segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Cartinhas

Porto Alegre, 1º de novembro de 2008.

Minha linda,

Tu não deves lembrar a primeira vez em que nos vimos, mas na minha memória tudo aquilo vem com tonalidade viva. Parecias só mais uma, outra que viria e sumiria de modo efêmero. A maioria havia sido assim. Descobri depois: tu não. Logo demonstraste ser rara, especial. Contigo, os cortejos eram mais longos; por ti, a aspiração demorava grandes períodos até dar resultados. O caminho era tortuoso e a concorrência ferrenha. Dos muitos que te quiseram, poucos foram capazes de obter uma recíproca.

Pois te conquistar também não era tão simples como as outras. Era preciso planejar, saber o que fazer na hora certa. Eu consegui te merecer. Ah, sim, te mereci! E aqueles dias em que te tive foram dos mais belos. Maravilhosas jornadas de realização. Mas tu sabes como eu era. Julgava-me capaz de tudo, mesmo fracassando várias vezes, e da minha força fiz prepotência. O tempo desgraçadamente passou com sucessos rareando. Tu me abandonaste. E eu mergulhei numa era de melancolia.

Enquanto tu te fazias cada vez mais difícil, preferindo ver teus pretendentes brigarem todos contra todos num ciclo interminável ao invés dos antigos duelos mano a mano, eu ia à ruína. Nessa época, peregrinei por campinas arrasadas, sem muita esperança. O que mais ouvia era que o meu fim chegara inapelavelmente. Que eu poderia sair da depressão, mas nunca mais seria o mesmo. Doeu. Conheci aqueles que realmente estavam dispostos a me apoiar e os que só se aproveitavam da minha moral construída anteriormente. Aprendi a ser humilde. Porém nunca deixei de seguir a minha velha doutrina de passar por cada experiência com intensidade e lutei com forças absurdas para conquistar quem não valia metade do que tu vales.

Não tive vergonha, na época, mas é óbvio que isso me impediu de ter aquele orgulho de outrora. A ti eu olhava e sentia temor, sentia que não eras mais para mim. Até agora. Creio que chegou o momento de abandonar essa capa de mediocridade, que chegou a hora de realizar e voltar a viver aqueles dias magníficos. Tu tens que ter percebido o quanto eu evoluí e o quanto eu me esforcei nos últimos tempos para poder voltar a ser digno de estar ao teu lado. O problema é esse trajeto ser demasiadamente longo. Eu estou cansado de lutar às cegas, eu estou pressionado pelo temor do ridículo.

Continuo querendo que tu voltes a ser minha, mas preciso ter algum sinal de que um esforço extra não será em vão. É por isso que pergunto, a cada dia de angústia: quais são as minhas chances? E de ti só peço a resposta.

Com desejos eternos,
Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

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02/11/2008

Santos 1-2 Palmeiras
Grêmio 1-1 Figueirense
São Paulo 3-0 Internacional

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Morumbi, São Paulo, 3 de novembro de 2008.

Meu caro,

Em respeito a ti, pararei de esconder a verdade. Você caiu no meu jogo o ano inteiro! Os seus cortejos eu notei, claro, e em alguns momentos eles pareciam ter a alma que você punha em outros tempos, mas aos poucos o que era real foi aparecendo – e a situação continuou na minha mão.

Passei esse tempo todo testando e vendo até onde você era capaz de ir. Queria ver se a sua recuperação permitia ousadias maiores do que as que vinha mostrando desde o seu retorno. A resposta a essa dúvida esteve a ponto de ser afirmativa. Mas você falhou. Antes, ia adiante para o que desse e viesse, não tremia, não transparecia preocupações. Se havia dificuldade, você tentava superar. Se fracassava, impedia que a frustração alterasse a sua face arrogante.

Não que a arrogância seja boa, mas é melhor que pareças confiante do que deixes evidente que és um fraco. E é isso que posso dizer do que vi: és um fraco. Fraquejas na hora em que isso não se permite, jogas fora tudo o que foi construído até aqui. Sei dos seus problemas financeiros, da sua moral abalada, mas até um certo ponto isso foi motivo de admiração. Até o ponto em que você mostrou ser mais um comum, incapaz de contornar o complicado até o fim. As suas chances foram reduzidas aí.

Digo que me comove – muito – a tua capacidade de sonhar nessas condições. Isso foi suficiente para conseguir uma proximidade amistosa. Mas pára aí. A sua força de outros tempos não tem surgido na hora em que precisas dela. A sua atitude não existe mais! E não há como alguém me conquistar sem o espírito que sempre me encantou. Uma resposta assim fere, eu sei, mas acredite: eu quero o melhor para ti! Quero que use a experiência negativa como lição para evitar outros erros. O seu “eu” antigo saberia o que fazer. Se agora és incapaz, bom, aí confirmas um posto entre os medíocres e não mereces mais mesmo.

No mais, lembra daquela minha amiga francesa? Pois ela foi para Lyon há sete anos e não há quem consiga tirá-la de lá. Acho que vou seguir o exemplo dela... Estou muito feliz no estado de São Paulo, pra onde vim na época em que a tua vida começou a se desgraçar, em 2004. Não pretendo sair daqui tão cedo.

Sua amiga,
A Taça do Brasileirão.

3 comentários:

Luciano Zanuz disse...

Texto muito bom, parabéns!

Gustavo disse...

GENIA-U
Parabéns.

Leonardo Walter disse...

Excepcional.

Estás apaixonado autor?