sábado, 28 de fevereiro de 2009

Sísifo e o Gauchão

Há uma cidade, Éfira, no meio da Argos apascentadora de cavalos
Lá viveu Sísifo, o mais ardiloso dos homens
(Ilíada)


Contemplando suas oliveiras em alguma tarde ociosa de algum ano arcaico, os gregos antigos pensavam “que tédio!”. Resolveram então criar competições esportivas, guerras, a pornografia (ou quase) e a sua mitologia. Um dos mitos fala sobre Sísifo, fundador de Éfira (Corinto), e a sua desgraça eterna.

Promotor da navegação e do comércio, inventor dos Jogos Ístmicos, mas também um assassino de viajantes e hóspedes de seu reino, o mesquinho Sísifo alvoroçou o Olimpo quando ousou revelar os segredos dos deuses aos homens. Furioso como não ficava nem nos seus dias de constipação mais violenta, Zeus enviou Tânatos, a personificação da morte, para carregar o herege às cruéis e olvidadas profundezas do terrível Mundo Subterrâneo. Aquilo foi rebatizado na era cristã como Inferno, mas a sociedade contemporânea conhece pelo nome de Série D.

Sísifo, entretanto, era “o mais ardiloso dos homens”. Usando de uma MALEMOLÊNCIA que faria o mais hábil driblador carioca chorar por humilhação, chamou Tânatos num canto e elogiou a sua beleza. Com o gelo quebrado e os ares mais alegres, Sísifo disse algo como “esse colar FÚCSIA vai dar um caimento que é uma beleza no seu corpitcho” e pediu para colocá-lo no pescoço da divindade, como enfeite.

Tratava-se de uma coleira. Sísifo aprisionou Tânatos, continuou vivo e, nas semanas seguintes, houve regozijo geral, bebedeiras sem temor e orgias por toda a terra, já que ninguém mais morria. Nas profundezas da quarta divisão, o soberano do Mundo Subterrâneo Hades recorreu ao presidente do STJD dos deuses e avisou que com aquele efeito suspensivo não dava mais para trabalhar, que daquele jeito teria que fechar as portas, e que se não houvesse providências apelaria para ignorância.

Zeus, político, liberou Tânatos, que imediatamente entregou Sísifo nas mãos de Hades. Só que aquilo era uma novela parecida com a contratação de Maxi López pelo Grêmio, e o astuto Sísifo já tinha um plano de ação: em segredo, pedira à esposa que não lhe enterrasse. Uma vez no inferno arcaico, ajoelhou-se aos pés de Hades e implorou por apenas mais um dia de vida, um único dia em que se vingaria da maldita que não havia sido capaz de lhe dar a dignidade de uns rituais fúnebres.

Eram tempos mais inocentes e, Hades, tido por impiedoso e insensível como um volante do Bagé, daquela vez fraquejou e caiu feito um patinho. Sísifo retornou à vida, pegou a esposa, correu, correu e correu de um jeito que só milênios depois se veria semelhante, com os laterais que cobrem todos os espaços entre as duas linhas de fundo, e venceu a morte pela segunda vez. Sumiu do mapa e, embora não fosse dos tempos de contos de fada, viveu feliz para sempre. O azar dos mortais é que eles são, bom, mortais – e o “sempre” de uma vida dura a extensão dela própria. Passados alguns anos, Sísifo retornou ao Mundo Subterrâneo naturalmente, morrendo de velhice.

Hades riu. Encarando os auditores do STJD do Olimpo, Sísifo ouviu a sentença definitiva, escolhida de forma unânime: estava condenado a levar uma enorme pedra de mármore ao alto de uma montanha. Pela eternidade. E cada vez que a pedra estivesse se aproximando do topo, ela seria conduzida por uma força incontrolável e rolaria de volta até o nível do chão, obrigando-o a reiniciar o trabalho.

A maior das desgraças: realizar um trabalho pesado, exaustivo, repetitivo e... inútil. Se as notícias do Gauchão chegam até a montanha onde Sísifo continua rolando seu pedregulho, ele deve considerar os clubes do interior parceiros em sua sina. Desde 1955, todos os estaduais tiveram pelo menos um time da Dupla Gre-Nal como campeão ou vice. Significa dizer que, com o Campeonato Gaúcho tendo o formato moderno, longo, adotado em 1961, Grêmio ou Inter ou ambos SEMPRE estiveram em alguma das duas primeiras posições. Em 2009, de novo o árduo esforço interiorano para destruir a hegemonia deu em nada. Os animadores Ypiranga e Santa Cruz caíram cedo, enquanto os surpreendentes Novo Hamburgo e Veranópolis não sobreviveram às semifinais na capital, disputadas quinta e sexta-feira. Grêmio e Inter decidirão o primeiro turno em Clássico. Garantem que, como de costume, um deles estará na final. Os Sísifos do interior observarão o jogo de domingo como mais um rolar da pedra montanha abaixo.

3 comentários:

Laura disse...

se eu tivesse lido só o ultimo parágrafo.. ¬¬ uahsua :P

matheus disse...

Caraca!

Valeu pela aula de mitologia. Eu tinha umas histórias dessas, mas caí no erro de emprestá-las. Nunca mais vi.

Brasileirão disse...

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