sexta-feira, 24 de julho de 2009

“Se eu tô falando é porque aconteceu...”

• Seu Brasiliano mora em Farroupilha. Completou 70 verões em janeiro, e com tanta experiência de vida conheceu diversas realidades do país. Nasceu quando uma ditadura imperava, chegou à adolescência na época em que ela caía, e passou para a idade adulta no momento em que outra ascendia ao poder. Viu esta também ser derrubada. Em 1992, já maduro e de volta à democracia, fez-se o melhor do setor em que trabalhava e foi promovido à primeira divisão da empresa. Estava no auge e cogitou realizar coisas fora do Estado. Não teve força para tanto. Nesses anos todos, assim como a política e a vida cambiavam, Brasiliano assistiu a uma série de moedas entrarem e saírem de cena. Foi guardando exemplares de cada nova denominação. O dinheiro vinha encurtando para seu Brasiliano e, nos últimos dias, já com a memória meio fraca, ele se pôs numa busca desesperada para ver se não encontrava algo valioso nas caixas do porão. Ontem à noite, quando recebia a visita de uns pelotenses, encontrou um PARALELEPÍPEDO de madeira que fazia cling-cling. Encheu-se de esperança, torcendo para que as moedas não fossem velhas, mas, ao retirar a tampa, foi só desolação: elas não valiam mais.

• Começou como uma relação profissional. Ela, alta funcionária de uma empresa envolvida com cerâmica em Gravataí. Ele, empresário em Porto Alegre. Os dois entraram no ramo nesta década, são pouco conhecidos no mercado e têm escassa experiência. Foram se aproximando em convenções neste ano. Primeiro, encontraram-se numa regional, pela proximidade de suas cidades. Poderiam ter se afastado depois, mas, ao contrário, seguiram juntos. Veio um segundo congresso. E um terceiro. E eles sempre juntos. Relutam em afirmar, mas é como se tivesse virado um caso de amor. Haverá uma quarta oportunidade de encontro, e ambos garantem que vão se ver novamente. Os dois querem investir sobre um mercado de elite. Resta saber se o CAPITALISMO SELVAGEM não vai destruir essa união interessante até o fim de agosto.

• Ele passa as tardes sentado na sua cadeira de balanço observando o movimento da avenida, em Pelotas. Seu Lobo está cansado. Cansado dessa vida de sonhar com promoções no emprego e, na última hora, ver outros nomes serem anunciados na tradicional festividade de fim de ano. Não entende o que está errado. Desde que enfrentou violentos problemas de saúde em 2004, seu Lobo foi impedido de atuar no mais alto nível, como estava acostumado. Foi rebaixado de posto. Mas vem investindo com afinco no seu aprimoramento pessoal. Seus companheiros nunca negaram: ano após ano, seu Lobo é sempre apontado como um dos melhores por ali. O que dá errado ele não sabe. Os mais jovens dizem que ele acaba se acomodando com os elogios e é passado pra trás por aqueles que mantêm o nível da produção bem até o fim. Novamente lutando pelo seu sonho de voltar à primeira divisão da fábrica, seu Lobo já esteve melhor. Tem mostrado fadiga nos últimos dias, principalmente porque compromissos inadiáveis surgiram para ESCULHAMBAR sua vida – mesmo que ele não esteja levando muito a sério. Assim, os diretores da empresa deram uma espécie de ultimato: mandaram-lhe trabalho para fazer em casa na próxima segunda-feira, e de acordo com o resultado dirão se Lobo continua pleiteando uma promoção.

• A história de dona Glória, de Vacaria, é triste. É a ELEGIA de alguém que se acostumou com a fartura e acordou sem nada. Invejada do Alegrete longínquo à quase metropolitana São Leopoldo, dona Glória construiu um império. Poderosa, pisava em cima dos que se metiam no seu caminho, acumulando riquezas muito acima do que precisava. Tanta OSTENTAÇÃO cobrou um preço. Recentemente, quando foi a Porto Alegre, uma cigana atacou Glória e maldisse as quinze gerações que lhe precederam e as quinze futuras. CATEGÓRICA, disse que os astros estariam, a partir dali, contra os seus interesses. Dona Glória não levou a sério. Achou que o pequeno revés daquele dia significava pouco, mas logo percebeu o engano. Erguida sobre ações de alto risco, sua fortuna podia sumir a qualquer momento. Na verdade, tudo o que ela conquistara até ali, seus impressionantes BALANCETES, valiam pouco nesses tempos de crise, e bastou um dia de infelicidade EXTREMA para as ações caírem próximas a zero. Dona Glória ficou devendo. Poucos dias depois, o que restava da sua riqueza foi tirada pelos juízes. Constrangida, ela saiu do mercado antes do planejado. Deve ficar no ostracismo pelo menos até o ano que vem.

• Peri, Quito para os amigos, é um cidadão santa-mariense conhecido pela insistência. Tinha um bom emprego na ferrovia, podia fazer coisas que poucos conseguiam, vivia no CONFORTO. No entanto, assim como a era dos trens passou, os tempos felizes de seu Peri, o Quito, desapareceram. As pessoas não sabiam direito o que se fizera dele. Na cidade, subiam no ar comentários sobre dificuldades financeiras. Dizia-se que o velho ferroviário preferira “tirar licença” da vida social. Ficou décadas recluso. Quando reapareceu, estava mudado. Humilde. Empobrecido, tentou manter dignidade pela discrição. Sem sucesso. Aqueles sobre os quais ele tripudiara quando estava bem agora queriam vingança, e até os que nada tinham a ver com a história tentavam tirar uma casquinha. Passou por humilhações terríveis. Mas a sombra dos eucaliptos parece ter feito bem para ESPAIRECER. Seu Peri, Quito, recobrou parte do velho ânimo e moral, e já sonha em voltar à FARTURA de outrora. Suas horas ainda são assombradas por fantasmas, mas uma macumbeira local receitou um ritual infalível: enterrar as cinzas de um morto na tarde da segunda-feira. “É tiro e queda”, garante.

• Os amigos alertavam. Diziam que ele estava se arriscando excessivamente, que devia se cuidar. Mas T.A.C. (a família pediu anonimato) não dedicou atenção a ninguém. Queria AVENTURAS e SENSAÇÕES. Fazia coisas pouco recomendáveis. Visitava lugares perigosos, metia-se em peleias com valentões do dobro do seu tamanho. Talvez drogado, ficou se sentindo imparável. Estava vivo, não estava? Nessas andanças apanhou muito, mas também bateu. Certa vez, em Santa Maria, encheu de SOPAPOS o grandão que cruzou seu caminho. Cheio de si, fez pouco dos conselhos de quem dizia que estava passando dos limites. Carregava um CANTIL repleto de líquidos misteriosos e respondia que eles não sabiam de nada. T.A.C. acreditou que poderia seguir levando aquela vida. Brincou com fogo e provocou um trio VIGOROSO. Foi impiedosamente surrado até a morte. Os amigos concordavam: havia ido longe demais.

• Panambi tem algumas alcunhas e uma delas e á de Cidade das Máquinas. Neste ano construíram por lá uma ENGENHOCA que nem a mente inventiva de Júlio Verne seria capaz de idealizar. Mesclaram algumas peças já utilizadas com sucesso em máquinas da região e outras desconhecidas, mas de eficiência absurda. Os engenheiros panambienses não tinham muita certeza do que estavam fazendo, até descobrirem em suas mãos algo parecido com um TRITURADOR. Só que as engrenagens começam a ranger de forma preocupante, o motor tem soltado umas fumaças que são pura INQUIETUDE e não se sabe se é uma mera falta de graxa ou problemas mais graves. Todo o engenho será transportado para Pelotas, onde se descobrirá o que pode ser feito. Os mais pessimistas falam num desmanche total após essa VISTORIA.

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INFAME, assim caminha a Segundona a uma rodada do quadrangular final. Mas nada que supere ler que Juba faz gols pelo Riograndense e Bonaldi marca pelo Panambi.

3 comentários:

oprs disse...

Ótimo!!

Gabriel disse...

Baita texto, muito bom mesmo.

Yuri disse...

MUITO BOM hahahaha
Clic rbs é o caralho, futebesteirol neles! AHAHAHA