sábado, 19 de setembro de 2009

A Batalha de Santa Bárbara - Parte 4 (final)

Não dependia mais da vontade dos clubes. O Santa Bárbara versus São Luiz, interrompido em solo barbarense no dia 9 de dezembro por uma verdadeira batalha que tomou toda a cidade, remarcado para o dia 16 e impedido de acontecer por um estádio que apareceu destruído, teria lugar inapelavelmente no dia 20. Em Porto Alegre. Os onze dias que separaram a data da partida original e a data escolhida na última remarcação são tempo demais para clubes do interior. Muitos contratos já haviam acabado. O time de Ijuí podia oferecer a perspectiva de acesso para manter seus atletas, mas aos barbarenses restava pouco.

Grande parte do plantel da Associação Santa Bárbara já havia sido liberada para procurar outras paragens. Alguns jogadores colhiam os frutos da boa campanha e negociavam com equipes da primeira divisão para a temporada seguinte. Quem mais se empenhou para convencer o elenco a atuar só mais uma vez, no jogo do Beira-Rio, foi o treinador Bebeto. Já falecido, Bebeto foi uma das maiores lendas do interior gaúcho. Natural de Soledade, batizado Alberto Vilasboas Reis, ele nasceu em 1946. E viveu pelo esporte. Começou a carreira muito cedo, no Pampeiro da cidade natal.

Revestiu as paredes da casa de medalhas do início ao fim da sua trajetória no futebol. Pelo Pampeiro, conquistou o Campeonato Gaúcho de Amadores (Série Amarela), em 1964, com 18 anos. Vinte invernos mais tarde, estava no Gaúcho de Passo Fundo para pendurar as chuteiras com a glória de devolver à elite do Rio Grande o clube que dizia ser o do seu coração. Levou o time do Wolmar Salton ao título da Segundona Gaúcha de 1984, e ainda saiu artilheiro do certame, indo às redes 19 vezes.

Entre esses dois extremos, Bebeto rodou o Brasil. De acordo com material cedido por Telmo Machado e Gustavo Pezzini, administradores de várias páginas na internet sobre o futebol de Passo Fundo, o atacante deve ter marcado mais de 500 gols na carreira. Defendeu o Corinthians e o Juventus de São Paulo, o América do Rio e, no Nordeste, o Bahia, pelo qual se sagrou campeão estadual em 1971. No Rio Grande do Sul, passou pela Dupla Gre-Nal, atuando também no Inter de Santa Maria e no Caxias – é até hoje o segundo jogador que mais marcou gols na história da equipe grená.

Seu gene goleador transpareceu nos clubes passo-fundenses. Principiou no 14 de Julho de lá, primeira equipe profissional em que jogou, sendo artilheiro da Segundona de 1966. No Gaúcho, enfileirou as artilharias da primeira divisão estadual em 1973 e 1975. Ganhou o apelido de Canhão da Serra, e era já uma lenda naquele 1990 em que dava sequência à carreira de treinador iniciada cinco anos antes. Montou uma equipe que jogou muito mais do que se esperava em Santa Bárbara do Sul, e queria ver o time se apresentar até o fim.

Bebeto convenceu os jogadores a viajar para Porto Alegre. Foi apoiado por aqueles que miravam cobiçosos o bicho extra oferecido pelo Inter de Santa Maria em caso de vitória sobre o São Luiz. Contrariando os boatos de que não compareceria, o Santa Bárbara estava, sim, disposto a ir para a capital. Mas as verdades e vontades vêm em fragmentos no futebol do interior. E podem acabar se perdendo pelo caminho.

Os atletas que se dispuseram a viajar pela Associação Santa Bárbara aguardavam dentro do ônibus quando “veio outra decisão para nós não irmos”, explica Grillo. “O contrato dos jogadores tinha que ser renovado mais uma vez, e alguns já tinham proposta de outros times”. Os clubes que haviam feito algum vínculo com os antigos nomes do Santa Bárbara não aceitaram abrir exceções por conta da partida extraordinária, decepando a possibilidade de se formar uma equipe inteira para mandar ao Beira-Rio.

No fim da tarde daquele 20 de dezembro, só um time apareceu no gramado em Porto Alegre. O São Luiz era acolhido por um estádio gigante e vazio, sem o fervor dos alambrados interioranos, sem os cânticos e berros típicos dos alçapões da Segundona. E o São Luiz entrou em campo sabendo que não iria jogar. O Sindicato dos Atletas Profissionais tentou causar nova reviravolta, enviando um advogado ao estádio para informar ao árbitro que aquela partida não poderia sair. Ele aguardava uma liminar do Tribunal Regional do Trabalho para cancelar o jogo, que havia sido marcado para o período de férias dos jogadores.

O papel nunca apareceu. A CBF já havia autorizado a partida, e determinado que as férias dos elencos das duas equipes envolvidas naquele jogo começariam no dia 22. Pontualmente às seis horas, o sempre presente árbitro Carlos Martins deu início ao tempo de tolerância necessário para decretar a vitória por WO a favor do São Luiz. Os jogadores de Ijuí ficaram com o juiz dentro de campo por vinte minutos, até o resultado se confirmar. Disputando apenas meio tempo de jogo, isso duas semanas antes, passando por dois adiamentos, uma guerra e um estádio destruído, o São Luiz ganhava os pontos de um jogo que não chegou ao fim – e no qual não anotou um bendito gol. Recebia a vitória e, com isso, superava o Inter-SM em um ponto, garantindo o acesso junto com o Guarani de Venâncio Aires.

Mário Cassol, dirigente do Inter-SM que defendera a causa do time até o fim, anunciou a desistência de continuar brigando nos tribunais. Afirmou haver um “pacto” para fazer o São Luiz subir e que de nada adiantaria recorrer. Poucas horas depois da garantia de vitória ijuiense, a Federação cumpriu suas ameaças ao Santa Bárbara, e assinou a desfiliação do clube. Por um ano, os barbarenses não poderiam disputar qualquer tipo de competição oficial.

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As recordações de quem viveu a batalha e seu desenrolar resistiram aos anos que, de uma forma ou de outra, foram apagando os comentários em relação ao jogo. “Quando a gente ouvia falar de Santa Bárbara, olhava meio de lado. Pessoas que não tinham nada a ver com a briga, mas só por ser de Santa Bárbara tu já desprezava”, profere Renato Moraes, um dos que saíram sem maiores ferimentos, mas esteve no centro da selvageria.

Quem apanhou mais conviveu por tempos com os reflexos físicos da violência sofrida. Mas as sequelas não foram só corporais. Jair Galvão, o nascido em Ijuí que jogava em Santa Bárbara, que diz ter recusado suborno por parte do São Luiz e que acabou marcando o gol do seu time no jogo interrompido, explica como foram os tempos posteriores: “eu tive tentativas de agressão, até porque a torcida de Ijuí é muito fanática. Então eu tive muita dificuldade. Minha família teve represálias dentro da comunidade”.

Galvão virou treinador. Hoje coordena a equipe do GBM que, em parceria com o Ouro Verde do Bairro Assis Brasil, disputa o Campeonato Gaúcho de Juvenis. Já esteve no São Luiz, e credita ao episódio de Santa Bárbara as suas saídas do clube: “eu fui treinador do time júnior do São Luiz em 2001. Fiquei em quarto lugar no Estado, eliminando o Grêmio no Olímpico, e no ano seguinte assumiu uma nova diretoria que falou que eu era uma pessoa não grata dentro do clube. Fui dispensado.”

Mais tarde, quando o São Luiz foi rebaixado, Jair Galvão foi convidado para tentar reerguer o clube. Em 1990 ele marcou o gol que poderia ter minado o acesso são-luizense. Mas aquele São Luiz subiu e ficou na primeira divisão até 2003. Ironicamente, quinze anos depois, era o mesmo Jair Galvão quem estava na casamata do São Luiz. Comandou a equipe que seria campeã da Segundona de 2005, repetindo o feito de 1990. Apesar do sucesso, o passado voltou para assombrar: “no ano seguinte, em 2006, novamente assumiu uma outra diretoria e o Jair Galvão voltou a ser pessoa não grata no Esporte Clube São Luiz. Essa é a história. É a história de uma pessoa que foi muito injustiçada dentro da comunidade de Ijuí”, lamenta o treinador.

* * *

O título da Segundona de 1990 só foi definido em março de 1991. São Luiz e Guarani, os dois ascendidos, enfrentaram-se primeiro em Venâncio Aires, depois em Ijuí. O São Luiz levou 1 a 0 fora de casa e recuperou o resultado dentro do 19 de Outubro. Na volta, triunfou por 3 a 1 após a prorrogação e levou a taça.

Foi a abertura de um período de grandezas. Naquele início de década, o São Luiz cobriu o pavilhão do 19 de Outubro, instalou cadeiras no setor e montou uma das melhores equipes da sua história. Ainda em 1991, seria vice-campeão da Copa Governador do Estado após eliminar o Grêmio, perdendo a final para o Inter, em Porto Alegre. No momento mais luminoso, foi à capital para empatar um jogo-treino com a Seleção Brasileira, por 0 a 0, dia 2 de julho.

O ano de 1991 também marcou a transição do comando da Federação Gaúcha. Rubens Hoffmeister passou o cetro para o ijuiense Emídio Perondi. A fórmula do Gauchão foi alterada, e o campeonato da primeira divisão, que deveria ter apenas 14 equipes, foi inchado e aumentou o número de inscrições para 20. O certame teria espaço na parte final do ano, e as vagas extras seriam definidas pelas campanhas nos torneios do primeiro semestre da temporada.

Nenhuma das equipes que fora eliminada no octogonal final da Segundona de 1990 conseguiu um desses lugares. Brasil de Pelotas e São Paulo de Rio Grande, ambos da divisão inferior, subiram pelos resultados na Copa Cidade de Porto Alegre. Graças ao mesmo torneio, o Aimoré de São Leopoldo e o Novo Hamburgo, que foram rebaixados no Gauchão de 90, permaneceram na elite. Dínamo de Santa Rosa e Tabajara-Guaíba, o Taguá de Getúlio Vargas, os dois vindos de participação pífia na Segundona do ano anterior, apareceriam nos carnês da primeira divisão em função dos bons resultados na Copa Aneron Corrêa de Oliveira.

Maior prejudicado pelo conflito em Santa Bárbara, o Inter de Santa Maria não conseguiu aproveitar a chance de subir por esses atalhos e amargou outro ano na categoria inferior do Estado. Desta vez, porém, não despedaçou suas ilusões. Em 11 de dezembro de 1991, alcançou o sonho negado na temporada anterior e subiu para a primeira divisão como campeão.

Oficialmente a Batalha de Santa Bárbara deixou apenas cinco feridos. Um número desprovido de qualquer noção do que realmente aconteceu. O dado confiável é que não houve mortes. Mortes humanas, pelo menos. A Associação Santa Bárbara de Futebol, desfiliada da FGF por um ano, nunca mais recuperaria sua força. Tentou um retorno nos anos seguintes, sem conseguir levar os projetos adiante. Desanimado e sem dinheiro, o clube não tem perspectivas de retornar ao profissionalismo algum dia.

Hoje o estádio José Antonio Dumoncel é a testemunha muda de um dos mais surreais embates que se viu em função do esporte. “Não sei se não foi uma das maiores batalhas que houve no futebol”, diz Renato Moraes. Nos dias seguintes, como nunca fora, o Brasil inteiro e até o exterior cederam alguns segundos preciosos de seus noticiários para falar sobre o que acontecera na definição de um campeonato estadual – e um campeonato estadual de divisão inferior. “Mas o que foi comentado não foi o jogo, e sim a confusão do jogo. Nunca tinha acontecido uma coisa dessas”. Era o mundo conhecendo a Segundona Gaúcha.

2 comentários:

Alex Acosta disse...

Ola Mauricio.
Fantastica reportagem....Estive presente neste jogo e estava na copa (bar) do estadio e vi quando um pedrada acertou um menino na cabeca. Eu tinha 15 anos na epoca, mas lembro bem da cena, era na hora do intervalo do jogo. Bom fiquei muito feliz e ver a tua materia, realmente muito boa. Sou natural de Santa Barbara do Sul e morei por anos a somente 5 minutos deste estadio, cancei de pular o muro do estadio para assistir aos jogos. Eu atualmente moro na California nos Estados Unidos.
Se quiser entrar em contato posso dar mais detalhes do que me lembro ainda daquele dia. Grande abraco. Alex Acosta (acosta.alex@yahoo.com)

Tiago disse...

Eu tinha 10 anos, e lembro da mobilização dos Ijuienses para o jogo. O estádio tinha somente um portão de saída e não tinhamos outra opção se não pularmos o muro pelas arquibancadas atrás da goleira. Acompanhado pelo meu pai, nós saímos um pouco antes da confusão ganhar as ruas e os carros serem apedrejados...
Lembro que na área da torcida de Ijuí não havia banheiros, copa e nem torneiras para tomar água...
Parabéns pela reportagem! Esse acontecimento, apesar de triste, faz parte da lembrança de muitos Ijuienses...

Tiago Martins