domingo, 8 de março de 2009

Os Onze Revolucionários

Este conto é dedicado à Laura Gelain, uma zagueira má
E também é uma homenagem despretensiosa a todas as mulheres no seu dia

Um verão pelos idos de 1926, assim contam os antigos, foi o marco zero do futebol da cidade. Meio românticos, pouco confiáveis, mas únicas testemunhas ainda vivas, os velhinhos relatavam a passagem de um vendedor uruguaio místico por ali. Invariavelmente fumando um charuto de procedência desconhecida, aumentando a fumaceira com incensos ao seu redor, El Chisme, como se identificava, carregava de óleos a pequenos armários, de charque a animais vivos, de vinhos a uma água que dizia ser “purísima”. E também vendia camisas.

Havia, um pouco fora da vila, um descampado plano, coberto de capim alto, e lá os jovens se reuniam para chutar desajeitadamente um balão de couro. Chisme percebeu e começou a dar unas sugerencias. Parou sua carroça ao lado do grupo de uns quinze projetos de futebolista e apresentou-lhes um ancinho como foice. Não uma foice como a que eles tinham, mas A Foice de Tacuarembó. Não sabiam o que era uma foice de Tacuarembó? Pois ela deixaria aquele campo com cara real de gramado de balompié em menos de meia hora. Os velhinhos não contam se foi porque os incensos tinham propriedades alucinógenas, se os jovens eram ingênuos ou se tinham uma vontade desesperada de melhorar a sua técnica, mas aqueles quinze acreditaram que o ancinho mostrado pelo uruguaio era uma colossal foice de Tacuarembó. “Sim, sim, é a famosa foice, vamos comprar”, diziam, mesmo sem jamais ter ouvido falar dela.

Limparam o terreno em seis horas, revezando-se, e quando foram reclamar com o uruguaio, ele chacoteou os jovens. “Ah, los inocentes”, pensava, enquanto dizia que eles ainda não entendiam o uso, mas compensaria aquele tempo perdido vendendo legítimas camisetas da Seleção Uruguaia pela metade do que valeriam. Camisetas futebolísticas eram raríssimas em 1926. Estrangeiras, então... e da Seleção Uruguaia, “campeã mundial” nas Olimpíadas de dois anos antes, eram um sonho. Quem observa as fotos daquele tempo hoje sabe que El Chisme enganou os jovens pela segunda vez. Vendeu camisas comuns, listradas em branco e algum tom de azul, provavelmente celeste, mas não vendeu as legítimas camisas da Celeste Olímpica que prometera. Os jovens, que não sabiam, resolveram homenagear e, com um campo limpo e um uniforme, fundaram o seu time de futebol: o Oriental Football Club.

Corta para 1936. Dez anos depois de nascer o Oriental, a vila crescida conseguiu se emancipar. O time abandonava os torneios da antiga sede municipal, enfrentando agora os seus velhos rivais em meros confrontos amistosos. Não podia aquela cidade, tão tradicional no cenário da região, não poder ter um campeão por falta de adversário. Viraria até piadinha: “aquele time foi campeão citadino por vinte anos seguidos, aí fundaram um outro clube e ele perdeu... mas foi vice”. Não. O prefeito convocou a juventude citadina e disse que o Oriental, que tanto enobrecia a localidade e papapá, não podia reinar absoluto, que era preciso fazer uma nova equipe e que aqueles que se dispusessem a isso deveriam se reunir na prefeitura para receber a doação de um terreno onde poderiam fazer seu campo.

Mas todos gostavam do Oriental e suas camisetas-listradinhas-de-marinheiros, achavam um absurdo dividir a cidade pelo esporte bretão. De acordo com os velhinhos, e essa é a parte mais surpreendente do relato, pois nos arquivos oficiais consta “morte natural”, em alguma noite do intervalo de dois anos que se passou sem interessados em fundar um novo clube, o prefeito foi morto a tiros. Supostamente por diretores orientais. Nunca confirmada, a versão clandestina ganhou adeptos na época, e muitos dos que já estavam fartos da prepotência do clube, que também influenciava a vida social, resolveram se unir para levar adiante a ideia de uma segunda equipe. Eram vinte e nove, mas para honrar os atletas que entrariam em campo aos domingos, foram à prefeitura registrar a equipe como Onze Amadores.

E mudaram os planos. Bem menos entusiasmado com o esporte, o novo mandatário não cederia terreno algum para se construir um estádio ou o que valesse. Podiam formar a equipe, ele apoiava, mas terrenos públicos eram terrenos públicos e futebol era só futebol. “Mas é um terreno baldio!” Não adiantou. Os Onze Amadores terminaram registrados na Comissão Municipal de Desportos como Onze Revolucionários, em protesto. Aos que perguntavam se havia alguma segunda intenção no nome, respondiam que era uma homenagem ao Vargas e ao seu movimento de 1930. Os anciãos dizem que os fundadores nunca convenceram em suas explicações, mas como ninguém podia desmentir, mantinham o nome. A questão do campo foi resolvida por Nialeg, rico norueguês que comprou o “terreno (baldio) público” no centro da cidade e que recebeu dos companheiros, em troca, uma posição de atacante titular.

Não era um absurdo num tempo em que se jogava com cinco homens na frente. Mas do alto dos seus trinta anos, Nialeg jamais havia acertado um pontapé num balão de couro. Não sabia jogar futebol. Gostava do esporte, não gostava do Oriental, daí que por birra resolveu apoiar os dissidentes, mas não pretendia entrar em campo. Pego de surpresa, não soube como recusar o convite. Seria uma desfeita muito séria. Em seu país, do qual saíra há meia década, o norueguês jogava o bandy, uma espécie de hóquei no gelo disputado em estádios abertos e com regras parecidas com as do futebol. Parecidas. Os patins que trouxera da terra natal, os quais ostentavam um miniescudo do Stabæk Bandy, seu antigo clube, juntaram poeira e teias naqueles cinco anos de inutilidade. O tão anunciado frio gaúcho era um agradável dia invernal da sua Noruega. Se há alguma forma de um coração chorar, o coração de Nialeg chorava quando ele pegou a serra no galpão de casa e começou a tirar as lâminas dos patins, convertendo-os em botinas futeboleiras.

Os Onze Revolucionários nasceram em março de 1938. Em maio a alfaiataria entregou as camisetas brancas, com um círculo negro em que se via um “11” amarelo dentro. Tinha-se um uniforme. Na cidade, os simpáticos à causa da equipe recém-surgida faziam broma e diziam que esses não tinham sido enganados por uruguaios desonestos. Tinha-se uma rivalidade. O Campeonato Citadino foi marcado para algum dia não registrado do final de julho, “o dia mais chuvoso e de gramado mais embarrado em muitos anos”, de acordo com as testemunhas. Até lá, os Onze, que na realidade eram vinte e nove, treinariam. Aliás, treinariam vinte e oito para definir os dez que acompanhariam Nialeg, já garantido no primeiro primeiro quadro da história da equipe. Nialeg não treinou. Tremeu. Tinha medo de perder o respeito dos companheiros quando demonstrasse sua total ausência de noção do jogo. Fugia a todo o custo das muitas tardes em que se treinavam passes e chutes e, em casa, pedia conselhos à esposa.

Vinda de Oslo, onde o Lyn apresentava seu futebol desde 1896, ela entendia do jogo. Das suas jornadas passadas no Ullevaal Stadion guardara duas mensagens muito repetidas pela assistência ao seu redor: luta e determinação. Era o que deveria haver no futebol. Foi o que houve na Seleção Norueguesa de 1936, que atingiu o bronze olímpico em Berlim depois de eliminar a Alemanha sob o olhar de Hitler. Essa façanha eles acompanharam pelo rádio de ondas curtas. “Dê carrinhos. Se for preciso arme uma briga, mas lembre que precisa saber o que fazer com a bola quando a tiver. Jørgen Juve só dribla para ir ao ataque, e só chuta quando está na melhor posição”, dizia ela, com sotaque, claro, referindo-se ao então artilheiro do Lyn e até hoje maior goleador da história do selecionado nacional da Noruega – que jogava muitas partidas como um defensivo lateral-direito, apesar dos números.

Luta e determinação. Mas Jørg era completo. Ele, Nialeg, não. Treinava escondido, nos fundos de casa e, por ser respeitado, não sofria com questionamentos dos colegas sobre suas ausências nos treinos coletivos. Nialeg exercitava a pontaria chutando um esférico numa janela aberta, que dava em uma sala vazia. Reprovando com a cabeça, a esposa, ao lado das duas filhas, via o homem da casa acertar um em cada quarenta tiros. Sugeriu-lhe que mudasse de posição. Estava nítido que não prestaria para goleador. Ele gostou da ideia. Foi à sede do clube, a casa de um dos centrocampistas, e pediu para ser um right-back, “como Jørgen Juve”. Praticamente dono do Onze Revolucionários, Nialeg teve o pedido atendido. Se não precisava saber chutar, não precisava treinar, concluiu. Sentada na sala e constatando a besteira do marido, a mulher punha a mão na cabeça como se pensasse “por que eu fui sugerir aquilo?”, mas abria um sorriso malicioso de quem conhece o fim da história para teimosos do tipo. Na hora, recordou-se da final da Copa da Noruega de 1923, quando vira de dentro do estádio o Lyn, então com quatro taças do torneio, desprezar o nunca-antes-campeão Brann e perder por 2 a 1. Previu o fracasso dos Onze e do marido em especial.

Chegou o dia da partida. O maior evento da história da cidade. Uma cena megalomaníaca. Da prefeitura, a banda municipal saía tocando marchinhas carnavalescas, e atrás dela vinham os dois times, lado a lado, andando pelas ruas até chegar no estádio. “Toda a população saiu de casa”, dizem os idosos, “carregavam lenços pretos para indicar que apoiavam o Onze ou azuis para dizer que estavam ao lado do Oriental”. Havia muito mais lenços azuis. Como o campo escolhido fosse o do time revolucionário, já que central, a caminhada da banda e das equipes não demorou muito. O campo não tinha mais que marcações pintadas e traves com redes. Separando a torcida do gramado, uma cerquinha de madeira. Mas eram todos civilizados dentro dos seus vestidos-de-festa e ternos. No momento do hino nacional, Nialeg suava frio. Pensava que poderia estar em qualquer lugar, fazendo qualquer outra coisa, e refletia sobre o absurdo que era estar ali, tão distante da sua Noruega, defendendo um time sem história pelo título de um município que mal e mal se estabelecia. E o mundo daquele jeito, os boatos de que uma nova Grande Guerra estaria se aproximando. Pensava na pequenez de tudo aquilo e na grandeza desproporcional da sua vergonha.

O Oriental venceu, ironicamente, marcando onze gols. Onze a dois. Nialeg não foi capaz de conduzir a bola por mais que três metros, furou dezenas de vezes, e os senhores que hoje se sentam na praça para ver o fim da vida passar afirmam que suas falhas foram decisivas para que saíssem pelo menos sete dos gols adversários. Na noite do dia da partida, bebendo cervejas irlandesas, os vinte e oito outros fundadores deram tapinhas consoladores nas costas de Nialeg e decretaram o fim dos Onze Revolucionários. Arrasado, o centroavante que virou lateral-direito e que não sabia chutar uma pelota, voltou para a casa. Era frio, não chorava. Mas seus sentimentos faziam a cabeça explodir, o peito doer. Com a mesma face dos dias normais, sofria. Entrou em casa pela porta dos fundos, sua mulher já o esperava, e com a memória de mil atacantes adversários passando por cima dele como bisontes desnorteados, perguntou o que havia feito de errado, o que faltara, por que fracassara.

– Queria o quê, se nem carrinhos deu?

Naquela noite, o marido dormiu no sofá da sala.

3 comentários:

Maurício Brum disse...

A foto que ilustra o post é do Onze Amadores, equipe real formada em Ijuí na metade da década de 1920. Além do nome, não há qualquer relação da sua história com a do conto. Ao menos, não intencionalmente, haha

Diego disse...

Olha só...

Anônimo disse...

Show de texto Maurício. Parabéns. Tem que pensar em publicar estas matérias... Abraços Argemiro