quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Murmúrios de esperança para a Bósnia

Não eram só alvos estratégicos que as forças sérvias atacavam. A foto impressionava e denunciava o aspecto genocida da guerra, ignorado por boa parte do mundo durante as primeiras semanas do cerco, em 1992. Sobre as ruínas da Biblioteca Nacional da Bósnia, o principal violoncelista da Orquestra Filarmônica de Sarajevo, Vedran Smailovic, tirava melodias chorosas do seu instrumento. Naquela situação, com o céu gris sobre a cabeça, os atiradores de elite à espreita e as bombas despencando sem aviso, Smailovic foi às ruas, como se as notas musicais o protegessem.

Sarajevo era então uma cidade cercada e com o abastecimento bloqueado. Em 5 de abril de 1992, quatro dias depois de a Guerra da Bósnia ter seu começo formalizado, as forças da auto-proclamada República Srpska e do Exército da Iugoslávia tomaram os arredores da capital bósnia e iniciaram o mais longo cerco registrado na história moderna da guerra: quase quarenta e sete meses. Comida, água, e mesmo combustível para aquecimento das casas não chegavam aos habitantes da cidade, reféns de uma situação que as mal equipadas tropas locais não conseguiam reverter.

As ruas da Capital ganharam avisos – Pazite, Snajper! – indicando a presença de snipers, os franco-atiradores, postados no alto dos edifícios da vizinhança. Mas a fúria genocida atacava por todas as pontas. E no dia 27 de maio de 1992, por volta das dez da manhã, um grupo de civis famintos que aguardavam em fila para receber um frugal pedaço de pão foi atingido por um tiro de morteiro. Vinte e dois homens, mulheres e crianças morreram. Vinte e dois seriam os dias pelos quais o celista da Filarmônica local sairia de casa carregando seu instrumento.

Na manhã seguinte ao ataque, Vedran Smailovic se postou no mesmo lugar em que a explosão assassina vitimara os inocentes. Sobre a cratera deixada pelo ataque, assentou o celo, puxou um banquinho e começou a tocar. As feridas abertas estavam por todos os lados. Nas paredes dos prédios, no asfalto das ruas, na carne e nos sonhos das pessoas. E ali, no meio das ruínas, um homem desafiava os projéteis, a pólvora e a insanidade de todos os outros homens. Indefeso e vestido como se estivesse iluminado no palco da Ópera de Sarajevo, usava as cordas para criar um fiapo de esperança.

Tocou, tocou e tocou. Por vinte e duas jornadas consecutivas. Variava os momentos do dia. Não a música. Do seu violoncelo escorriam lágrimas na forma das notas do Adágio em G Menor de Albinoni, um som cuja melancolia é capaz de transportar a mente em divagações intermináveis. Ainda que solitário, o tom de Smailovic ecoou pelas construções destruídas. Engoliu civis, soldados dos dois lados e acordou o mundo. Os noticiários que dedicavam espaços resumidos à Guerra da Bósnia decidiram colocar uma lupa sobre os Bálcãs e compreender melhor o que ali se passava.

O novo olhar revelou mais do que uma guerra comum. Havia ali atrocidades e massacres, cujo objetivo de ser aquilo mesmo os autores nem se preocupavam em dissimular. Não havia locais seguros para quem morasse em Sarajevo. A Biblioteca Nacional, que teve sua destruição eternizada na célebre foto de Mikhail Evstafiev, tirada enquanto Smailovic tocava, foi um dos alvos inexplicáveis. Casas, hospitais e escolas poderiam ser os próximos. A comunidade internacional, envergonhada com uma coisa daquelas em plenos anos noventa, não tardou para adotar uma postura mais ativa. Vedran Smailovic, por sua vez, estendeu os dias de sua arte. Queria dar uma resposta para a guerra e a insensatez.

Questionado por um repórter se não era louco por arriscar a vida para tocar nas ruas desertas de uma cidade destruída, Smailovic rebateu com nova interrogação: “por que você não pergunta a eles se não são loucos por bombardearem Sarajevo?”. Ao término das vinte e duas datas estipuladas para a homenagem inicial, o violoncelista virou um ser errante pelos caminhos de Sarajevo, naquele momento a própria Capital do Inferno. Em muitos velórios de inocentes mortos durante o cerco, Smailovic surgia de repente, sem qualquer aviso, e brindava à sua memória, com alguns minutos de som.

Sarajevo resistiu ao cerco graças à abertura do seu aeroporto para aviões de provisões das Nações Unidas e à construção de um túnel que permitiu aos bósnios contornarem o embargo internacional de armas – aplicado para todos os envolvidos no conflito, incluindo os defensores da cidade – e também proporcionou uma rota de fuga para muitos habitantes. A intervenção da OTAN, em 1995, conduziu a Guerra da Bósnia a um fim. A luta cessou em dezembro daquele ano, mas a data da retirada dos invasores de Sarajevo tardaria até o fim do segundo mês do ano seguinte.

No dia 29 de fevereiro do bissexto 1996, os soldados iugoslavos finalmente deixaram suas posições. A população de Sarajevo foi reduzida a menos de dois terços do que era antes da guerra, pelas mortes e emigrações forçadas. O próprio Vedran Smailovic acabaria deixando a cidade, convertendo-se em ícone da paz e tocando ao lado de artistas como Pavarotti, Paul McCartney, e U2 nos anos seguintes. Havia feito a sua parte na VIDA, e com o tempo só desejou descanso. Agradece por não frequentar mais o noticiário internacional, embora no ano passado tenha sido procurado pela imprensa para comentar, irritado, um livro que se apropriou da sua história para criar uma ficção (The Cellist of Sarajevo, do canadense Steven Galloway).

Smailovic esconde-se hoje em Warrenpoint, uma cidadezinha de menos de dez mil habitantes no nordeste da Irlanda do Norte. Ele passa os dias compondo e jogando xadrez, participando esporadicamente de eventos de caridade. Talvez Smailovic nem goste de futebol e nunca tenha chutado uma bola. Ou então seja um apaixonado, o centroavante frustrado que um dia sonhou em defender o FK Sarajevo. Seja como for, e mesmo distante, ele deve estar tão ansioso quanto seus patrícios na noite de hoje. Em Zenica, a poucos quilômetros da sua Capital outrora sitiada, a Bósnia-Herzegovina enfrenta Portugal pelo segundo jogo da repescagem, podendo ir à Copa do Mundo pela primeira vez. Hoje, as únicas bombas que a cidade verá serão os chutes dos atletas em campo - e eventuais rojões estourados para festejar uma conquista de vaga.

Sentado na frente da tevê, o celista de Sarajevo só quer tocar algo alegre quando o jogo terminar.

* * *

Update da madrugada sobre as repescagens:

- E foi com sons de lamúria, novamente, que terminou a noite em Zenica, Sarajevo, Warrenpoint, ou onde houvesse alguém torcendo pela Bósnia. Faltou força para derrotar o decadente time de Portugal que, apesar dos pesares, conta com o SANTIAGO DO FUTEBOL EUROPEU, Cristiano Ronaldo. Ainda assim, houve festejos em algum canto dos Bálcãs, com o contundente 1 a 0 da ESLOVÊNIA sobre a temida Rússia de Hiddink, Arshavin e todos aqueles lá. Na região, a classificação eslovena soma-se à da Sérvia, que já havia se garantido na Copa durante a fase de grupos das Eliminatórias. Como a Ucrânia imitou os russos e também se foi (0-1 em casa contra a Grécia), o placar final das Eliminatórias foi 2 a 0 para a ex-IUGOSLÁVIA sobre a ex-UNIÃO SOVIÉTICA.

- Os irlandeses pareciam estar movidos a TORRES de cerveja, uísque e todos os fluídos dotados de algum teor mensurável em graus Gay-Lussac. Por isso trituraram a França. Mas nem em COMA alcoólico um vivente deixaria de ver o toque de mão de Thierry Henry, um lance que até o VÔLEI condenaria, como condução. Henry conseguiu estar impedido e estapear a pelota duas vezes na mesma jogada, antes de cruzar pro gol de Gallas, que empatou e sentenciou a repescagem. Roubalheira infernal, como sói acontecer em Copas do Mundo - mas desta vez começaram cedo DEMAIS. Graças ao juiz, a França está com a passagem para a África do Sul na mão, como li por aí

- A esquecida bandeira da Argélia voltará a ser hasteada num estádio de Copa do Mundo, graças à vitória por 1 a 0 sobre o Egito no Sudão, um jogo extra para um confronto que gerou até INCIDENTES DIPLOMÁTICOS e carnificinas nas ruas do Cairo, de Argel, e por outras daquelas cidades do MAGREB. O Egito confirmou novamente que é o ATLÉTICO MINEIRO da África. Os dois são os maiores campeões nos torneios dos seus quintais, mas enquanto um não consegue ganhar um título nacional de forma alguma, o outro é incapaz de conseguir uma puta vaga na Copa do Mundo há vinte anos.

- No Centenário, o Uruguai e Costa Rica não negou o que se considerava definido desde o fim de semana. Valeu pelo gol do Loco Abreu e, depois, pelo peixinho dele próprio dentro da área Celeste, salvando a pátria num momento em que as DONINHAS de Renê Simões acreditaram que podiam remontar um jogo que acabou em 1 a 1.

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