segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Copa sem fim

Ao derrotar o Nice por 0-1, fora de casa, pelas oitavas-de-final da Copa da França de 1991/92, o Bastia passava dessa fase eliminatória pela primeira vez após nove temporadas. Era importante. Os melhores tempos do clube pareciam estar irrecuperavelmente perdidos no passado: vice da Copa da UEFA em 1978, vencedor da Copa da França em 1981, o quadro corso já amargava presença na segunda divisão desde 1986, onde não conseguia construir maiores expectativas de retornar muito cedo.

Daí o alívio daquela Copa de 1992. A campanha pouco genial na liga inferior era contrabalançada por classificações sobre o Annecy, o Thonon, o Fesches-le-Château, o Toulouse e, agora, o Nice – todas sem levar gols. Nas quartas-de-final a impenetrabilidade da defesa atingiu alturas anedóticas quando ela permaneceu sem ser vazada mesmo após uma disputa por pênaltis: empate sem gols com o Nancy no tempo normal e vitória por 3-0 desde os onze metros.

Vitória e surpresa geral na França. Depois de um decênio inteiro de frustrações, os corsos avançavam até as semifinais, sendo os únicos representantes da segunda divisão a atingir uma fase tão distante naquela temporada. Como prêmio, foram sorteados para um confronto de sonhos, ganhando a chance de receber em seu estádio o lendário Olympique de Marseille de Papin e Abedi Pelé – embora os torcedores da Córsega estivessem muito mais interessados em reencontrar o goleiro Pascal Olmeta, revelado no Bastia, titular de então no OM.

O 5 de maio de 1992 amanheceu com céu azul e um em cada dez corsos saiu de casa para superlotar os 18 mil lugares disponíveis no estádio Furiani, cuja capacidade fora aumentada especialmente para o jogo. Um dia de festa na ilha, atraindo até torcedores do rival do Bastia, o Ajaccio, para apoiar a ilusão de chegar à final eliminando a equipe que os franceses insistiam em colocar como a melhor da Europa (e que de fato era, como se veria na Copa dos Campeões de 1993). Em toda a cidade ecoavam cânticos de apoio ao clube, gritos de guerra intimidando os de Marselha. Das arquibancadas, os nomes escalados anunciados pelo alto-falante eram repetidos a plenos pulmões enquanto as equipes aqueciam (foto do topo): Valenconi, Bianconi, Triki, Soumah, Poggi, Salou, Di Fraya, Rzepka, Taberner, Mangione e Bourraka. Entraîneur, Rene Exbrayat.

A ansiedade prévia ao apito inicial alongava os instantes de espera. Eram 20:20 da tarde, o jogo iniciaria dali a dez minutos, quando o telejornal da TF1 francesa entrou com imagens em direto do Furiani. Pegariam comentários preliminares do narrador Thierry Rolland antes de iniciar a transmissão de fato. Nisso, um ruído surdo, assustador. A seguir, o silêncio. Terminavam as cantorias e as músicas. Terminavam as batidas de tambor e os berros. Diante dos olhos da França, a tribuna norte, erguida provisoriamente para a partida, na qual alguns torcedores diziam se sentir como sobre um barco, tal a sua instabilidade, ruía.
O ambiente festivo foi substituído pelo desespero ao cair da noite. Invasões de gramado, pessoas tentando aparecer nas imagens de tevê para sinalizar que estavam bem, atendimentos dentro do campo, helicópteros pousando para carregar os feridos até o continente. Como cenário, um estádio que ia sendo melancolicamente esvaziado, deixado aos machucados, às equipes médicas. Dos 18 mil espectadores do Furiani, 2.357 saíram feridos, 18 mortos. Dos responsáveis pela organização do estádio e da partida, apenas oito foram condenados – com penas máximas de dois anos de reclusão, num julgamento acompanhado com indignação pelos corsos e usado na propaganda dos grupos separatistas da ilha.A esperada partida semifinal nunca ocorreu. O Bastia propôs a realização de um amistoso beneficente às famílias das vítimas e o Olympique negou: queria o jogo oficial. Pediu à Federação Francesa de Futebol que remarcasse o duelo para um campo neutro, mas também não foi atendido. A FFF não proporcionou o confronto das duas equipes naquela temporada e, numa decisão inédita, anulou a Copa da França de 1992. Sem um campeão, a vaga na Recopa Européia do ano seguinte foi dada ao Monaco, vencedor da outra semifinal.

O Bastia adaptou seu estádio às normas de segurança. Hoje, o Stade Armand-Cesari, como também é conhecido o Furiani, recebe 16.480 espectadores, e passa por reformas constantes. A ascensão do clube à primeira divisão veio em 1994, e desde lá eles têm oscilado entre a elite e a segundona em que se encontram atualmente. Uma campanha em Copa da França como aquela de 1992, no entanto, é tão difícil que tardou outra década: só foi superada com o vice-campeonato em 2002.

Um comentário:

CALIGULA disse...

Buenisimo post del 92! Grata lectura.

Saludos de Buenos Aires.