quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Canções para um velho Gaúcho

Reportagem: Iuri Müller e Maurício Brum
Texto: Maurício Brum

“O que vocês querem com o Gaúcho? O clube está morto!”. Do outro lado da linha, em alguma redação passo-fundense, não foi com palavras medidas por pena que o jornalista daquelas bandas disse isso. Falou com a naturalidade de quem chega estapeando um balcão de bolicho e pede o de sempre. O passo-fundense deve ter até se indignado ao ver que alguém levava a sério os projetos de retorno de um clube sem estádio e com o departamento de futebol fechado. Pois levamos. E o mais importante: contra a POUCA FÉ dos periódicos locais, o Gaúcho acredita nos seus próprios planos.

Em 2010, o Sport Club Gaúcho dará início ao seu ainda pouco divulgado sonho de retorno. Com seu patrimônio em mãos alheias, sem saber se recuperará, o Periquito do Boqueirão surgirá nas tabelas da Segundona. “Só não voltamos se acontecer um desastre”, afirma Rudimar Pedro, um dos maiores articuladores do regresso. O dirigente, que dedica suas horas no comando do clube há mais de duas décadas, com curtos intervalos, conviveu com o último fundador do Gaúcho vivo. Ouviu e, depois, viu as ricas histórias que fizeram sua ligação com o time se estreitar.

Quando encontrar
Nos atalhos desta pampa
Tropas vendidas,
Seduzidas por vinténs,

Lembra guri:

Nem que o mundo venha a baixo,

Jamais entregues

A querência pra ninguém [1]

Aquele Gaúcho fundado em 1918. O primeiro quadro a aceitar negros em Passo Fundo. O mais querido da cidade. O clube que jogou por vinte anos no campinho da Montanha, passou outros vinte noutra praça e, num esforço coletivo, retornou em 1958 ao terreno original para erguer seu templo, o Estádio Wolmar Salton. O Gaúcho dos irmãos Daison e João Pontes, a dupla defensiva mais violenta – leia-se gloriosa – que já pisoteou essas coxilhas. O time em que Bebeto, o Canhão da Serra, se fez rei e empilhou gols até quase os quarenta anos de idade. O primeiro clube do Norte gaúcho a atuar na elite do campeonato estadual na era moderna – e na antiga. O tricampeão da Segundona, dono das taças de 1966, 1977 e 1986.

Esse clube já havia sentido a dor do sumiço uma vez, quando ficou nove temporadas licenciado, ao longo da década passada. O retorno aconteceu em 2000, com Rudimar Pedro na vice-presidência de futebol e um projeto de longo prazo: a ideia era ascender à primeira divisão só pela metade do decênio. Dito e feito. Depois de armar um time suficientemente bom em 2004, que chegou ao vice-campeonato da Copa RS, o Gaúcho viveu um luminoso 2005, quando Rudimar já era presidente. Naquele ano, o alviverde fez sua única participação em um torneio nacional, a Série C do Brasileiro, e subiu para a divisão principal do Estado ao lado do São Luiz de Ijuí.

Por isso, quando se encontra
No espelho fundo de si
Ouve o tempo debochando
Bem-te-vi
Já te vi bem
Já te vi bem
Bem-te-vi [2]

O período farto foi a grande chance não aproveitada pelo clube, na opinião de Rudimar, que se afastou junto com outros diretores após a campanha honrosa na elite em 2006. Os comandantes do Gaúcho na temporada seguinte, uns “despreparados”, desgraçaram todo o trabalho feito pelos antecessores. Um aproveitamento inferior a quinze por cento rebaixou o Periquito no primeiro semestre de 2007. Mas a verdadeira catástrofe ocorreria na parte final do ano. Incapaz de arcar com as dívidas de indenização a um jovem que ficara tetraplégico após um acidente nas piscinas do clube em 1996, o Gaúcho foi obrigado pela Justiça a leiloar o Estádio Wolmar Salton para obter os fundos.

A própria família do jovem adquiriu o estádio. Queria revendê-lo imediatamente para a Wal Mart, essa FIRMA com COMPULSÃO por acabar com antigos campos de futebol. No entanto, uma medida tomada pela Prefeitura um dia antes do leilão não deixou o negócio ir adiante: o Wolmar Salton havia sido tombado como patrimônio de Passo Fundo. Enquanto se tentava definir o que era estádio e o que não era – ou o que estaria protegido e o que poderia ser demolido –, a Wal Mart anunciou que só adquiria o terreno se fosse a área inteira. O Gaúcho tentou reverter o leilão. Os compradores, o tombamento. A causa do clube é defendida por advogados que trabalham de graça, e o BRUXULEIO nos tribunais segue até hoje. Como resultado, o fim do profissionalismo alviverde.

Só restou desta lenta agonia
Distorcidas e mortas visões
Das peleias, teatro e poesia
E os arpejos de tristes violões [3]

Como disse o desinteressado repórter passo-fundense, aquele Gaúcho estava mesmo morto. Abandonado, o decadente estádio era a imagem sem necessidade de legendas, a bem-pintada AQUARELA de um clube tradicional caído. Paredes sujas, marcadas por PICUMÃ, velhos escritórios invadidos por sem-tetos atrás de abrigo. O gramado alto, sem ver um corte há tempos, e os cantos onde houvera marca de cal tomados por uns capins cuja vontade explícita era a de serem CAPÕES. Recentemente, denunciaram os jornais, pedaços do Wolmar Salton estariam sendo surrupiados por dependentes químicos que veriam nos metais e nos concretos o sustento do seu VÍCIO. Os torcedores, os de verdade, acompanharam tímidas notas falando sobre a provável volta da equipe. Diante daquele gigante despedaçado que era o estádio onde tantas vezes gritaram, questionavam-se uns aos outros sobre como crer no retorno.

Sopram ventos desgarrados
Carregados de saudade
Viram copos, viram mundos

Mas o que foi

Nunca mais será
[4]

A temporada atual abriu-se com o Gaúcho de volta aos campos. Não o profissional. E nem sozinho. Numa das raras medidas LÚCIDAS da Federação Gaúcha, uma PROTEÇÃO às equipes de peso histórico, a inscrição de quadros novos nos torneios estaduais de base encontra uma série de barreiras. Não raro, é preciso que as escolinhas, que botam em campo todos os seus jogadores, peguem emprestado o nome de algum clube já filiado à FGF. A Bola 10 de Passo Fundo competiu no Gauchão de Juvenis de 2009 como sendo o Sport Club Gaúcho. Fez uma campanha sem brilho, foi eliminada na lanterna da sua chave ainda na primeira fase, pero... Reviveu a arte de ser Periquito e ser livre para se orgulhar disso.

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga, não perde o entono
Vai repetindo a todos num velho grito

Passam os tempos, mas a terra ainda tem dono
[5]

Alguns dos jogadores daquela equipe podem ser aproveitados no plantel do Gaúcho para 2010. Agora sim, o profissional. Rudimar Pedro explica com desenvoltura as ideias do clube para a retomada. A começar pelas cabeças: o Gaúcho tem agora um conselho de 24 pessoas, a maioria jovens com idades entre trinta e quarenta anos, e com isso planeja ter quem o dirija por pelo menos mais uma década e meia. “Assim vamos eternizando o clube”, diz Rudimar, que pretende ser outra vez o vice de futebol no ano que vem. O presidente deve ser eleito ainda nesta semana.

Em campo, imagina-se o aproveitamento de cerca de dez atletas da equipe juvenil deste ano, perfilados a outros com idade de juniores. Time algum vai longe numa Segundona sem jogadores com as costas ENTORTADAS pela idade e experiência, e nomes rodados também devem alinhar com as vestes do Gaúcho. Chegarão ao clube, mas talvez não ao Wolmar Salton. Rudimar é esperançoso, acredita que o fato de a briga na Justiça ter potencial para se estender por até quinze anos vai fazer o outro lado chegar a um acordo, mas para 2010 não se sabe onde o clube atuaria.

Eu tenho berço, eu tenho pátria,
Eu tenho glória.

Eu só não tenho terra própria

Porque a história

Que eu escrevi

Me deserdou no testamento
[6]

A falta de campo próprio, entretanto, não seria empecilho. Ainda que jogar no Vermelhão da Serra, estádio do rival Esporte Clube Passo Fundo, seja hipótese descartada por infernal, há propostas de cidades vizinhas dispostas a ceder seus gramados. Getúlio Vargas e Marau são as mais cotadas. Não é uma saída desprezível, daquelas de clubes sem identidade que correm atrás de moedas oferecidas em cantos quaisquer do Rio Grande. É a necessidade de um resistente interiorano que batalha para preservar o seu nome. E as suas tradições.

O Gaúcho não tem dinheiro para fazer loucuras e tampouco carrega na alma o ímpeto de subir logo. Rudimar Pedro quer repetir o projeto do ano 2000, montando equipe capaz de se dizer favorita ao acesso só daqui a alguns anos. Antes disso, a meta é jogar com honra, ficando em posições intermediárias. Talvez vencendo, para inflar o ego, uns clássicos Ga-Pas contra o Passo Fundo, que também tem plano de retomar o profissionalismo no ano que vem. Para o Gaúcho, interessa estar na primeira divisão na temporada do centenário, no LONGÍNQUO 2018. Considerando esses últimos anos do clube, só a existência de um olhar tão à frente já é uma mostra de que o velho espírito guerreiro do Gaúcho resistiu a todas as tormentas.

Se lembro o tempo de quebra
A vida volta pra trás

Sou bagual que não se entrega
Assim no mais
[7]






* * *

Fotos tiradas do perfil Futebol de Passo Fundo, no orkut.

Para ouvir a reportagem sobre o Gaúcho feita para o Radar Esportivo, clique aqui.

* * *

Trilha sonora:

[1] Tropeiro do Futuro - Armando Vasques e Adão Vieira
[2] Pássaro Perdido - Gilberto Carvalho e Marco Aurélio Vasconcellos
[3] Só Restou - José Retamozzo e Marco Aurélio Vasconcellos
[4] Desgarrados - Sérgio Napp e Mário Barbará
[5] O Grito dos Livres - José Fernando Gonzales
[6] Da Terra Nasceram Gritos - Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Maestro Buri e Nito Padilha
[7] Veterano - Antonio Ferreira e Everton Ferreira

6 comentários:

Rafael Nunes disse...

Como árbitro de futebol licenciado desde de 2007 da FGF, é muito triste ver uma equipe de futebol estar nesta situação.Fiz mais de 10 jogos na segundona do Gaucho no estádio Wolmar Salton e sempre fui bem recebido.É triste ver um estádio onde fui muioto feliz na minha carreira de árbitro,dentro os jogos lembro de Gaucho x Lajeadense,Gaucho x 14 de Julio, entre outros.Além disso a equipe tinha bons jogadores que estão espalhados pelo Brasil.É um pena pois vi em 1984 aqui em Catuipe a equipe do Gaucho com Bebeto perder para o Caramuru por 2 a 0, era guri com apenas 10 anos e depois fui apitar jogos lá em P.fundo.Estamos na torcida para volta deste importante clube.

Prestes disse...

Que coisa genial essa matéria!

E pelo amor de deus, transformar o Volmar Salton em Wal Mart é crime contra a HUMANIDADE!

Caras, não parem com essas matérias!!!!! Coisa linda!!!

André R. Finken Heinle disse...

Uma das melhores matérias do Futbesteirol.


Parabens.

André Carvalho disse...

Como sempre, o Futebesteirol com matérias esclarecedoras e um ótimo texto, sem vergonha de ser feliz. Parabéns!

SPORT CLUB GAÚCHO disse...

(31/10/2009) Jogar no Estádio Wolmar Salton é a prioridade, diz novo presidente do Gaúcho.

Gilmar Rosso é o novo presidente do Sport Club Gaúcho. Falando à Rádio Planalto AM (730), o dirigente afirmou que existe a intenção de disputar a Segundona do Rio Grande do Sul em 2010, porém tudo vai ficar definido nas reuniões do grupo de trabalho.
Sobre o lugar para jogar, ele afirma que a prioridade continua sendo o Estádio Wolmar Salton, que sofreu diversos estragos no processo de impasse jurídico sobre a área. Estão ocorrendo reuniões envolvendo os representantes jurídicos do clube e da família do jovem que caiu na piscina e que recebeu no período a posse do estádio.
Se não for no Wolmar Salton, existem outras possibilidades. Tudo será analisado com cautela.
Gilmar Rosso também destacou o interesse de se preservar a história do clube - ele é professor de história e empresário - e, para tanto, já se pensa em uma camisas retrô de jogadores como Bebeto, Meca e Dyson Pontes.

JobelMendes disse...

Bom dia! Fico triste ao acompahar,o
estádio do SC Gaúcho em total abandono,pois em 1990,tive a oportunidade,de defender esta gloriosa equipe,que tinha como presdente o competente Rudimar,que montou,uma equipe forte,com o comando do treinador Deodoro,bons jogadores,como,Lambari,Luis Freire,Zeca,Netinho,Oneide,Giba,
Valter,um time forte.Fico torcendo para que o SC Gaúcho consiga dar continuidade na sua bela historia
como um dos mais tradicionaisclubes do estado.
Um abraço a todos.Jobel Mendes.