quarta-feira, 18 de março de 2009

As ciganas, essas confiáveis

Uma cigana louca jogou as cartas
E me disse que o Grêmio vai sair campeão
(Geral do Grêmio)

Um último pendão de misticismo no meio das caixas de concreto erguidas ao seu redor, ladeada pela rua repleta de carros no início da tarde, a cigana, que passa lá o dia inteiro, aborda as pessoas na calçada. Olha aqueles com a cara mais inocente e influenciável e investe neles alguns minutos do seu ofício. Dá uma pedrinha para o cidadão segurar, começa a fazer perguntas, abre a conversa com a fala lenta e calma. Tem todos os minutos do mundo para convencer alguém do que diz.

E ninguém se convence. Ou quase ninguém. As pessoas não acreditam mais em ciganas, ou nunca acreditaram, e assim a maioria passa reto. Eu, não. Eu parei. Eu também não me convenço. Não acredito nas ciganas, nos videntes, não acredito nos que prometem felicidade brotada do vazio ou sorte surgida ao acaso, não acredito em religiosos ou divindades, com exceção do macarrão flutuante que rege o universo. A única mística que compõe os meus dias é a aura copeira dos grandes times de futebol. E já é difícil o bastante compreendê-la. Por que parei? Porque queria ver no que aquilo ia dar.

A criança cresce ouvindo que o fogo queima, mas se não puder comprovar isso, chegará a um dia em que acabará se queimando. Eu precisava ver as táticas da cigana. Não queria ouvir sobre o meu futuro, contar meus problemas, pinçar naquela fala meio castelhana uma solução para os mais diversos dilemas existenciais. Nem mesmo queria que ela me consolasse por descobrir hoje que heróico perde o acento mas destróier continua com ele, num absurdo da nossa cada-dia-mais-decepcionante Reforma “SIMPLIFICADORA”.

Estava óbvio que aquilo custaria algumas moedinhas, supus. Mas umas moedinhas valiam pela experiência. Começou o procedimento padrão. Parecendo mui instruída e reveladora sobre aspectos da minha vida, enganando-me facilmente se eu não estivesse sentado sobre a alta colina do ceticismo, ela provavelmente chutou oitenta coisas diferentes para acertar meia dúzia. Mas é sempre essa meia dúzia que impressiona e rende as perguntas seguintes. Claro, pois a cigana percebe. Como um centroavante matador, observa bem, arrisca com rapidez e, se necessário, muda de ideia para surpreender.

Em trinta segundos ela já dizia “tu és um cara fechado, acertei?” De deixar boquiaberto que, ao ver que eu não respondia a NENHUMA das perguntas, ela tenha concluído isso. Abaixei-me para recolher os dentes quebrados no momento em que o queixo bateu no chão. Uma outra cigana assistia a tudo ali perto, enquanto as questões se seguiam:

– Conta as tuas preocupações, não tem medo.
– Eu não tenho nada na cabeça agora.
– Fala dos teus problemas. Eu vou fazer teus estudos darem certo, tu ter sorte no amor, tu ter sorte em tudo. Tem alguém que tu ama? Ela tá longe? Conta pra mim.

Se as pessoas que passavam apressadas pela calçada dedicassem cinco minutos para ver a cena, teriam alegrado o seu dia com o ridículo. Às minhas custas. Mas a minha contribuição ao humor popular foi inútil: todos corriam. E eu não respondia. Grunhia. Dava algumas indicações vagas. Não revelaria coisas em pleno centro de Santa Maria quando era EVIDENTE que ela lia meus pensamentos. A segunda cigana veio. Estava formada a quadrilha. Avisei que estava com pressa. A primeira cigana se afastou e deixou o “cara fechado” e difícil para a mais velha. Antes de sair, porém, avisou para eu apostar no número 027 no jogo do bicho, enquanto a companheira já se empenhava em me fazer justificar a cara de sonso que elas vislumbraram.

Disse que o um real que eu tinha não bastava e pediu uma nota. Certo de que não tinha mais que dois reais no bolso, abri-o. Não costumo carregar notas altas no bolso. Desta vez, estranhamente, saiu dali um desgraçado de um mico-leão-dourado. Talvez a cigana estivesse certa quando falava da minha necessidade de sorte. Pegou os vinte reais e tranquilizou: “não vou te roubar”. Sei, sei. Dobrou os vinte reais e entregou outra daquelas coisas supostamente poderosas que elas dão aos patos. Agora, exigia que aqueles vinte reais fossem ofertados de “bom coração”.

Oquei, bom coração. Mais Suplicy way of life que aquele não havia. Relaxar e gozar, tá certo, vamos em frente. O som da rua já era secundário, o movimento de abertura da tarde fazia-se irrelevante, pois ali na minha frente estava uma representante do Monstro de Espaguete Voador na terra, uma conhecedora dos segredos humanos mais profundos, uma MÍSTICA DE RESPEITO. Ela fez gestos obscuros, falou palavras menos compreensíveis e continuou com mais perguntas. Os céus deviam estar todos fechados e um único feixe de luz vinha exatamente sobre ela, a Iluminada, que não temia os questionamentos mais relevantes e diretos:

– Tem alguma guria que tu quer FODER? Conta pra mim.

Uma pessoa decente teria desistido da conversa aí. Vai ver eu não sou decente. Quis ir adiante, segurei o riso. E os vinte reais dobrados na mão dela. Já passava pela minha cabeça que em algum momento eu seria mandado fechar os olhos e então a nota misteriosamente sumiria, “tragada pelos céus”. Considerando essa hipótese, tivesse um espelho ali na frente, eu veria o mais previdente dos homens. Que ingenuidade.

Com a mesma sutileza usada para fazer as perguntas, ela calmamente desdobrou a cédula e se botou a RASGÁ-LA. Um, dois, três, quatro, cinco, muitos pedacinhos. VINTE REAIS RASGADOS NA MINHA FRENTE. VINTE REAIS MEUS. Considerando o animal estampado na nota amarela, eu fui o retrato vivo de alguém que PAGA MICO. Com vinte reais eu poderia comprar quase três cervejas irlandesas, entraria duas vezes na geral do 19 de Outubro, iria a quatro jogos do Riograndense pela Segundona. Com vinte reais eu almoçaria bem por dois ou três dias, compraria mais de uma revista e até um livro curto. Pagaria um terço das passagens de Santa Maria até São José do Ouro, por exemplo. E ela rasgava. Teria sido mais edificante levar uma arma na cabeça e ter o dinheiro roubado.

– Vão te fazer falta esses vinte reais? – Ainda ouvi, depois, enquanto ela guardava os fragmentos da nota para “botar nos pés da santa”, termo castelhano para “grudar com cuspe em casa”.

Não, não farão falta. Estudante é tudo rico. Amanhã o cara sem vinte reais vai deixar de comer não pela falta de dinheiro, mas em protesto contra a própria burrice. Até porque em breve ganhará muito jogando no bicho e lembrará eternamente do nome da cigana, que agora escapa da memória. Ainda fica uma dúvida sobre por que ela sugeriu o número 425, quando a outra afirmou que o 027 seria o vencedor, mas está óbvio que isso é frescura. Pessoas que rasgam vinte reais na rua são perfeitamente normais e confiáveis. Os problemáticos são os que perdem essa quantia. Vinte reais, o que custou encontrar um tema para esse texto.

Para contrariar a música, a cigana não leu as cartas - mas disse que o Grêmio vai sair campeão com Celso Roth. Os gremistas já compram os rojões para a final da Libertadores.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sensacional a história jaja

Diego disse...

Brum não acredita nas ciganas...

Hahahaha, pobre mortal.

Diego disse...

Agora eu me pergunto, como o infeliz carrega vinte pilas nos bolsos...

Vou assaltá-lo quando ele vir a Porto Alegre, ele estará carregando notas de cem [/mau]

Laura disse...

Ciganas são mui sábias. ou não! ahahah