura do tricolor em suas jornadas pelo Gauchão de Juvenis, e montará um grupo de maior porte. Quando se fala da Escolinha, porém, o que se nota em cada comentário é o desejo nítido de ver o Grêmio Esportivo Gaúcho disputando torneios estaduais. Com certa solenidade emocionada, a palavra “retorno” aparece sempre.

Surpresos com a boa resposta dada pela comunidade e pelos empresários, os dirigentes avaliam que, se o cenário se mantiver e dependendo do que mostrar a Escolinha, há possibilidades verdadeiras de se montar uma equipe profissional dentro de dois anos. O encantamento de cada dia forma imagens embaçadas na mente. Ainda pouco TANGÍVEIS, elas só dão a certeza de que no meio da neblina estão as cores vermelha, azul e branca. Disputando uma Segundona Gaúcha – e para fazer bonito. Fassbinder, que tem mandato até 2011, quando o profissionalismo poderia ser implantado, prefere um plantel de jogadores de Ijuí e arredores. Para ele, “as equipes profissionais têm que dar mais oportunidades para o pessoal de região. Não trazer gente de São Paulo, gente lá do Nordeste, gente que não conhece o clube. Eles vêm aqui, jogam e, se ganhou, ganhou; se não ganhou, pegam o dinheiro e vão embora. Saem daqui e na outra semana estão em outro lugar. E o torcedor fica aqui sofrendo”.

Fassbinder tem certeza que os atletas regionais dariam a vida pela camisa do Gaúcho. Imagina um grande peneirão com destaques do interior de Ijuí e das cidades vizinhas, e a formação de um elenco seis meses antes do campeonato. Um longo trabalho de entrosamento, para que às vésperas da eventual Segundona só fossem trazidas de fora as peças realmente necessárias. O campeonato ficaria “barato e mais competitivo” – a síntese do Gaúcho; o atual, que só investe o que de fato tem, e o histórico, que vencia quando precisava. Os jornais da cidade ainda publicam notas tímidas divulgando esse sonho. Preenchem os pedaços de suas páginas com poucas linhas que nada esclarecem, e fazem esse esforço que tem rendido resultados concretos parecer um devaneio sem razão. Mas não falta razão aos responsáveis pelo Gaúcho. Sobra, isso sim, paixão para reerguer o clube. Nas palavras de Jouberto Matte:

“A gente tem um amor por isso aqui. Eu não ia ficar trinta anos aqui, limpando, varrendo, cortando grama, brigando com as pessoas que vêm invadir e quebrar as coisas, administrando, cobrando as mensalidades e pagando as contas, tudo isso sem ganhar nada, gastando do meu tempo, gastando do meu trabalho, se eu não tivesse essa dedicação, esse amor pelo clube. Se você for falar com qualquer um que passou dentro do Gaúcho, todos eles têm esse laço de coração.”

Todas as fotos grandes são minhas. As demais foram cedidas por Jouberto Matte.

Um comentário:

Matheus disse...

isso é dificil para um clube q ja foi mas profissional mas tenho esperança q um dia teremos 2 times profissionais na cidade