quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

All right in Holy Mary

Durante as últimas semanas, desempenhei uma estranha e silenciosa luta para re-estabelecer meus conceitos do que sou, afinal de contas. E não era viadagem. Precisava afirmar oficialmente qual era a minha nacionalidade.

É estranho que um cidadão com identidade brasileira, título de eleitor, CPF, registro de nascimento feito em consulado, passaporte deixando bem claro que sou brasileiro, etcéteras e etcéteras, esteja nessa situação, mas é o que acontece quando se nasce fora do Brasil. Sim, eu nasci na França – tocam os violinos –, em Montpellier, na madrugada de nevasca de 12 de novembro de 1991. Pelo menos foi o que me contaram. Afora ter que conviver com os incontáveis xenófobos que cruzaram o meu caminho (fala o coitado como se houvesse muitos no Brasil), isso nunca havia me causado maiores problemas.

Até agora. Na semana passada fui cumprir com as minhas estúpidas obrigações enquanto brasileiro e compareci “à Junta Militar mais próxima da sua (no caso, a minha) casa” para fazer o alistamento. Documentos, fotos, mais documentos, e a clássica pergunta: queres servir? E nem venham encher o saco que jamais vão tirar de mim a informação que respondi “não”, porque não quero nostálgicos do DOPS batendo na porta aqui em casa.

A questão é que depois dessa pergunta o processo parou. E não foi pela resposta. O sujeito responsável analisou a minha Certidão de Trasladação de Registro de Nascimento umas oitocentas e quarenta a nove vezes antes de dizer que não sabia o que fazer e me mandar voltar em março. Caso parecido aconteceu quando fui ao tabelionato para obter a Emancipação e descobri que só poderia consegui-la por via judicial. Sim, eu sou brasileiro. Não, eu não sou brasileiro o suficiente para fazer essas coisas básicas que qualquer nativo consegue.

Tal beleza é possível pelo que diz a Constituição no seu Artigo 12, o que trata da nacionalidade, quando fala dos brasileiros natos: pelo texto atual, no meu caso, nascido fora do país e filho de pais brasileiros que não estivessem a serviço da República Federativa do Brasil, só posso optar pela nacionalidade e ser brasileiro nato definitivamente após atingida a maioridade. Feitos os dezoito anos eu nem teria escolha, já que apesar de nascido na França eu não posso ser francês (uma vez que lá vale o sangue, não a terra, e inexistem franceses na minha genealogia), mas neste momento não posso superar entraves desse tipo. Para algumas coisas, seria quase coerente dizer que eu sou “sem nacionalidade”.

E por isso eu tinha um certo receio, ontem, quando fui à UFSM confirmar a minha vaga no curso de jornalismo. Podia ser que não desse em nada, mas eu estar inscrito como brasileiro nato sem ter a certeza de ser também abria chance para problemas. Avisei aos meus amigos que se tudo desse errado surgiriam notícias sobre um estudante ensandecido que pôs fogo na reitoria da universidade.

Já via as reportagens nos jornais: a Zero Hora faria uma matéria ricamente ilustrada sobre o assunto, com vários depoimentos de testemunhas, o Correio do Povo resumiria o acontecimento em meia dúzia de frases, para poupar espaço, enquanto o Diário Gaúcho estamparia, ao lado de um desenho do Napoleão: “ESTUDANTE ATEIA FOGO AO PRÓPRIO CORPO CANTANDO A MARSELHESA – Recorte o cupom acima e troque por um exclusivo canudo lilás”. No dia seguinte a ZH relacionaria o fato de o estudante ser gremista com as tendências incendiárias da torcida tricolor, e na segunda-feira posterior o caderno Meu Filho explicaria como a internet pode gerar jovens violentos.

Todos desinformados. Só o Futebesteirol saberia a verdade. Anteontem, o Iuri chegou a pedir exclusividade: “se for incendiar tudo, por favor, avise. Quero ser o primeiro a cobrir.” Já em Ésse Ême City, comprei os jornais locais que, além de servirem para ler, ajudariam a fazer fogo se fosse necessário. A Razão, que até citou o blog num passado distante, e o Diário de Santa Maria, ambos dividindo o destaque esportivo entre a almejada melhora do Inter-SM no Gauchão e o novo gramado do Riograndense, a ser inaugurado na Segundona.

Fiquei por demais satisfeito ao ver que a estreia do Periquito na segunda divisão, contra o Três Passos, seria em casa no dia 8, portanto já comigo sendo habitante santa-mariense. Mas gostei principalmente de ver o Diário descrever, sem qualquer pudor, o antigo gramado do estádio dos Eucaliptos de Santa Maria como um CAPINZAL. Ah, os capinzais da Segundona. Está na cara que a chance de a grama não estar “fechada” até o dia da estreia (o que mudaria o local ou a data da partida) é um protesto dos céus contra a heresia do Riograndense de replantar toda a relva para favorecer um futebol mais bonito.

Enfim, fora a parte futebolística, o jornal não me animou. Oras, não podia levar a sério uma publicação cujo horóscopo pregava para os do meu signo que “agir com calma é o melhor para hoje”, quando eu estava com impulsos de iniciar uma revolução. Os jornais ficariam bem melhores participando do fogaréu. Guardei-os. E rumo à UFSM, bem no início da tarde – chegar cedo para resolver os incidentes diplomáticos e, se preciso, ter tempo de confeccionar uns coquetéis molotov.

A coisa foi mais rápida do que eu imaginava. Entre o tempo passado à sombra do prédio da reitoria e os minutos claustrofóbicos fazendo fila nos corredores internos, devo ter perdido metade de uma hora, não mais. Tornou-se ainda mais fácil quando pude ultrapassar miles e miles de bixos e usar a curta fila reservada aos que ingressaram via Peies. Três anos de provas, mais de duzentas questões e, no fim, uma redação, deveriam render uma vantagem mesmo, nem que fosse para criar um arremedo de meritocracia.

Superando os demais na fila, agora é que eram elas. Levar os documentos e lidar com as complicações que porventura surgissem. Meu pai, destacado para a campanha a fim de ajudar na argumentação, já que responsável pelo meu registro no Consulado Brasileiro de Marselha, foi impedido de entrar. Oquei, eu podia incendiar o prédio sem ajuda, não seria esse o problema. A simpática moça que me atendeu pegou os documentos, a foto 3x4, olhou para a minha Certidão de Trasladação com uma cara anormal e ali eu previ o pior. Teria que usar a força, não era possível. Teria que queimar até o último tijolo (e tijolos queimam?) daquele prédio. Eu não queria, eu realmente não queria, mas eles estariam pedindo. Querer questionar a minha nacionalidade na minha frente? O meu PATRIOTISMO? Não, não, não, molotov na cabeça deles.

– Tudo certo – disse ela, tirando-me do devaneio revolucionário.
– Tudo certo?
– Tudo certo.
– Obrigado. – agradeci, meio zonzo, muito mais ao Monstro de Espaguete Voador que rege o Universo do que a ela.

Tudo certo. Eu sabia desde o princípio que daria tudo certo. Mas mesmo assim. Tudo certo, caramba! Tudo certo. Não precisei botar fogo em nada, não precisei subir na mesa e chutar os computadores enquanto cantava a Marselhesa, não precisei me acorrentar a um mastro da bandeira do Brasil implorando para ser, que coisa, brasileiro. Tudo certo.

À noite, mais calmo, voltando para Ijuí, procurava alguma rádio para escutar o jogo do Grêmio contra o Xavante pelo Gauchão. Numa clara mostra de que estamos nos entregando pros home, estações paulistas, cariocas e argentinas surravam as gaúchas em qualidade do sinal AM. A certa altura era mais fácil ouvir a prévia da partida do Boca Juniors contra o Cuenca (Boca va por la Copa, la ilusión de su gente), do que o nosso próprio estadual. Mas a Gaúcha finalmente apareceu, em cadeia com alguma interiorana. Instantes antes de a bola rolar no Olímpico, ouvia-se a torcida gremista entoando cânticos louvando Danrlei. Para os que precisamos que as coisas ficassem bem em algum momento, foi emblemático.

E daí que Danrlei é o goleiro titular da pior defesa, em média, do Gauchão 2009? E daí que o pobre Brasil de Pelotas está ameaçadíssimo de rebaixamento um pouco por culpa das suas falhas? E daí que o Grêmio do coração de Danrlei cravou três flechas no coração do Danrlei e venceu por 3 a 0 na noite de ontem, com direito a Órteman marcar gol em chute errado? Lá no fundo, o Danrlei que tristemente decai sabe que, sempre que encontrar um gremista para o qual deu tantos títulos, esse fim de carreira será absolvido – estará tudo certo.

3 comentários:

Maurício Brum disse...

Três primeiras fotos feitas por mim. A outra é roubada do ClicRBS, tirada por Valdir Friolin.

Bocha disse...

Suerte... lindo post amigo... bueno campeon te espero por ABRAN CANCHA...

www.abran-cancha.blogspot.com

Diego disse...

Hahahahaha, seria divertido ver a notícia do Diário Gaúcho.

Apesar de que eu daria pouca importância, já que o Exclusivo Canudo Lílas é muito mais util.

O Monstro de espaguete voador é como o Gudjohnsen, mito.