segunda-feira, 1 de junho de 2009

Onde cuscos rengueiam e torcedores não largam o osso

Instante do gol do Panambi

Alguns trajavam palas, botas e bombachas. Quase todos vestiam também, provavelmente, CEROULAS ocultas. Outros demoraram a ter certeza se haviam feito a coisa certa naquela tarde fria de domingo. Em voz alta, lembravam que, em casa, poderiam ficar na frente de um “fogão de lenha” quentinho, mateando REFESTELADOS num sofá macio. Mas não. Estavam ali, em pé sobre arquibancadas molhadas e descobertas, encharcados até o fundo do espírito pela chuva que os céus mandavam desde sexta-feira e que se tornava ainda mais fria pelo poder do vento incessante. Não eram dois ou três, esses loucos: tratavam-se de dezenas, por certo mais de uma centena, fazendo pouco do inverno que se avizinha, só para ver Panambi e Aimoré.

Só?

Após rodadas de empenhadas peleias para dar à Segundona uma cara de Segundona, o tempo deixou de ser TRATANTE e resolveu fazer a sua parte. Após rodadas de empenhadas peleias para passar de fase, os dois times estreavam na segunda etapa do certame. O frio de renguear cusco e a chuva assustam muitos torcedores, sempre deixam os FEITOS DE AÇÚCAR em casa, e causaram a capitulação de alguns. Soldados caídos antes mesmo da primeira batalha nessa fase tão mais importante do campeonato, um hexagonal ao qual só sobrevivem dois com certeza e talvez um terceiro por índice técnico. Os que não cederam às intempéries resistiram por catar no ar a importância de um jogo que abria uma série de cinco em casa nesta fase. Não era preciso GENIALIDADE ARITMÉTICA para concluir que, quanto menos jogos por disputar, maior o peso dos pontos perdidos dentro do seu próprio estádio.

No entanto, de São Leopoldo também vinha uma massa insana, de nome bem apropriado, os Índios Loucos da Geral. Famintos por vitórias neste que é apenas o quarto ano do tradicional clube após retomar o profissionalismo, sabedores do que há no outro lado do NÍQUEL: pontos ganhos fora em tão poucas partidas são igualmente decisivos. Ou “ponto”, no singular, pois se o Aimoré mudou de uniforme no intervalo, indo das listras horizontais azuis e brancas para um azulão completo, a dedicação por não mais que uma unidade foi a mesma desde o início. Com os vinte jogadores de linha sendo GUAPOS o suficiente para usar mangas curtas – uns poucos quiseram luvas –, e um campo que se sustentou sem poças apesar de bastante molhado, o primeiro tempo foi de lances raros.

Raro. [Do lat. raru] Adj. 1. De que há pouco, que não abunda. 2. Que é pouco frequente, incomum, invulgar, extraordinário. (...)

Lances escassos, portanto, e não belos, como se costuma interpretar quando se fala da raridade de uma jogada tal. A melhor oportunidade da metade inicial do confronto ocorreu aos 12 minutos, numa sequência de duas defesas feitas pelo arqueiro do Aimoré, Sandro Rodrigo ISLABÃO, a segunda delas deitado. Começaram a sumir a partir daí, as chances, muito porque os leopoldenses passaram a equilibrar o confronto. Marcando mais à frente, os companheiros do capitão BICUDO contiveram as chegadas do Panambi – mas sem se animar a ir demais ao ataque. Naquela hora, com a GAROA inundando as partes descobertas do corpo e a BRISA SUAVE gelando as orelhas inocentemente deixadas AO LÉU, muitos torcedores maldiziam sua escolha de sair de casa para ver um zero a zero eternizado no placar do meio-tempo.

Pelo início da segunda parte a chuva parou. O horizonte seguia negro, prenunciando coisas GRAÚDAS e violentas, mas aparentemente só para depois do jogo. O mau-humor que o tempo não poderia mais causar foi recuperado pela jogada fortuita que culminou no inesperado gol do Aimoré, aos 61 minutos. Os panambienses tiveram ganas de destruir o mundo a BOMBARDEAMENTO no instante em que perceberam que aquele pelotaço de Flaviano, mandado da direita, dentro da área, que visto de longe parecia ter sido defendido pelo goleiro, teve nas redes sua parada final. Panambi 0-1 Aimoré não era um placar justo. E o futebol nunca foi justo, sabemos todos, mas com o fator local e o muito tempo pela frente algo haveria de acontecer.

O “algo” tardou três minutos. Ainda que o documento do jogo diga que o tento do Aimoré tenha acontecido aos 58 e o do Panambi aos 67, uma diferença de quase dez minutos, uma cronometragem CONSCIENTE mostra que Flaviano encontrou as redes aos 61 e, logo em seguida, aos 64, Flávio subiu junto com o goleiro visitante para desviar um cruzamento e fazer o 1 a 1 para os locais. Mas não exijamos demais de um árbitro que deveria estar com CRONÔMETROS DESREGULADOS ou recém-saído de uma NOITE MAL DORMIDA, que lhe tolhera a capacidade de entender o passar do tempo. O possível drama pessoal do apitador – ou ruindade, ou coisa pior, mas fiquemos com o drama – foi deixado claro pela cera do goleiro Sandro após o empate: só no tempo que o camisa 1 do Aimoré matou, o jogo perdeu praticamente cinco minutos. E ainda houve cartões, comemorações e seis substituições. No fim, porém, um TRANSTORNADO Paulo Ricardo Rosa dos Santos pediria somente quatro de acréscimo.

Numa pintura encimada por um céu GRIS, o Panambi, entusiasmado após o gol, foi para a frente. Chegou a virar a partida, mas a bola foi chutada à meta depois de o jogo já estar parado por uma infração qualquer de ataque. Acabou arrefecendo. Nos RESUMIDOS acréscimos pedidos pelo senhor juiz, sofria com umas últimas investidas do time de São Leopoldo, e em meio a isso o autor do gol Flávio deu uma patada, levou o segundo amarelo e saiu expulso. O cartão vermelho foi o derradeiro detalhe numa tarde típica de Segundona, de futebol guerreado por menos qualidade que tivesse, passando por um tempo AMENO e um árbitro de qualidade discutível.

Os Índios Loucos voltaram pra casa satisfeitos com um ponto válido. Os panambienses só tiveram o consolo de curtir o fim da noite perto da chapa quente do fogão a lenha, cevando o mate com a cabeça doída pelas preocupações dos confrontos futuros. Mas não vão deixar de roer o osso da esperança por um jogo. Querem estar no estádio até a última rodada, mesmo com ICEBERGS despencando sobre as suas cabeças. E querem que a última rodada seja não uma de eliminação, mas a de algo bom lá no quadrangular final.

3 comentários:

oprs disse...

Hey Maurício! O que vou te pedir não tem a ver com o post, mas como não achei teu email...

Em resposta a um "anônimo" no post polêmico sobre a Ser Panambi, tu comentaste em uma final de segundonda de 1990 entre São Luíz e Associação Santa Bárbara. Poderia fazer um post a respeito, que achas? Abraço.

Maurício Brum disse...

Pode ter certeza que o projeto que mais me encanta, há cerca de um ano, é fazer um post sobre aquele jogo. Infelizmente são pouquíssimas pessoas que preservam a memória de episódios assim, e até pela falta de tempo não pude fazer as devidas pesquisas para avançar nesse período. Nos últimos dois meses, porém, venho levantando materiais bastante raros sobre aquela época. Quero resgatar toda a história (há pelo menos três versões para o que aconteceu naquele dia), então não vou me precipitar. O plano é concluir tudo até o fim de julho, e aí sim fazer um post digno. Abraço

Luis Fernando Bavaresco disse...

Eu era um dos ínsanos torcedores do Aimoré.....740 km entre ida e volta só para ver o Aimoré jogar.

é difícil mas vamos tentar o acesso até o fim.