segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A ilusão num estádio ondulante

PORTO ALEGRE – Ô Simon fiadapulta! – Gritou um gremista das cadeiras centrais do Olímpico, pelo fim da tarde de ontem. Não era uma injúria destinada ao gramado. O torcedor em questão, assim como muitas dezenas de companheiros ao seu redor, estava de costas para o campo, onde ainda não havia jogo, e olhava para cima, tentando observar a TV de um camarote. Nela, o São Paulo, líder e maior adversário do Grêmio no momento, vencia o Figueirense por 2 a 1 e era pressionado – mas Simon marcava tudo contra os catarinenses e insistia em não dar cartões para os são-paulinos quando tinha a oportunidade. Um fiadapulta, concordavam os outros torcedores.

E mesmo que a arbitragem estivesse sendo agradável aos tricolores gaúchos, seria bem possível que, àquela altura, o xingamento ao árbitro não-muito-querido-pelos-gremistas fosse mantido. Assistir ao embate do São Paulo, com seu resultado ruim para os sonhos dos presentes no Monumental, era parte do imenso prólogo da partida de domingo. Antes, haviam passado duas horas fazendo fila, esperando a abertura dos portões – uma exigência de um sistema de ingressos como o brasileiro, que garante a entrada mas não um bom lugar no estádio, uma vez que não há numeração –, para então, acomodados, esperarem outras duas horas até o apito inicial.

Esse segundo par de horas transcorreu com vibrações pelos golos do Figueira e, a princípio estranhamente, do Flamengo. Secavam o Palmeiras, os gremistas, e felizes ficaram com os 5 a 2 impostos pelo time carioca ao quadro alviverde. A outra partida, no entanto, tinha um Simon enjoado e um Figueirense incapaz de transformar seu volume de jogo em gols. Logo o São Paulo faria 3 a 1, os ocupantes das cadeiras desistiriam de olhar para a TV do camarote, e dois consensos baixariam sobre o estádio: agora era concentrar no jogo contra o Coritiba e, na próxima rodada, ficar nas mãos do Vasco.

Concentrados para o jogo contra o Coritiba, os mais de 43 mil espectadores encararam com raiva os primeiros minutos após as 19:10, quando o apito inicial foi dado. Porque se Tcheco havia dito sobre o Coxa, antes de entrar em campo, que “esses caras não vão passar do meio”, o time paranaense começou com essa idéia. Botava os onze atrás da linha central e nada, nada, nada mudava a sua disposição. Bem verdade que ao Grêmio escasseou criatividade: o time ficava tocando a bola na defesa enquanto o ataque permanecia imóvel, sem criar espaços.

Irritava, sim, e alguns até ensaiaram vaias. A Geral seguia cantando, num ritmo, contudo, lento. Muitos nas cadeiras reclamavam de sonolência. Foi assim, num despertar brusco de sono, que saiu o primeiro gol do Grêmio. Naqueles momentos em que se acorda de repente, num sobressalto, e não se sabe onde está, quem se é, não se sabe nem mesmo se se está vivo, e a seguir todas essas informações vêm a mente num fluxo incontrolável como a arrancada de Tcheco desde a parte central do gramado até os arredores da grande área curitibana. Um pouquinho de velocidade que faltava, o tanto de iniciativa que não viera, no seu chute, e a dose de sorte necessária, no desvio da zaga para matar o goleiro Vanderlei, um a zero no placar.

E nas cadeiras, nos camarotes, nas arquibancadas e na Geral, fim do sono. Lamentável que dentro de campo aquele acordar abrupto tenha sido apenas uma abertura de olhos preguiçosa, que logo deu em novo cochilo. O Grêmio voltou a ser lento, a criar pouco. Era soberano na partida, não sofria maiores ameaças do Coritiba – ao menos não maiores que as suas poucas próprias –, mas passava longe de dobrar a diferença. Souza, na lateral, jogou uma bola deprimente ao ponto de, no intervalo, quando ex-jogadores estrangeiros do clube desfilavam pela pista atlética, um torcedor pedir para que ele fosse substituído pelo Arce. O ataque gremista, com Reinaldo e, principalmente, Marcel, portou-se com tal ineficiência que, no segundo tempo, Celso Roth sacou a dupla de uma só vez, dando chance a André Luís e Morales. Ainda que ambos tenham sido um acréscimo técnico nulo (o pouco que Morales tem de melhor em relação a Marcel não era páreo para o muito que André Luís tem de pior em relação a Reinaldo), a troca dos referenciais pareceu dar novo ímpeto à equipe.

Nessa era de ataques repetidos da metade final do confronto, surgiu uma falta próxima à área paranaense. Uma bola levantada na área. Cabeceada muitas vezes, chutada outras tantas, perdida, reencontrada, sempre com domínio do Grêmio. Até que sobrou nos pés do bandoleiro Héverton para, pelo lado esquerdo, dentro da grande área, bater cruzado. Alê, um pouco à frente da linha fatal, tentou afastar e acabou desviando contra o patrimônio, fazendo 2 a 0 aos 76 minutos. No placar eletrônico, o gol foi creditado ao zagueiro gremista (vídeo abaixo). A partir daí, o Olímpico deixou de ser uma arena desportiva para balançar dotado de vida. Sob cantorias e pulos generalizados, o concreto do Monumental literalmente ondulava.

O que veio depois, a expulsão do coxa-branca Marcos Tamandaré, o gol de Ariel descontando para o Coritiba aos 90+1, a briga de “gremistas” contra “gremistas” na saída do estádio (a Geral e a Máfia, segundo comentaram), nada mais foi absorvido conscientemente pelos presentes. Embriagados pela ilusão e pelas cervejas consumidas antes de entrar no estádio, os torcedores de verdade não queriam a razão ou outros fatos. Contentavam-se em berrar que o Grêmio sairá campeão e assim foram noite adentro.

Um comentário:

Milton disse...

Que campeonato animal! So o que me falta eh o Gremio ser campeao... essa partida contra o vitoria sera a mais complicada dos 3, porque uma derrota acaba com a chance de titulo. Entretanto, uma vitoria nos garante uma vantagem sobre o Sao Paulo na rodada final, quando eles jogam fora de casa enquanto enfrentamos o Atletico em casa. De nada adianta empatar com o Vitoria - tal resultado, mesmo com uma derrota do sao paulo, nao muda em nada a situacao na competicao. So a vitoria nos interessa... Vamos Gremio!!!