quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O próximo sol não verá ilusões

A vida é um inferno. Ele se apegou tanto à ideia que não precisa mais formular a frase. É automático, inconsciente. A vida é um inferno. Não é que os dias estejam tediosos ou depressivos ou pesados ou insuportáveis demais. Ele sai com os amigos, ele bebe, ele passa horas lendo seus autores preferidos e vendo séries na tevê. Ele ri. Mas ainda falta algo. E sente como se tudo o que tivesse feito desde o dia em que nasceu fosse uma tentativa de se distrair. Enrolações que não evitaram que sua vida se tornasse infernal.

Faltam cinco para a meia noite e ele rola na cama. Faltarão cinco para as seis e ele, na iminência de ir trabalhar, não terá dormido. A vida é um inferno quando não se dorme, mas é porque a vida é um inferno que ele não adormece – e não o contrário. Fica repassando mentalmente as tentativas, os quases, todas as epopeias que só um sonhador poderia imaginar. Fecha os olhos. Abre de novo. Na escuridão inexiste a diferença. Ele estaria desperto de qualquer jeito. Tomado de fúria, no meio da madrugada, muito depois das cinco para a meia noite e muito antes das cinco para as seis, sairá da cama.

Lembrará das noites mal dormidas de um ano atrás. De quando virou a madrugada acreditando que aquela seria a vez e descobrindo que, como de costume, não era. Solitário na cozinha, o relógio apontando três e tantas da madrugada, observará os azulejos brancos da parede. As caixas de chá sobre um móvel, uma barata que agoniza na pia, as panelas sujas no fogão. Olhará para a geladeira como se pudesse vislumbrar o que há além do metal, conhecedor que é de que não há mais nada alcoólico ali para afogar as mágoas.

E como queria algo alcoólico para esquecer tudo! Esquecer que já entrou na quinta-feira e o trabalho vem feroz com o raiar do sol, sem tomar conhecimento das suas aflições. Esquecer das certezas ungidas sob luas cúmplices que miravam tudo e pareciam aprovar a situação. Esquecer da fé quase fundamentalista de quem fecha os olhos para os sinais e os ouvidos para os alertas alheios e se crê único entendedor de como a vida se encaminha – e está seguro de que ela se encaminha para um desfecho inédito e feliz.

Estava ali, um homem feito, e incorria nos mesmos erros de adolescente. Sonhar demais. O mundo nas mãos. Os planos, as alegrias, as complicações, o cálculo perfeccionista feito no cérebro, e os dias passando sem que algo concreto se formasse para além do seu crânio. Não era justo, Deus, que os outros tivessem o que ele não tinha. Agora haveria de ser a vez dele. De mostrar para todos que também era capaz, e era capaz de mais do que cada um deles.

Praticamente quatro da madrugada. Abrirá a porta e se sentará na escadinha que dá acesso à casa. Contemplará a rua vazia, imensa na sua desolação. O vento carregando alguns copos plásticos que se chocam no meio-fio com um ruído ensurdecedor. Mas talvez seja só para ele. As sensações são potencializadas nessas horas doídas. O negror da noite é capaz de cegar. E o frio, de matar. Os sons perfuram-lhe os tímpanos e os odores, bem, esses preocupam pouco. Em madrugadas nas quais falta ar, o cheiro é secundário. E o homem sufoca nessas noites que precedem um amanhecer sem as ilusões de antes.

Atarantado, voltará para dentro do lar. Desistirá da cama. Concentrar-se-á no sofá. O ponto zero, o mesmo lugar onde, horas antes, as coisas pareciam fluir a contento. Eram instantes em que seus olhos brilhavam. Sim, sim, havia justiça no mundo. Teria aquela por quem investiu tantas horas pensando. Valera a alienação voluntária, a marcha lenta com que levou as semanas anteriores, porque o grande momento para o qual se preparara havia chegado. Aí tomou conhecimento daquele sujeitinho.Edison Méndez, surgirá na sua mente o nome escrito num letreiro de néon. Edison Méndez três vezes. Liga de Quito 5 a 1. E nada de álcool na geladeira para esquecer o nome e os números desgraçados. A vida é um inferno. Serão seis e quinze da manhã quando a esposa sairá da cama, irá para a sala e encontrará o marido sentado no sofá, com o olhar perdido e úmido de quem chorou de amor. Pelo Fluminense. À frente do homem ainda estará a pizza inacabada da noite anterior. Pizza com azeitonas. A essa altura, murchas.

Foto 1: minha
Foto 2: AFP

2 comentários:

SFBr disse...

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Frederico Méndez Wissmann disse...
Este comentário foi removido pelo autor.